Em “O Faz-Tudo”, Fábio Leal entrega um curta delirante e libertário. O filme abre com um letreiro simples, quase didático, que já entrega o jogo: estamos prestes a assistir a um clipe da música “Take a Toke”, do C+C Music Factory, eternizada na trilha de “Quatro por Quatro”. Essa escolha não é gratuita. Leal transforma a nostalgia noventista da novela das sete numa porta de entrada para o tesão mais escrachado e desavergonhado possível, como se o videoclipe da MTV Brasil tivesse sido sequestrado por um viado safado que decide, enfim, mostrar o que sempre esteve implícito naqueles corpos suados dançando na tela.
A premissa é absurdamente simples e genial: um morador de apartamento contrata um faz-tudo (Eduardo Magliano) e, de uma frase mal-entendida, surge a proposta de filmar o trabalhador nu protagonizando o tal clipe. O que poderia ser apenas uma piada vira um exercício de desejo puro. Leal não pede licença para o erotismo. Ele o escancara, celebra e debocha ao mesmo tempo, transformando o ato de reformar um apartamento numa fantasia homoerótica que flerta abertamente com a pornochanchada dos anos 70, só que atualizada, queerizada e sem o menor pudor.
A fotografia, de Vicente Otávio, é o grande achado visual do curta. Ele constrói um verdadeiro caleidoscópio de luzes neon, cores saturadas e closes penianos que funcionam como verdadeiros protagonistas. Cada enquadramento parece pulsar com o ritmo da música, transformando o corpo do faz-tudo num objeto de desejo que dança, toca teclado com o pau e se entrega à câmera sem nenhuma vergonha. Não há fetichismo velado aqui: o olhar é direto, guloso, celebratório.
É, acima de tudo, um clipe homoerótico assumido. Leal transforma o formato comercial mais pop possível num espaço de afirmação sexual radical. O videoclipe deixa de ser mero suporte musical e vira o próprio filme: cortes rápidos, efeitos de luz estroboscópica, lettering retrô e uma trilha que, ao invés de soar datada, ganha nova vida ao embalar um pênis em close. O resultado é hilário, excitante e politicamente potente. Em apenas cinco minutos, Leal prova que o desejo queer não precisa de justificativa dramática para existir: ele basta a si mesmo.
O curta dialoga diretamente com a filmografia de Leal, que sempre soube misturar autoficção, humor escrachado e exploração do corpo. Aqui, porém, o tom é ainda mais leve e brincalhão, quase uma resposta ao peso pandêmico de “Seguindo Todos os Protocolos”. “O Faz-Tudo” é o momento em que o cineasta pernambucano decide se divertir sem culpa com o próprio tesão, transformando uma situação banal de reforma em metáfora perfeita para o desejo que surge do cotidiano, do inesperado, do “quem diria”.
“O Faz-Tudo” não é só um curta vencedor de prêmios (Festival do Rio, Janela de Cinema do Recife). É um manifesto lúdico contra o puritanismo que ainda ronda parte do cinema contemporâneo. Leal lembra, com alegria e muito tesão, que o corpo queer pode ser objeto de riso, de desejo e de arte ao mesmo tempo. E faz isso com tanta graça que o espectador sente uma vontade louca de dançar “Take a Toke” pelado em casa.



