quinta-feira, 26 de março de 2026

El Último Arrebato (Espanha, 2025)

“El último arrebato”, dirigido por Marta Medina e Enrique López Lavigne,revisita o mito de “Arrebato” e de seu criador, Iván Zulueta, uma das figuras mais enigmáticas do cinema espanhol. Longe de assumir o formato clássico de biografia documental, o filme é uma investigação sobre o fascínio que a obra de Zulueta ainda exerce. O ponto de partida é simples, tentar entender como um filme incompreendido em seu lançamento acabou se tornando uma das obras de culto mais importantes da história do cinema espanhol.

Medina e López Lavigne evitam a estrutura convencional de entrevistas e depoimentos organizados cronologicamente. Em vez disso, constroem um objeto híbrido, situado entre documentário, ensaio e ficção. A narrativa é como um jogo de camadas, quase como bonecas russas, em que o passado do cineasta, as imagens de “Arrebato” e o próprio processo de filmagem se misturam.

O documentário também revisita a figura de Zulueta como um artista maldito. Quando “Arrebato” estreou, sua proposta radical foi recebida com estranhamento e acabou fracassando comercialmente. Com o tempo, no entanto, a obra foi redescoberta e passou a ser vista como um dos filmes mais ousados surgidos durante a transição espanhola. O próprio destino do diretor parece espelhar essa narrativa trágica, já que sua vida foi marcada pelo isolamento e pela dependência de heroína, circunstâncias que contribuíram para seu desaparecimento gradual da cena cinematográfica.

Entre os elementos mais interessantes do filme está a participação de colaboradores e amigos que ajudam a reconstruir esse universo. Figuras como Eusebio Poncela, Cecilia Roth e Jaime Chávarri aparecem para lembrar o ambiente criativo que cercou “Arrebato”. Em vez de meros depoimentos ilustrativos, suas presenças funcionam quase como reencenações da memória, recriando o clima de mistério que sempre envolveu Zulueta.

Há ainda um aspecto metalinguístico que atravessa todo o filme. Em vários momentos, os próprios diretores entram em cena e passam a fazer parte da narrativa, revelando dúvidas, frustrações e impasses do processo criativo. Esse gesto aproxima o documentário do espírito autoficcional contemporâneo, onde a linha entre observador e objeto observado se torna cada vez mais instável. Ao se deixar contaminar pelo universo de Zulueta, o filme sugere que o fascínio por “Arrebato” não é apenas histórico, mas também algo que continua a afetar quem se aproxima de sua obra.

“El último arrebato” não tenta resolver o enigma de Iván Zulueta, e talvez esteja justamente aí sua potência. O documentário prefere habitar esse território de obsessão e fascínio, aceitando que certos artistas permanecem indecifráveis. Mais do que um retrato definitivo, o documentário funciona como uma carta de amor ao cinema enquanto vício, como uma experiência que pode consumir quem se aproxima demais de sua intensidade. O verdadeiro legado de Zulueta não é apenas um filme cult, mas a ideia de que o cinema pode ser uma forma de desaparecimento dentro da própria imagem.


Nenhum comentário:

Postar um comentário