segunda-feira, 6 de abril de 2026

Follies (Folichonneries, Canadá, 2025)

 “Follies” segue François, interpretado pelo próprio diretor Éric K. Bouliannel, e Julie (Catherine Chabot), um casal que, após 16 anos de casamento e dois filhos, decide abrir a relação na tentativa de reacender o desejo que parece ter se apagado com o tempo. O longa parte de uma premissa bastante contemporânea para explorar não só a dinâmica do casal, mas também os limites entre amor, rotina e curiosidade. O que começa como um experimento controlado rapidamente se transforma em uma jornada emocional mais complexa do que ambos imaginavam.

Boulianne constrói a narrativa com um humor que oscila entre a vergonha alheia e a ternura. Há algo de muito humano na forma como François e Julie se lançam nesse novo território sem realmente saber o que estão fazendo. As situações são, muitas vezes, desconfortáveis, mas nunca caricatas. O filme entende que abrir um relacionamento não é apenas uma questão de desejo, mas de comunicação, insegurança e redescoberta individual.

A química entre os protagonistas sustenta grande parte do filme. Éric K. Bouliannel, traz a François uma mistura de entusiasmo e fragilidade, enquanto Catherine Chabot constrói Julie com uma curiosidade que vai se transformando ao longo da narrativa. O interessante é que nenhum dos dois é tratado como “certo” ou “errado”. Ambos erram, hesitam, se expõem. Isso dá ao filme uma sensação de honestidade que evita julgamentos fáceis.

É justamente nesse terreno que “Follies” encontra seus elementos queer mais instigantes. Ao explorar a não-monogamia, o filme rompe com a lógica heteronormativa tradicional e abre espaço para experiências de fluidez sexual, incluindo encontros com pessoas do mesmo sexo para ambos os personagens. Mais do que provocação, essas experiências são tratadas como parte de uma busca identitária, onde desejo e afeto não precisam seguir categorias rígidas. O filme também toca em práticas como BDSM e dinâmicas de compersão, sempre com um olhar que privilegia a vulnerabilidade e o diálogo, aproximando a narrativa de uma sensibilidade queer que questiona normas e amplia possibilidades.

Outro ponto forte é como o filme evita cair em clichês pornográficos ou fantasias idealizadas. Em vez disso, ele mostra o lado emocional dessas escolhas. Ciúme, insegurança, excitação e culpa coexistem, criando um retrato mais complexo da intimidade contemporânea. A comédia, nesse sentido, funciona como uma porta de entrada, mas o que fica é a reflexão sobre como os relacionamentos mudam e sobre o quanto estamos preparados para lidar com essas mudanças.

Exibido em circuitos como Locarno, “Follies” é uma comédia que vai além do riso fácil. Éric K. Boulianne propõe um olhar atual sobre desejo, identidade e relações afetivas, sem respostas prontas, sem corpos normativos, mas com disposição para explorar zonas inquietas. O resultado é um filme leve na superfície, mas que carrega uma reflexão constante sobre o que significa amar alguém ao longo do tempo.

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