quarta-feira, 8 de abril de 2026

Dreißig Jahre an der Peitsche (Alemanha, 2024)

Rosa von Praunheim, o enfant terrible do cinema queer alemão, entrega em “Dreißig Jahre an der Peitsche” um docudrama tão cru quanto necessário: o retrato íntimo de Tina Spahr, a dominatrix Lady MacLaine, sua vizinha de andar no bairro de Wilmersdorf, em Berlim. Ao adaptar as memórias dela, Praunheim não filma apenas uma profissão marginal; ele escava três décadas de chicote, couro e desejo pago como um território de sobrevivência, trauma e reinvenção. O que poderia ser mero voyeurismo vira, nas mãos do cineasta, um ato de afeto radical: escutar a voz que a sociedade heteronormativa costuma calar ou fetichizar.

A estética, fiel à trajetória provocadora de Praunheim, recusa qualquer polimento. Câmera na mão, cortes secos, reconstituições que não escondem o artificialismo: o filme respira o mesmo anti-espetáculo que marcou obras como “Nicht der Homosexuelle ist pervers". Aqui, porém, o foco não é mais o gueto gay dos anos 1970, mas o porão de uma dominatrix que transformou dor consentida em ofício. Essa escolha formal é política: o kink não é embelezado nem julgado; é mostrado em sua cotidianidade brutal e, ao mesmo tempo, libertadora.

O que mais fascina é como o filme articula a fluidez do desejo queer para além da identidade gay. Lady MacLaine não se enquadra em rótulos fáceis; ela é mulher, dominadora, sobrevivente de uma relação materna tóxica e, acima de tudo, arquiteta de um universo onde o poder se inverte a cada sessão. Praunheim captura isso sem romantismo: os clientes, os gritos abafados, o cheiro de couro e cera. O chicote não é metáfora barata; é ferramenta real de agência num mundo que ainda pune o desvio sexual.

A relação entre diretor e protagonista ganha contornos quase familiares. A amizade nascida no corredor do prédio vira matéria cinematográfica sem cair no narcisismo. Praunheim, que sempre filmou o que a burguesia queer preferia ignorar, encontra em Tina um espelho invertido: enquanto ele documentava a revolta gay, ela cobrava para encenar a dominação que a sociedade finge repudiar. Essa cumplicidade transforma o filme num diálogo geracional sobre marginalidade e afeto.

Há, claro, o peso do trauma. A confissão de Tina sobre a mãe “que não a queria” ecoa como ferida aberta, revelando como o kink pode ser, simultaneamente, cicatriz e remédio. Praunheim não resolve o conflito; ele o expõe, deixando o espectador desconfortável, exatamente como sempre fez. O corpo da dominatrix, marcado pelo tempo e pelo trabalho, vira corpo político: prova viva de que o desejo queer não se limita à cama, mas atravessa classe, gênero e sobrevivência.

“Dreißig Jahre an der Peitsche” chega como um testamento tardio de Praunheim (falecido em 2025) e, ao mesmo tempo, como afirmação urgente: o cinema queer segue sendo o lugar onde se exorcizam as repressões que a sociedade heterossexual ainda não digeriu. Não é um filme confortável. Não pretende ser. É, antes, um chicote cinematográfico que estala no rosto da normalidade, e nos lembra que, trinta anos depois, o couro continua sendo uma das formas mais radicais de resistência.

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