terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

La Cena (Espanha/França, 2025)

“La cena”, dirigida por Manuel Gómez Pereira, parte de uma premissa farsesca para construir uma sátira histórica afiada. Ambientado em 15 de abril de 1939, duas semanas após o fim da Guerra Civil Espanhola, o filme imagina o caos nos bastidores de um grande jantar organizado para celebrar a vitória de Franco (Xavi Francés) no luxuoso Hotel Palace Madrid. A ausência de cozinheiros, presos por serem republicanos, desencadeia uma comédia de erros que mistura crítica política, tensão ideológica e um humor que oscila entre o escrachado e o sutil. Inspirado na peça “La cena de los generales”, de José Luis Alonso de Santos, o longa transforma o salão de banquetes em palco de disputas simbólicas sobre poder, lealdade e sobrevivência.

O motor narrativo é o encontro entre o tenente Medina (Mario Casas), jovem oficial falangista encarregado de garantir que tudo saia perfeito, e Genaro (Alberto San Juan), o maître meticuloso que conhece cada engrenagem do hotel. Enquanto Medina representa a face disciplinada e recém-vitoriosa do regime, Genaro encarna uma elegância contida, sempre atento ao protocolo, mas ciente de que qualquer desvio pode lhe custar caro. A dinâmica entre os dois sustenta o filme, criando uma tensão que atravessa tanto a logística do jantar quanto o campo mais íntimo dos desejos e das ambiguidades.

No plano da comédia, Gómez Pereira demonstra domínio do ritmo. A libertação temporária dos cozinheiros republicanos, liderados por Antonio (Antonio Resines), adiciona uma camada de suspense leve à narrativa, já que o preparo do banquete se mistura a planos de fuga e pequenas sabotagens. Personagens secundários, como Carmela (Nora Hernández), que canta no salão, ajudam a compor um mosaico que reforça a ideia de uma Espanha dividida em implicações políticas. O riso surge frequentemente da incompetência dos agentes do regime e da precariedade da organização, mas nunca esvazia o peso histórico do momento.

É, contudo, no aspecto queer que “La cena” encontra sua camada mais instigante. Genaro é explicitamente homossexual, vivendo na clandestinidade sob um regime que criminalizava e perseguia dissidências sexuais. Sua orientação não é mero detalhe biográfico, mas eixo de conflito. Insultos homofóbicos proferidos por personagens alinhados ao franquismo e comentários sobre “não haver lugar na Nova Espanha para homens como ele” sublinham a violência estrutural do período. Ao colocar um homem gay no centro emocional da trama, o filme ilumina a repressão sexual como parte integrante do projeto autoritário.

A relação entre Genaro e Medina intensifica esse aspecto. Há um desejo explícito do maître pelo tenente, mas o que se constrói é uma conexão ambígua, feita de olhares prolongados, cumplicidade forçada e diálogos que sugerem mais do que afirmam. A química entre San Juan e Casas sustenta uma tensão homoerótica que nunca se resolve plenamente, operando como metáfora da masculinidade reprimida no contexto franquista. A possível ambiguidade do próprio Medina, insinuada em gestos e silêncios, amplia o alcance da crítica ao mostrar como o regime também aprisiona aqueles que tentam se encaixar em seus modelos rígidos de virilidade.

Com 8 indicações ao Goya, incluindo Melhor Filme, Diretor e Ator, “La cena” equilibra entretenimento e reflexão com habilidade. Diverte com situações absurdas e personagens caricaturais, mas deixa um resíduo amargo ao evidenciar as engrenagens de exclusão que sustentaram a ditadura. Ao revisitar 1939 com humor e ironia, Gómez Pereira não suaviza o passado, mas o expõe por meio do contraste entre festa oficial e tensões subterrâneas. No cruzamento entre sátira histórica e drama, o filme reafirma o poder espanhol de revisitar suas feridas com inteligência e complexidade.


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