quarta-feira, 18 de março de 2026

Days of August (EUA, 2025)

“Days of August”, de Mackenzie Marsteller, constrói uma narrativa que combina romance e ficção política em um cenário distópico. Ambientado em uma versão alternativa dos Estados Unidos dominada por um regime autoritário, o filme acompanha a trajetória de Godfrey Kilpatrick (Santiago Sepulveda), um escritor recluso ligado a um jornal clandestino que resiste ao governo. Quando ele redescobre o diário de seu antigo amante, August Dupree (Teryn Macallan), memórias de um relacionamento proibido emergem e obrigam o protagonista a revisitar tanto sua história pessoal quanto os conflitos políticos de sua juventude. A trama transforma o filme em uma reflexão simultânea sobre amor, memória e resistência em tempos de repressão.

O filme é bifurcado em duas linhas temporais distintas. De um lado, o presente marcado pela clandestinidade e pela vigilância estatal; de outro, o passado reconstruído através dos escritos de August. A estrutura do longa bebe da fonte dos romances de cartas e memórias. A narrativa se revela através da leitura de textos íntimos, deixando que o relacionamento dos personagens apareça aos poucos. Com o diário guiando tudo, Marsteller entrega um filme que se organiza pela emoção e pelo que ela desperta, fugindo daquela progressão clássica de eventos.

Esteticamente, “Days of August” assume um visual modesto, típica de produções indie realizadas com recursos limitados. O projeto foi desenvolvido por uma equipe jovem e financiado em parte por crowdfunding, com filmagens concentradas em poucos dias na Virgínia e na Carolina do Norte. Essa escala reduzida  reflete em cenários contidos e numa mise-en-scène que privilegia a intimidade dos diálogos e a atmosfera melancólica da narrativa. 

No centro da estrutura está a dinâmica entre os personagens interpretados por Santiago Sepulveda e Teryn Macallan. A relação entre Godfrey e August funciona como o eixo dramático do filme, sugerindo uma história de amor atravessada por repressão política e desigualdade social. Godfrey carrega o peso de sua origem aristocrática dentro do regime autoritário, enquanto August surge como a voz mais livre e sensível do relacionamento, registrada através do diário que conduz a narrativa. Essa assimetria emocional produz momentos de vulnerabilidade que reforçam o caráter trágico da história.

Entre os principais méritos do filme está justamente sua ambição temática. Ao combinar romance queer, distopia política e reflexão sobre memória, “Days of August” busca dialogar com tradições narrativas distintas, aproximando referências do melodrama romântico e da ficção especulativa. Entretanto, essa mesma ambição também revela algumas fragilidades. O desenvolvimento do universo distópico permanece relativamente superficial, e certos conflitos políticos aparecem apenas como pano de fundo para o drama pessoal. 

Ainda assim, “Days of August” revela um projeto autoral movido por forte convicção emocional. Ao centrar sua narrativa na lembrança de um amor perdido em meio a um regime repressivo, o filme trabalha uma reflexão sobre como as relações afetivas sobrevivem mesmo sob estruturas de controle social. A memória de August torna-se não apenas um registro de intimidade, mas também um gesto de resistência contra o esquecimento imposto pelo poder.



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