quarta-feira, 1 de abril de 2026

Mi Cielo, Tu Infierno (Cel meu infern teu, Espanha, 2026)

“Mi cielo, tu infierno” segue Adela (Tània Fortea) e Victoria (Sandra Cervera), duas mulheres que se apaixonam na Espanha dos anos 60 e 70, em pleno final do franquismo, quando o desejo entre pessoas do mesmo sexo era criminalizado e tratado como desvio moral. Dirigido por Alberto Evangelio, o filme constrói esse amor ao longo do tempo, atravessado por perseguições, silêncios forçados e separações dolorosas. Ainda assim, por mais que o mundo tente apagá-las, Adela e Victoria permanecem presas uma à outra, como se o afeto fosse a única coisa que resiste à violência histórica.

Evangelio, em seu segundo longa, opta por uma abordagem direta, sem grandes floreios estéticos ou sentimentalismo fácil. Há uma secura no modo como a história é contada que combina com o período retratado. A repressão não aparece como conceito abstrato, mas como algo concreto, cotidiano, que invade casas, famílias, religião e corpos. O roteiro de Noelia Martínez e Ana Piles evita romantizar o sofrimento, preferindo mostrar como o amor entre essas duas mulheres se constrói justamente sob pressão, entre medo constante e pequenos gestos de sobrevivência.

O título já entrega a ambiguidade central do filme. “Mi cielo, tu infierno” sugere que esse amor é ao mesmo tempo refúgio e condenação. Adela e Victoria encontram uma na outra um espaço de liberdade, mas também carregam as consequências desse vínculo em um mundo que não permite que ele exista. Essa tensão atravessa toda a narrativa, criando uma sensação de urgência emocional que nunca se resolve completamente. Amar, aqui, é também colocar-se em risco.

As duas protagonistas sustentam o filme com performances intensas e contidas. Tània Fortea constrói Adela com uma fragilidade que nunca vira fraqueza, enquanto Sandra Cervera dá a Victoria uma presença mais firme, quase desafiadora. Juntas, elas criam uma dinâmica que escapa de estereótipos fáceis. Não há idealização, nem pureza. Há desejo, frustração, ciúme, medo. Um relacionamento vivido em condições extremas, onde cada escolha tem peso.

O contexto histórico não é apenas pano de fundo, mas parte ativa do conflito. A Espanha franquista surge como um ambiente sufocante, onde Igreja, Estado e família operam como forças de controle. O filme se aproxima, em alguns momentos, de um thriller psicológico, especialmente quando a vigilância e a paranoia se intensificam. Essa camada adiciona tensão à narrativa e reforça a ideia de que o perigo não está apenas fora, mas também internalizado nas personagens.

Sem recorrer a grandes discursos, “Mi cielo, tu infierno” é um retrato duro e honesto de um amor sáfico em tempos de repressão. O filme aposta na memória como forma de resistência, mostrando que certos afetos não desaparecem, apenas mudam de forma ao longo do tempo. Ao acompanhar Adela e Victoria, Alberto Evangelio constrói uma história que dói sem manipular, que emociona e que encontra, na persistência do desejo, uma forma silenciosa de enfrentamento.

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