terça-feira, 17 de março de 2026

O Som da Morte (Whistle, EUA/Irlanda, 2025)



Dirigido por Corin Hardy, “O Som da Morte” é um horror adolescente que mistura maldição sobrenatural e drama colegial. A trama acompanha um grupo de estudantes que encontra um misterioso apito esculpido em forma de caveira, artefato associado a uma antiga relíquia mesoamericana. Ao ser tocado, o objeto convoca manifestações das mortes futuras daqueles que ouviram seu som, desencadeando uma série de perseguições sobrenaturais que ecoam estruturas narrativas já bem conhecidas. No centro da história estão Chrys (Dafne Keen), uma nova aluna marcada por traumas familiares, e Ellie (Sophie Nélisse), colega de escola que rapidamente se aproxima dela.

“O Som da Morte” apresenta uma premissa intrigante: a ideia de que cada pessoa é perseguida por uma versão antecipada de sua própria morte. Essa lógica aproxima o filme de títulos como “Premonição”, mas também de narrativas recentes que exploram maldições transmitidas por objetos ou rituais. Hardy constrói a progressão da história a partir da revelação gradual das regras dessa ameaça sobrenatural, conduzindo os personagens por uma série de tentativas desesperadas de escapar ao destino anunciado. 

Tecnicamente o filme é competente. A fotografia, de Björn Charpentier, investe em contrastes intensos de luz e sombra para criar um ambiente inquietante, enquanto a montagem, de Nicholas Emerson, privilegia sequências de tensão crescente que culminam em explosões de violência gráfica. Hardy, que já havia trabalhado com horror em “A Freira”, demonstra habilidade em manipular o suspense através da expectativa visual: corredores vazios, reflexos ambíguos e aparições repentinas que transformam espaços cotidianos, como escolas ou festas locais, em territórios de ameaça constante. 


Mas o que nos interessa está a dimensão queer da narrativa. O relacionamento entre Chrys e Ellie não funciona como mero detalhe, mas como eixo emocional da história. O romance entre as duas personagens surge de maneira gradual, marcado por gestos tímidos, trocas de mensagens e momentos de vulnerabilidade compartilhada. Essa abordagem permite que o filme explore a descoberta do desejo em um contexto adolescente sem recorrer a clichês. A alquimia entre Dafne Keen e Sophie Nélisse tem é um dos aspectos mais fortes do longa, oferecendo um contraponto afetivo à brutalidade das mortes que cercam os personagens. 

Apesar dessas qualidades, o filme também revela limitações bem significativas. A principal delas está na familiaridade excessiva de sua estrutura narrativa. Embora a premissa seja promissora, o filme frequentemente recorre a convenções muito reconhecíveis do horror adolescente, fazendo com que  se torne previsível. O desenvolvimento do universo sobrenatural também permanece relativamente superficial, com regras e explicações que surgem de forma abrupta apenas para mover a trama adiante. O filme até consegue extrair sustos eficientes de seu conceito central, mas raramente ultrapassa os limites de um modelo já desgastado.

Esses pontos fracos se estendem à construção de alguns personagens secundários, que acabam funcionando apenas para morrer. Ainda assim, “O Som da Morte” demonstra um esforço claro em equilibrar  horror e investimento emocional nas protagonistas. Entre sequências de violência sobrenatural e a delicadeza do romance entre Chrys e Ellie, o filme encontra sua identidade justamente nessa tensão entre brutalidade e romance. O resultado é um terror teen piegas, mas capaz de oferecer momentos de intensidade visual e uma representação queer que adiciona uma dimensão sensível ao gênero.

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