Em “Provas de Amor”, a diretora Alice Douard constrói um drama íntimo sobre parentalidade queer ancorado na observação minuciosa das fissuras legais e emocionais que atravessam um casal de mulheres na França contemporânea. O filme acompanha a reta final da gravidez e o processo de reconhecimento jurídico da maternidade, articulando uma narrativa que transforma a burocracia em dispositivo dramático, não como mero obstáculo externo, mas como engrenagem que molda afetos, expectativas e medos.
A história gira em torno de Céline (Ella Rumpf) e Nadia (Monia Chokri), casal que aguarda a chegada do primeiro filho enquanto enfrenta a necessidade de formalizar, diante do Estado, um vínculo que no plano afetivo já está plenamente constituído. A primeira aparição das personagens estabelece um contraste sutil entre a serenidade doméstica e a ansiedade jurídica. Céline, mais pragmática, parece disposta a cumprir cada etapa do processo; Nadia, grávida, vivencia a tensão de ter seu lugar constantemente interrogado por formulários e protocolos que exigem comprovações de algo que, para elas, é evidente.
A câmera raramente se afasta das protagonistas, criando uma experiência de proximidade que reforça a dimensão corporal da gestação e, simultaneamente, a fragilidade institucional que cerca o casal. O roteiro evita discursos panfletários e prefere expor a violência simbólica de perguntas aparentemente neutras, revelando como a igualdade legal não elimina zonas de ambiguidade e resistência cultural.
O maior sustento do filme está na atuação de Rumpf e Chokri, cuja química segura o drama mesmo nos momentos de maior contenção. Há uma alternância delicada entre firmeza e fragilidade que impede a idealização do casal. Discussões pontuais, inseguranças e pequenas crises cotidianas emergem sem comprometer a solidez do vínculo. Ao invés de dramatizar conflitos espetaculares, “Provas de Amor” investe na textura da casualidade,, onde o amor se afirma na persistência e na negociação constante com o mundo exterior.
No plano político, o longa evidencia como a parentalidade queer ainda depende de mecanismos de validação que reiteram desigualdades. A necessidade de reconhecimento formal da segunda mãe transforma-se em eixo narrativo que expõe a assimetria entre experiência vivida e legitimação estatal. Douard demonstra sensibilidade ao retratar a tensão entre conquista histórica e precariedade prática, sublinhando que direitos conquistados podem ser atravessados por exclusões.
“Provas de Amor” é um drama de escala reduzida e impacto emocional consistente. Sem recorrer a excessos melodramáticos, o filme constrói um retrato preciso da formação de uma família LGBTQIA+ em meio a dispositivos institucionais que testam sua resistência. A delicadeza e a atenção às nuances tornam a obra um estudo sensível sobre amor, responsabilidade e reconhecimento, situando a experiência íntima como espaço onde política e afeto se entrelaçam de maneira inesperável.
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