“Marc by Sofia” marca a estreia de Sofia Coppola em documentários, mas a verdade é que o filme parece menos uma ruptura em sua carreira do que uma extensão natural de tudo que ela já vinha fazendo. Ao voltar sua câmera para o estilista Marc Jacobs, Coppola encontra um personagem que compartilha de sua obsessão por superfícies, melancolia, referências pop e construção estética. O documentário acompanha os bastidores da coleção “paper doll” de Jacobs enquanto revisita sua trajetória, transformando o processo criativo em uma espécie de scrapbook emocional sobre moda, amizade e culto à imagem.
Existe algo profundamente coerente em ver Coppola filmando moda. Sua filmografia inteira sempre orbitou o luxo, a feminilidade performática e personagens presos dentro de universos visualmente perfeitos, mas emocionalmente vazios. Em “Marc by Sofia”, essa sensibilidade encontra talvez seu objeto ideal. O filme abandona qualquer distância jornalística e assume sem vergonha seu caráter afetivo: Jacobs não é apenas tema, é amigo, cúmplice estético e extensão do próprio imaginário da diretora.
Coppola mantém intacta sua assinatura. A montagem fragmentada, os registros quase caseiros e o fascínio por detalhes banais transformados em fetiche fazem o filme parecer uma continuação não oficial de “Somewhere” ou “Marie Antoinette”. Há algo deliciosamente superficial nisso tudo, e o filme sabe. Em vez de tentar justificar a moda como “arte séria”, “Marc by Sofia” abraça seu glamour, seu artifício e sua teatralidade. Jacobs surge como um grande curador de referências culturais, falando de Bob Fosse, Fassbinder e Marcel Duchamp como alguém montando um altar pessoal de obsessões.
Ao mesmo tempo, o documentário nunca consegue escapar completamente da bolha de privilégio que habita. Essa é sua principal limitação. Há momentos em que “Marc by Sofia” parece tão encantado consigo mesmo que esquece de oferecer qualquer conflito real. Ainda assim, talvez seja injusto exigir de Coppola um gesto que nunca foi seu: ela sempre filmou mundos isolados, ricos e alienados, e raramente fingiu o contrário.
O mais interessante acaba sendo perceber como o filme também funciona como autorretrato indireto. Ao filmar Jacobs, Coppola parece revisitar sua própria formação cultural dos anos 1990: a estética indie, o fascínio pelo artifício cool, a mistura entre moda, música e cinema como linguagem de identidade.“Marc by Sofia” talvez não seja um grande documentário no sentido clássico, mas é um filme profundamente “sofia coppoliano”. Elegante, etéreo, autoconsciente e levemente vazio, às vezes de maneira frustrante, às vezes de maneira hipnótica. Quem procura uma investigação rigorosa sobre Marc Jacobs pode se decepcionar.. Mas quem entende o cinema de Sofia Coppola como um exercício constante de atmosfera, textura e melancolia estética provavelmente encontrará aqui um objeto curiosamente sincero: um filme sobre duas pessoas que transformaram estilo em linguagem emocional.
https://drive.google.com/file/d/19bhZBX2WXlk9H59Ef9IJY9GKcOPvphmx/view?usp=sharing
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