“Remember I Am Dead”, de Noel Alejandro, é uma experiência que se infiltra lentamente sob a pele, menos um filme sobre fantasmas e mais uma meditação erótica sobre presenças que insistem em não desaparecer. Com 56 minutos, o trabalho reafirma o cineasta como um dos nomes mais inquietos surgidos na interseção entre o cinema autoral e o cinema adulto, onde o desejo nunca é gratuito, mas sempre carregado de memória.
Na calada da noite, em uma paisagem rural quase suspensa no tempo, acompanhamos Sagat, um fazendeiro de 31 anos, caminhando por um cemitério esquecido, uma imagem que já anuncia o tom elegíaco do filme. Ao amanhecer, a aparição de Roman, um enigmático homem de 29 anos, na sala austera de sua casa, inaugura uma narrativa que não se organiza pela lógica, mas pelo afeto e pela estranheza. Interpretados por Pierre Emö e Brandon Jones (também conhecido como Jonzu), os personagens se movem como se compartilhassem uma memória que o espectador nunca acessa completamente, e é justamente nesse vazio que o filme encontra sua força.
Alejandro constrói sua mise-en-scène como um sussurro: silenciosa, rarefeita, quase espectral. A sensação de familiaridade inexplicável que liga Sagat e Roman não busca resolução; ao contrário, o filme insiste no mistério como linguagem. Por que Roman está ali? O que os une? Em vez de respostas, “Remember I Am Dead” oferece um estado de suspensão emocional, onde passado e presente se contaminam continuamente, criando uma atmosfera em que o tempo parece dissolvido.
Descrito como um “abraço morno tingido de solidão melancólica”, o filme traduz essa ideia com rigor formal. Há algo profundamente íntimo na forma como os corpos são filmados, não como objetos de desejo imediato, mas como arquivos vivos de experiências, perdas e fantasmas. Alejandro, conhecido por suas narrativas não convencionais dentro do cinema adulto, aqui radicaliza sua proposta ao esvaziar o erotismo de sua função mais evidente, transformando-o em vestígio, em eco, em algo que resiste.
Um dos elementos mais fascinantes é o uso do som ou melhor, da ausência dele. A trilha sonora, funciona quase como uma anti-trilha, reforçando o silêncio e ampliando a sensação de desamparo. Esse vazio sonoro não apenas intensifica o caráter fantasmagórico da obra, mas também desloca o espectador para dentro de uma experiência sensorial onde cada gesto, cada respiração, ganha peso dramático.
“Remember I Am Dead” oferece uma jornada introspectiva sobre desaparecimento, memória e a natureza assombrosa do que não pode ser resolvido. É um trabalho que redefine o gênero dos mortos-vivos ao abandonar o horror explícito e abraçar uma melancolia persistente. Uma experiência erótica, bela e profundamente assombrada.
https://drive.google.com/file/d/1I56zGprGely0YBUUD_U7KAgOad1FoYxn/view?usp=sharing
ResponderExcluirobrigado
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