quinta-feira, 19 de março de 2026

Guardião (Brasil, 2025)

“Guardião”, dirigido por Eduardo Tosta, constrói uma narrativa delicada a partir de um gesto simples, mas profundamente simbólico. Ambientado em Salvador, o curta segue Fernando (João Sena), uma criança que decide ir fantasiada de Curupira para uma festa escolar, incorporando elementos que tensionam expectativas de gênero, e seu avô Lino (Carlos Betão), que se vê confrontado com esse desejo. A partir dessa premissa, o filme organiza um embate íntimo entre afeto e norma, onde o cotidiano familiar se transforma em campo de negociação emocional. A escolha de situar a narrativa no espaço doméstico reforça o caráter íntimo da história, permitindo que pequenas ações e reações ganhem peso dramático.

A relação entre avô e neto é o eixo emocional da obra, construída por meio de diálogos singelos e de uma expressividade que se manifesta sobretudo nos gestos. Lino não surge como uma figura rígida, mas como alguém atravessado por contradições, preso entre o cuidado genuíno e os valores que o formaram. Essa ambiguidade dá densidade ao personagem. Fernando, por sua vez, é apresentado com uma espontaneidade que captura a inocência de quem ainda não compreende plenamente os códigos sociais que o cercam. O encontro entre essas duas temporalidades, a "criança viada" em descoberta e a velhice em revisão, estrutura o conflito do filme com sensibilidade.


A presença do Curupira como figura simbólica é um dos achados mais interessantes da narrativa. Tradicionalmente associado à proteção da floresta e à subversão de caminhos, o personagem folclórico é aqui reconfigurado como um vetor de desconstrução de gênero. Ao incorporar saia e elementos considerados femininos à fantasia, Fernando ativa uma leitura que desloca o folclore para um campo contemporâneo de debate sobre identidade. O Curupira deixa de ser apenas uma entidade mítica para se tornar um dispositivo narrativo que questiona normas e propõe outras possibilidades de existência.


Em vez de tratar a infância queer como problema ou desafio, Tostes a apresenta como espaço de imaginação e liberdade, ainda não totalmente capturado pelas violências do mundo exterior. O despertar queer é sugerido com delicadeza, atravessado por curiosidade, desejo de expressão e pequenas transgressões. Ao mesmo tempo, o filme não ignora o choque geracional que acompanha esse processo, evidenciado tanto nas reações do avô quanto na figura da vizinha Terezinha (Luciana Souza), cujos pensamentos retrógrados funcionam como representação de uma sociedade que vigia e regula corpos desde cedo.


 “Guardião” revela um cuidado estético que amplia a potência de sua narrativa. A fotografia, de Black Mamba, merece destaque ao capturar o aconchego do lar, mas também a luz e as cores de Salvador com uma sensibilidade que dialoga com o estado emocional dos personagens. Há uma atenção particular aos detalhes, objetos, texturas, pequenos movimentos, que contribui para a construção de uma atmosfera poética. A trilha, com hinos da cantora Luka e uso pontual de música incidental, reforça o tom íntimo do filme, funcionando como extensão dos sentimentos que não são verbalizados. 


“Guardião” encontra sua força na sutileza. Ao abordar temas como identidade de gênero na infância, memória e afeto intergeracional, o filme evita o didatismo e aposta em uma construção sensível, onde cada gesto carrega significado. A jornada de Fernando não é apresentada como conflito resolvido, mas como um instante capturado de descoberta, ainda em formação. Nesse recorte, o filme encontra sua potência: na capacidade de registrar a beleza e a fragilidade de um momento em que ser quem se é ainda parece possível, mesmo diante de um mundo que, em breve, exigirá outras respostas. O curta será exibido em 27/03 no Cine Glauber Rocha, em Salvador.


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