“Blowie”, assinado por Ed Aldridge em colaboração com o coletivo altSHIFT, parte de uma premissa que já diz muito sobre suas intenções: um grupo de profissionais do sexo se isola em uma mansão para produzir conteúdo adulto, até que um acidente libera uma entidade assassina de rosto plástico e violência desmedida. O que poderia soar como mais um slasher de baixo orçamento rapidamente se revela um experimento curioso, onde corpos queer, pornografia e horror se misturam. Com nomes como Bishop Black, que já trabalhou com Bruce LaBruce em The Visitor, Kali Sudhra e Kayden Gray no elenco, o filme aposta na presença de performers reais para borrar ainda mais as fronteiras da metalinguagem.
Como terror queer, “Blowie” dialoga diretamente com a tradição do slasher, mas desloca seu eixo para um território assumidamente colorido e sex-positive. Aqui, o desejo não é punido como nos códigos morais do horror clássico, ele é exposto, tensionado e, em certa medida, politizado. O espaço do OnlyFans e da produção de conteúdo adulto não aparece apenas como cenário, mas como extensão de uma economia do corpo que atravessa precariedade, autonomia e exploração.
O roteiro, creditado ao coletivo altSHIFT, funciona mais como dispositivo do que como estrutura clássica. Há uma clara preferência pelo excesso: excesso de sangue, de nudez, de performance, de pinta, de escândalo. Em vez de construir suspense de forma tradicional, o filme aposta em uma lógica quase episódica, onde cada sequência parece interessada em empurrar um pouco mais os limites do que pode ser mostrado.
Por trás do choque, no entanto, existe uma camada que tenta articular algo mais político. A presença de trabalhadores do sexo no centro da narrativa, interpretando versões ficcionalizadas de si mesmos, insere o filme em uma discussão sobre visibilidade e marginalização. O horror aqui não vem apenas da figura da assassina, mas da própria estrutura social que empurra esses corpos para a borda.
Na direção, Aldridge e o coletivo optam por um registro que mistura estética lo-fi com estilização deliberada. Há algo de sujo, quase improvisado, na forma como as cenas são construídas, mas também um cuidado em transformar o trash em linguagem. A mansão isolada funciona como microcosmo: um espaço onde desejo, trabalho e violência colidem sem mediação. A figura de Blowie, com seu rosto de boneca, sintetiza bem essa proposta, operando entre o camp, o engraçado e o perturbador.
“Blowie” é um gesto que provoca, que incomoda e que, em vários momentos, parece testar a paciência do espectador. Nem sempre funciona, nem sempre sustenta suas ambições, mas há algo de genuinamente interessante em sua tentativa de fundir pornografia, horror e política queer preferindo a busca por caminhos opostos.
https://filmesgays.net/movies/blowie/
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