Em “Todo a la vez”, o escritor e cineasta chileno Alberto Fuguet , conhecido por Cola de Mono (2018), abandona qualquer compromisso com a estrutura documental convencional para realizar um ensaio íntimo, erótico e profundamente afetivo sobre imagem, desejo e cumplicidade. O filme acompanha os fotógrafos catalães Paco Moyano e Manolo Rodríguez, criadores da revista homoerótica Kink, mas rapidamente deixa claro que seu verdadeiro interesse não está em construir uma biografia. Fuguet transforma o documentário em uma experiência sensorial sobre corpos, luz e memória, aproximando o espectador da intimidade criativa e amorosa do casal. O resultado é uma obra que parece existir entre o diário audiovisual, o filme-ensaio e o álbum fotográfico vivo.
A câmera observa Paco e Manolo com a mesma delicadeza com que eles fotografam os homens que posam para a Kink. Existe uma ética do olhar atravessando todo o longa: o desejo nunca surge como exploração, mas como contemplação. Fuguet compreende que o trabalho da dupla não consiste apenas em registrar nudez masculina, mas em capturar vulnerabilidades. Seus modelos, muitos deles homens comuns da classe trabalhadora,aparecem livres da hipermasculinidade performática tão frequente na representação homoerótica contemporânea. O erotismo do filme nasce justamente dessa naturalidade, da pele iluminada pelo sol mediterrâneo, dos apartamentos simples, das ruínas urbanas e da intimidade improvisada.
Há algo profundamente político na maneira como “Todo a la vez” rejeita a assepsia visual do desejo gay comercializado. Paco e Manolo trabalham com imperfeições, suor, pelos, corpos reais e silêncios desconfortáveis. A estética da Kink, influenciada simultaneamente por Caravaggio e Pasolini, resgata uma dimensão artesanal e humana da fotografia erótica. Fuguet entende isso perfeitamente e constrói um filme que parece interessado menos na pornografia do corpo do que na melancolia do desejo. Em vez de transformar seus personagens em símbolos glamourosos de uma sexualidade idealizada, o diretor insiste na fragilidade, no envelhecimento e na permanência do afeto após décadas de convivência.
Também impressiona a maneira como Fuguet filma Barcelona. A cidade surge distante do imaginário turístico habitual; é uma Barcelona periférica, quente, íntima e decadente, composta por quartos apertados, praias discretas e construções abandonadas. Esse espaço urbano funciona como prolongamento dos corpos retratados pela dupla. A fotografia de Patricio Alfaro privilegia texturas e luz natural, reforçando a sensação de espontaneidade que atravessa o filme inteiro. Mesmo quando se aproxima do voyeurismo, “Todo a la vez” mantém uma ternura inquieta, como se cada enquadramento fosse guiado pela necessidade de preservar um instante condenado ao desaparecimento.
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ResponderExcluirGenial!
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