“O Som da Morte” apresenta uma premissa intrigante: a ideia de que cada pessoa é perseguida por uma versão antecipada de sua própria morte. Essa lógica aproxima o filme de títulos como “Premonição”, mas também de narrativas recentes que exploram maldições transmitidas por objetos ou rituais. Hardy constrói a progressão da história a partir da revelação gradual das regras dessa ameaça sobrenatural, conduzindo os personagens por uma série de tentativas desesperadas de escapar ao destino anunciado.
Tecnicamente o filme é competente. A fotografia, de Björn Charpentier, investe em contrastes intensos de luz e sombra para criar um ambiente inquietante, enquanto a montagem, de Nicholas Emerson, privilegia sequências de tensão crescente que culminam em explosões de violência gráfica. Hardy, que já havia trabalhado com horror em “A Freira”, demonstra habilidade em manipular o suspense através da expectativa visual: corredores vazios, reflexos ambíguos e aparições repentinas que transformam espaços cotidianos, como escolas ou festas locais, em territórios de ameaça constante.
Mas o que nos interessa está a dimensão queer da narrativa. O relacionamento entre Chrys e Ellie não funciona como mero detalhe, mas como eixo emocional da história. O romance entre as duas personagens surge de maneira gradual, marcado por gestos tímidos, trocas de mensagens e momentos de vulnerabilidade compartilhada. Essa abordagem permite que o filme explore a descoberta do desejo em um contexto adolescente sem recorrer a clichês. A alquimia entre Dafne Keen e Sophie Nélisse tem é um dos aspectos mais fortes do longa, oferecendo um contraponto afetivo à brutalidade das mortes que cercam os personagens.
Apesar dessas qualidades, o filme também revela limitações bem significativas. A principal delas está na familiaridade excessiva de sua estrutura narrativa. Embora a premissa seja promissora, o filme frequentemente recorre a convenções muito reconhecíveis do horror adolescente, fazendo com que se torne previsível. O desenvolvimento do universo sobrenatural também permanece relativamente superficial, com regras e explicações que surgem de forma abrupta apenas para mover a trama adiante. O filme até consegue extrair sustos eficientes de seu conceito central, mas raramente ultrapassa os limites de um modelo já desgastado.
Esses pontos fracos se estendem à construção de alguns personagens secundários, que acabam funcionando apenas para morrer. Ainda assim, “O Som da Morte” demonstra um esforço claro em equilibrar horror e investimento emocional nas protagonistas. Entre sequências de violência sobrenatural e a delicadeza do romance entre Chrys e Ellie, o filme encontra sua identidade justamente nessa tensão entre brutalidade e romance. O resultado é um terror teen piegas, mas capaz de oferecer momentos de intensidade visual e uma representação queer que adiciona uma dimensão sensível ao gênero.
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