terça-feira, 31 de março de 2026

Lavender Men (EUA, 2024)

 

“Lavender Men” segue Taffeta (Roger Q. Mason), uma pessoa queer, negra, filipinx e plus-size que trabalha como stage manager em uma peça mambembe sobre Abraham Lincoln. Presa a um ambiente hostil, marcado por rejeição afetiva, racismo e violência estrutural, Taffeta passa a fabular uma realidade paralela onde convoca Abraham Lincoln (Pete Ploszek) e imagina um romance com o jovem soldado Elmer Ellsworth (Alex Esola). Dirigido por Lovell Holder, o filme mistura drama, comédia, fantasia histórica e um espírito meta-teatral que transforma o palco em campo emocional.

A estrutura é assumidamente caótica, alternando entre o teatro “real”, quase claustrofóbico, e a fantasia expansiva que Taffeta constrói para sobreviver. Essa oscilação não busca fluidez clássica, e sim um tipo de fricção constante entre presente e imaginação. O som recorrente de um tiro, evocando o assassinato de Lincoln, funciona como gatilho e ruptura, lembrando que toda fantasia nasce de uma ferida. Holder, filmando em apenas dez dias, com o elenco do espetáculo original, abraça essa urgência e transforma limitações em linguagem.

A engrenagem do filme está na performance de Mason, que carrega tudo com uma mistura rara de humor, raiva e fragilidade. Taffeta não é um protagonista fácil, nem quer ser. Ele interrompe a narrativa, invade cenas, assume papéis improváveis, de Mary Todd Lincoln a um lustre, transita entre gêneros, como se estivesse desesperadamente tentando ocupar todos os espaços que historicamente lhe foram negados. É uma atuação que transborda, às vezes até demais, mas nunca soa desonesta.

O gesto mais potente de “Lavender Men” está em sua proposta de reescrever a história como forma de sobrevivência. Ao imaginar Lincoln em uma relação homoerótica, o filme não está interessado em provar nada, mas em reivindicar o direito de fabular. Essa “fantasia gay sobre temas nacionalistas” ecoa tradições do teatro queer, refletindo sobre a ausência de corpos dissidentes na narrativa oficial americana. Ao mesmo tempo, o filme encara de frente questões como gordofobia, femmefobia e racismo dentro e fora da própria comunidade LGBTQIA+, sem suavizar o desconforto.

Nem tudo funciona o tempo inteiro. Há momentos em que o excesso de ideias deixa o ritmo irregular, e o caráter teatral pode soar limitador para quem espera uma linguagem mais cinematográfica. Algumas cenas parecem mais interessantes conceitualmente do que na prática. Ainda assim, essa irregularidade faz parte do projeto. “Lavender Men” não quer ser polido nem acessível demais. Ele exige do espectador uma entrega parecida com a de Taffeta, meio desajeitada, meio intensa, mas completamente intensa.

O filme é uma obra profundamente pessoal e provocativa. Entre o delírio e a dor, “Lavender Men” encontra um lugar próprio ao transformar imaginação em ferramenta política e emocional. É um cinema que irradia criatividade, e mesmo tropeçando, deixa marcas fortes ao insistir que recontar o passado também é uma forma de reinventar o presente.

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