"Jimpa", de Sophie Hyde, parece um gesto pequeno mas gigante em emoção. A diretora, conhecida por seu olhar sensível em obras como “Boa Sorte, Leo Grande”, retorna aqui a um território mais íntimo, cruzando memória, identidade e pertencimento queer em uma narrativa que se constrói a partir de encontros geracionais. A história segue uma mãe levando Frances, filhe não binárie, para visitar o avô gay, em Amsterdã.
No centro da história está a relação entre três figuras: uma pessoa jovem em processo de descoberta, sua mãe e o avô, Jimpa, cuja presença funciona quase como um eixo gravitacional. Interpretado por Olivia Colman, John Lithgow e Aud Mason-Hyde, o trio forma um núcleo dramático intenso. Colman entrega mais uma performance precisa, equilibrando fragilidade e controle, enquanto Lithgow, que já brilhou em "Love is Strange", de Ira Sachs, constrói um Jimpa carismático, mas também atravessado por contradições.
A construção do filme acompanha essa delicadeza. Hyde opta por uma design de produção naturalista, com câmera próxima aos corpos e aos silêncios, permitindo que gestos mínimos ganhem peso dramático. Não há pressa em “explicar” os personagens; o filme prefere observá-los, como se estivesse escutando memórias sendo reorganizadas em tempo real.
“Jimpa” não se limita a identidade ou representação queer direta, mas se infiltra na própria estrutura da narrativa. O filme discute herança LGBTQIA+ como algo vivido, transmitido e também tensionado entre gerações. Jimpa, como figura de uma geração anterior, carrega experiências que dialogam com um passado de luta e invisibilidade, enquanto a jovem protagonista encarna um presente onde outras possibilidades de existência parecem mais acessíveis, ainda que não menos complexas.
Há, ainda, um interesse claro da diretora em explorar a ideia de família para além de estruturas normativas. As relações em “Jimpa” são marcadas por afeto, mas também por ruídos, incompreensões e silêncios que nunca se resolvem completamente. Esse é um dos maiores méritos do filme: recusar o óbvio. Ao invés de oferecer o definitivo, Hyde prefere manter seus personagens em um estado de busca contínua.
Se há fragilidades, elas surgem justamente dessa aposta no minimalismo. Em alguns momentos, o ritmo contemplativo pode se aproximar da estagnação. Ainda assim, essas escolhas parecem coerentes com a proposta do filme, que privilegia sensações sobre conclusões. “Jimpa” é uma obra sensível e sofisticada, sustentada por um elenco estelar e por uma direção que entende o cinema como espaço de escuta, um lugar onde o passado e o presente queer podem coexistir, dialogar e, sobretudo, continuar sendo reinventados.
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