domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Irmã Mais Nova (La Petite Dernière, França/Alemanha, 2025)

“La Petite Dernière”, de Hafsia Herzi, é um retrato sensível e, por vezes, tortuoso da transição da adolescência para a idade adulta sob a pressão de múltiplas identidades que colidem entre si. Baseado no romance autobiográfico de Fatima Daas, o filme acompanha uma jornada de autodescoberta que se desenrola ao longo de um ano na vida de Fatima (Nadia Melliti), uma jovem muçulmana de 17 anos que vive nos subúrbios de Paris e começa a compreender sua atração por mulheres enquanto lida com as expectativas familiares e religiosas. A escolha de narrar o processo de despertar queer de forma introspectiva em vez de melodramática dá ao filme um tom de crônica existencial, onde o desejo e a fé se entrelaçam sem soluções fáceis.

Herzi articula a vida cotidiana de Fatima com um olhar que privilegia a experiência íntima. A protagonista não é moldada por confrontos explosivos, mas por episódios que revelam sua ambivalência: desde as interações com amigos e parentes até as pequenas experiências de liberdade que começam a surgir quando entra na universidade e flerta com o ambiente queer parisiense. A narrativa se desenrola com uma familiaridade quase documental, enfatizando a complexidade de existir em um espaço social que muitas vezes não contempla todas as partes de quem ela é.

A atuação de Melliti é uma âncora central para a eficácia do longa. Sua presença domina a tela com uma mistura de pudor e intensidade, traduzindo com precisão o que significa sentir-se simultaneamente atraída e reprimida. A performance recebeu o prêmio de Melhor Atriz em Cannes 2025, onde o filme também ganhou a Queer Palm, sinalizando tanto o impacto emocional quanto a importância sociocultural de sua representação.

Esteticamente, Herzi evita artifícios narrativos grandiosos. Em vez disso, ela recorre a uma mise-en-scène contida que privilegia planos fechados e uma construção de tempo fragmentado ao longo das estações, refletindo o processo interno de Fatima. Esta escolha formal sublinha as tensões que são menos exteriores do que interiores: não são apenas os dogmas religiosos ou as normas sociais que se opõem, mas uma série de expectativas e dúvidas que ramificam a identidade da protagonista.

Apesar de suas qualidades emotivas e políticas, “La Petite Dernière” não foge da sensação de superficialidade em momentos chave, sugerindo que múltiplos conflitos, como saúde mental, homofobia cotidiana e questões identitárias, poderiam ter sido explorados com maior densidade para além de enfrentar a narrativa clássica do coming-of-age, ainda que a intenção de visibilizar experiências raramente retratadas continue sendo um mérito inquestionável.

“La Petite Dernière” não apenas amplia a presença de histórias queer de procedência diversa. ao dar voz a uma protagonista muçulmana em processo de afirmação de sua sexualidade, mas também convida à reflexão sobre as maneiras como culturas, religião e desejos pessoais se entrelaçam na formação de identidades. A sensibilidade de Herzi para captar nuances e a força da interpretação de Melliti consolidam um território constantemente sub-explorado.


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