No início da década de 1980, a Espanha ainda tateava os limites da liberdade recém-conquistada após a morte de Francisco Franco, e é nesse terreno instável que Eloy de la Iglesia finca “Navajeros” como um gesto radical de observação e confronto. O chamado cinema quinqui encontra aqui sua formulação mais crua, transformando a delinquência juvenil em sintoma social. A câmera acompanha assaltos, fugas e rituais de grupo com uma urgência quase documental, mas sem abdicar de uma construção dramática que entende aqueles corpos como produto de uma transição política marcada por abandono institucional e desigualdade.
“Navajeros” acompanha a trajetória de José Luis Manzano, que interpreta El Jaro, jovem delinquente de Vallecas cuja vida é atravessada por pequenos crimes, heroína e a busca por reconhecimento dentro de um ecossistema masculino regido por códigos de lealdade e violência. Manzano não atua no sentido tradicional, ele encarna. Sua presença magnética, simultaneamente frágil e desafiadora, confere ao filme uma tensão permanente entre desejo de fuga e pulsão autodestrutiva. A beleza crua do ator, constantemente exposta pela lente de de la Iglesia, inscreve no enquadramento um erotismo latente que nunca se assume frontalmente, mas que organiza os olhares, os silêncios e as disputas de poder.
O que poderia ser apenas crônica policial transforma-se em estudo sobre intimidade entre homens em um contexto onde vulnerabilidade é sinônimo de risco. A violência não é estilizada para entretenimento, ela é apresentada como rotina, como destino socialmente programado, e é justamente nessa repetição que o filme encontra sua dimensão trágica.
Dentro do dossiê histórico do cinema quinqui, “Navajeros” ocupa lugar central por articular marginalidade e política sem didatismo. Diferentemente de uma sofisticação europeia que aposta na ironia ou na estilização, de la Iglesia mergulha na lama urbana de Madri e faz dela influência estética. Esse gesto tem algo de desfibrilador crítico, um choque que reativa o debate sobre classe, juventude e exclusão.
A redescoberta do diretor também passa por uma leitura queer de sua obra. Ensaios recentes publicados pela editora Dos Bigotes recolocam o diretor como pioneiro na representação de personagens LGBTIA+ em um país que ainda se reorganizava após a ditadura. Em “Navajeros”, essa dimensão não aparece por meio de discursos explícitos, mas na insistência em filmar corpos masculinos com uma intimidade que desafia a heteronormatividade hegemônica da época.
Falar de “Navajeros”, “El Pico” ou “Colegas” é inevitavelmente abordar a relação entre Eloy de la Iglesia e José Luis Manzano, amplamente discutida em biografias como “Lejos de aquí”, de Augusto M. Torres Fuembuena, e em estudos mais recentes que investigam a simbiose criativa e destrutiva entre ambos. O projeto documental “ELOY x MANZANO”, previsto para 2026, retoma esse vínculo ao narrar como o diretor encontrou o jovem em Vallecas e o transformou em protagonista recorrente. Entre proteção, paixão e dependência química, a parceria foi marcada por afeto e ruína, selando o mito de Manzano como ícone trágico do quinqui.
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