Em “Perro Perro”, Marco Berger radicaliza um conjunto de obsessões que atravessam sua filmografia, transformando o desejo em uma fábula abertamente absurda. A premissa beira o surrealismo: Juan (Germán Flood) encontra um homem que vive como um cachorro e decide acolhê-lo, cuidando dele com carinho, alimentação e intimidade crescente. A partir desse ponto de partida, o filme abandona qualquer compromisso com o realismo para mergulhar em um território alegórico onde o comportamento humano é reconfigurado por impulsos primários, instaurando uma narrativa que tensiona constantemente os limites entre o instinto e a construção social.
Berger utiliza o convívio entre Juan e esse “homem-cão” para investigar dinâmicas de poder, dependência e afeto. O gesto de cuidar, que inicialmente parece generoso, revela progressivamente ambiguidades inquietantes: há ternura, mas também controle; há desejo, mas também domesticação. Essa ambivalência é central para o filme, que nunca oferece respostas fáceis sobre a natureza dessa relação, preferindo explorar suas zonas de desconforto.
Esteticamente, “Perro Perro” marca uma inflexão interessante dentro da obra do diretor. Filmado em preto e branco, o longa aposta em uma mise-en-scène depurada, com enquadramentos que enfatizam corpos, gestos e proximidades físicas do homem cão que está sempre nu. Esse visual contribui para uma sensação de suspensão temporal, como se a história existisse em um espaço fora da realidade cotidiana. Ao mesmo tempo, o minimalismo dialoga com o absurdo, criando um contraste produtivo entre a sobriedade da imagem e a estranheza da situação.
No centro do filme está a performance de Juan Ramos, cujo trabalho corporal é essencial para sustentar a proposta. Sem dizer uma única palavra, ele constrói um "cachorro" que comunica solidão e devoção através do olhar e do movimento, provocando uma reação instintiva no espectador. Do outro lado, Germán Flood personifica a obsessão cuidadora, criando uma dinâmica que oscila entre o afeto paternalista e o homoerotismo latente. É uma dança perigosa que nos faz perguntar: quem é o verdadeiro animal na busca por preencher o vazio existencial?
Berger utiliza a alegoria para explorar formas de desejo que escapam às normatividades, deslocando categorias fixas de identidade e relacionamento flertando com a prática do pet-play. Mais do que representar uma relação homoerótica, o filme investiga a própria construção do desejo, sugerindo que ele é moldado por instintos, projeções e estruturas de poder. É Berger em sua forma mais provocadora e sensorial, usando o humor ácido para mascarar uma tragédia sobre o isolamento e as formas bizarras que inventamos para nos sentirmos amados.
Ao fim, o que fica é a sensação de que Marco Berger fez algo diferente aqui e atingiu um novo patamar de liberdade criativa. Flertando com o universo de João Pedro Rodrigues, ele não precisa mais das desculpas de "brotheragem” para explorar o desejo; ele cria suas próprias regras em um mundo onde a pele fala mais que a língua. "Perro Perro" é um experimento incômodo e brilhante que reafirma o diretor argentino como o grande cartógrafo do desejo queer contemporâneo, provando que, às vezes, é preciso latir para finalmente ser.
Esse ja tem pra baixar?
ResponderExcluirAcabei de publicar o drive aqui nos comentários.
Excluirarrasou
Excluirhttps://drive.google.com/drive/folders/1sTqsyL_TEoiHsFy5fddB_C0gpK4nVMkg?usp=sharing
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