quarta-feira, 11 de março de 2026

6 ANOS DE UMA HOUSE FEITA DE CINEMA QUEER

Quando eu, Eduardo, criei o Cinematografia Queer, eu já carregava comigo a formação em jornalismo e uma paixão antiga pelo cinema, especialmente pelo universo de Pedro Almodóvar, que sempre me definiu. O projeto nasceu em um momento muito particular : o período da pandemia, quando o mundo parecia suspenso e eu mesmo atravessava trevas interiores. Foi nesse contexto que o cinema e, mais especificamente, o de nicho LGBTQIA+, voltou a ser um farol. Escrever sobre esses filmes se tornou uma forma de reencontrar sentido, de redescobrir o prazer da escrita e de transformar inquietações pessoais em reflexão cultural.

Com o passar do tempo, algo começou a mudar. O que nasceu como um espaço de observação foi se transformando em um espaço de diálogo. Vieram os convites das assessorias, os festivais, a credencial e, principalmente, as conversas com artistas que admiro profundamente. Entrevistar nomes como Daniel Ribeiro, Allan Deberton, Matheus Marchetti, Marcio Reolon, Filipe Matzembacher foram momentos que simbolizaram essa virada. Ao mesmo tempo, esses encontros ampliaram meu repertório: fui conhecendo diretores, movimentos, cinematografias de diferentes países e períodos, e me transformando em um cinéfilo com um olhar mais atento e mais afiado para o que o cinema pode revelar sobre o mundo.

Mas existe uma realidade que precisa ser dita com franqueza: o prestígio não paga o boleto. O Cinematografia Queer cresceu, ganhou reconhecimento, leitores e acesso. Virou .com.br mas continua sendo um projeto sustentado sobretudo por paixão e convicção política. Não há uma estrutura financeira sólida por trás dessa curadoria independente. Existe, sim, o respeito das assessorias, o carinho de cineastas que admiro e a sensação íntima de carregar no coração uma espécie de “selo simbólico” de aprovação daquele universo almodovariano que sempre me inspirou. Ainda assim, a batalha diária é provar que o olhar crítico e a curadoria independente também merecem espaço e valorização dentro da cultura. A abertura para os patrocínios, as publis e as colaborações, que nunca vieram, sempre estiveram aí, mas sem elas, seguir adiante é um caminho incerto. Número de seguidor não paga luz, internet e nem o café da madrugada. 

Ao longo desses seis anos, também aprendi a entender melhor quem está do outro lado da tela. O público do Cinematografia Queer é diverso, atravessa todas as letras da sigla LGBTQIA+, mas compartilha algo fundamental: o desejo. Não apenas o desejo como experiência afetiva ou sexual, mas como motor narrativo, como força que impulsiona personagens, histórias e identidades. Foi observando essa comunidade que percebi que falar de cinema queer não é apenas falar de representatividade, é falar de humanidade, de conflito, de imaginação e de como o desejo molda a maneira como contamos histórias. Cada crítica publicada, cada filme descoberto, cada lista, diretora ou diretor apresentado ao público foi mais um tijolo nessa construção coletiva de memória cultural.


Nada disso, porém, existiria sem quem lê, comenta, compartilha e acompanha essa jornada. Aos mais de 18 mil que caminham comigo nas redes sociais, aos que transformaram posts em milhares de visualizações no X e aos que mantêm essa conversa viva diariamente: Obrigado! O Cinematografia Queer sempre foi um trabalho de formiguinha, construído texto por texto, descoberta por descoberta. Seis anos depois, percebo que ele deixou de ser apenas um site sobre cinema. Ele se tornou algo mais próximo de uma house, uma casa no sentido mais profundo da palavra, um espaço de família escolhida, de pertencimento e de comunidade, onde o cinema queer não é apenas tema de discussão, mas também uma forma de existir juntos.

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