quinta-feira, 19 de março de 2026

The Activist (Aktyvistas, Lituânia, 2025)

“The Activist”, de Romas Zabarauskas, é o capítulo final de uma trilogia iniciada com “The Lawyer” (2020) e “The Writer”(2023), consolidando um projeto autoral voltado para as tensões entre política, desejo e identidade queer na Lituânia contemporânea. Aqui, a narrativa acompanha Andrius (Robertas Petraitis), um jovem ativista que toma uma decisão extrema após a morte do namorado: infiltrar-se em um grupo neo-nazista para encontrar o responsável pelo crime. 

O que torna Andrius um personagem interessante é justamente sua instabilidade. Ele não é um herói clássico, nem um mártir da causa. Existe uma impulsividade nas suas decisões que beira o imprudente, mas que também revela o quanto ele está emocionalmente abalado. Sua relação com Bernardas (Vaslov Goom) adiciona outra camada ao filme, trazendo à tona afetos, tensões e contradições que escapam da lógica puramente política. O ativismo aqui não aparece como um espaço de certezas, mas como um campo atravessado por fragilidades pessoais.

A estrutura do filme acompanha esse mergulho em um ambiente hostil. A infiltração no grupo neo-nazista é construída de forma gradual, mostrando como Andrius precisa performar uma identidade que entra em conflito direto com quem ele é. Esse jogo de máscaras cria momentos de tensão interessantes, principalmente quando o filme sugere o risco constante de exposição. Ao mesmo tempo, a narrativa não se apoia apenas no suspense, mas também na deterioração emocional do protagonista, que passa a viver entre dois mundos incompatíveis.


“The Activist” mantém a estética crua que marca o cinema de Zabarauskas. A câmera próxima dos rostos, os ambientes pouco estilizados e a sensação quase documental ajudam a reforçar o realismo da proposta. O uso de espaços urbanos frios e pouco acolhedores contribui para a atmosfera de isolamento, enquanto a presença constante de celulares e redes sociais insere a narrativa em um contexto contemporâneo onde a militância também acontece no digital. 

A história não gira em torno de aceitação ou descoberta, mas de sobrevivência e confronto direto com a violência. O fato de um homem gay se infiltrar em um grupo abertamente homofóbico cria uma tensão potente, colocando o corpo queer em um espaço de perigo constante. Ao mesmo tempo, o filme também aponta para as contradições dentro da própria comunidade, mostrando como o ativismo pode ser atravessado por egos, disputas e diferentes formas de lidar com o trauma.

Ainda que tenha força em sua proposta, o filme também apresenta algumas limitações. A narrativa por vezes se torna dispersa, e a falta de um arco mais definido pode dificultar a conexão com parte do público. Mesmo assim, “The Activist” se sustenta pela coragem de suas escolhas. Ao colocar seu protagonista em um jogo perigoso entre identidade e performance, o filme entrega um retrato inquieto e bastante atual sobre o custo emocional de viver e resistir em um mundo onde o ódio ainda se organiza de forma tão concreta.


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