terça-feira, 7 de abril de 2026

Cruel, Usual, Necessary: The Passion of Silvio Narizzano (EUA, 2024)

Dirigido por Daniel Kremer, o documentário “Cruel, Usual, Necessary: The Passion of Silvio Narizzano” revisita a trajetória de um dos cineastas mais subestimados e ignorados do cinema anglo-canadense. O filme propõe um mergulho na vida e na obra de Silvio Narizzano, figura conhecida principalmente pelo sucesso “Georgy Girl” (1966), mas que operou com uma sensibilidade queer tanto explícita quanto velada, usando o cinema para exorcizar demônios pessoais de formas feias e belas ao mesmo tempo.

A estrutura do documentário combina material de arquivo, entrevistas estendidas e narração crítica do próprio Kremer (historiador de cinema e “guia” do espectador) para reconstruir a imagem de um autor que sempre operou nos limites do reconhecimento e da redescoberta estética. Kremer constrói o retrato de um cineasta que fez do cinema uma forma de exorcismo pessoal. Desde “Georgy Girl", Narizzano foi visto como um “one-hit wonder”, alguém disposto a desafiar abertamente os mecanismos da indústria e as convenções narrativas do período. Seus filmes voltavam constantemente a uma filmografia perplexa e pessoal, explorando demônios internos, batalhas criativas e marginalidade estética, temas que a cultura dominante preferia ignorar ou descartar como fracassos.

“Cruel, Usual, Necessary: The Passion of Silvio Narizzano” organiza um mosaico de vozes, reunindo atores, colaboradores, críticos e figuras próximas como Sidney J. Furie (mentor de Narizzano) para refletir sobre o impacto cultural de sua obra. Essa abordagem permite que o documentário apresente não apenas a filmografia de Narizzano, mas também o mito que se formou em torno de sua figura esquecida. A imagem que emerge é contraditória, marcada por talento criativo, obsessão artística e uma personalidade muitas vezes descrita como intensa e marcada por cicatrizes da indústria.

Um dos eixos mais fortes do documentário é a forma como a obra de Narizzano dialoga com a própria história do cinema dos anos 1960 a 1980. Seus filmes foram frequentemente ignorados ou subestimados por críticos e estúdios, mas Kremer os reposiciona como obras singulares que conquistam novo público. Títulos como “Blue” (1968), “Fade In” (1968), “Bloodbath" (1975) e “Young Shoulders” (1984) se tornam referências de uma estética que mistura gênero, realismo e energia quase ensaística para representar lutas criativas e pessoais.

O aspecto queer também atravessa o retrato que Kremer constrói. A sensibilidade gay de Narizzano, marcou profundamente sua filmografia. O documentário lembra que essa perspectiva ajudou a moldar seu olhar para narrativas e personagens à margem das convenções comerciais

“Cruel, Usual, Necessary: The Passion of Silvio Narizzano” funciona tanto como homenagem quanto como investigação crítica. Kremer não tenta suavizar as zonas mais sombrias da biografia do cineasta, incluindo suas lutas contra o esquecimento e as cicatrizes deixadas pela indústria. Ao reunir memórias, análises e testemunhos, o documentário sugere que a verdadeira obsessão de Narizzano nunca foi apenas o sucesso comercial, mas o próprio cinema. Uma paixão cruel, usual e necessária que, como o título sugere, acabou definindo toda a sua vida.


Nenhum comentário:

Postar um comentário