terça-feira, 31 de março de 2026

Lavender Men (EUA, 2024)

 

“Lavender Men” segue Taffeta (Roger Q. Mason), uma pessoa queer, negra, filipinx e plus-size que trabalha como stage manager em uma peça mambembe sobre Abraham Lincoln. Presa a um ambiente hostil, marcado por rejeição afetiva, racismo e violência estrutural, Taffeta passa a fabular uma realidade paralela onde convoca Abraham Lincoln (Pete Ploszek) e imagina um romance com o jovem soldado Elmer Ellsworth (Alex Esola). Dirigido por Lovell Holder, o filme mistura drama, comédia, fantasia histórica e um espírito meta-teatral que transforma o palco em campo emocional.

A estrutura é assumidamente caótica, alternando entre o teatro “real”, quase claustrofóbico, e a fantasia expansiva que Taffeta constrói para sobreviver. Essa oscilação não busca fluidez clássica, e sim um tipo de fricção constante entre presente e imaginação. O som recorrente de um tiro, evocando o assassinato de Lincoln, funciona como gatilho e ruptura, lembrando que toda fantasia nasce de uma ferida. Holder, filmando em apenas dez dias, com o elenco do espetáculo original, abraça essa urgência e transforma limitações em linguagem.

A engrenagem do filme está na performance de Mason, que carrega tudo com uma mistura rara de humor, raiva e fragilidade. Taffeta não é um protagonista fácil, nem quer ser. Ele interrompe a narrativa, invade cenas, assume papéis improváveis, de Mary Todd Lincoln a um lustre, transita entre gêneros, como se estivesse desesperadamente tentando ocupar todos os espaços que historicamente lhe foram negados. É uma atuação que transborda, às vezes até demais, mas nunca soa desonesta.

O gesto mais potente de “Lavender Men” está em sua proposta de reescrever a história como forma de sobrevivência. Ao imaginar Lincoln em uma relação homoerótica, o filme não está interessado em provar nada, mas em reivindicar o direito de fabular. Essa “fantasia gay sobre temas nacionalistas” ecoa tradições do teatro queer, refletindo sobre a ausência de corpos dissidentes na narrativa oficial americana. Ao mesmo tempo, o filme encara de frente questões como gordofobia, femmefobia e racismo dentro e fora da própria comunidade LGBTQIA+, sem suavizar o desconforto.

Nem tudo funciona o tempo inteiro. Há momentos em que o excesso de ideias deixa o ritmo irregular, e o caráter teatral pode soar limitador para quem espera uma linguagem mais cinematográfica. Algumas cenas parecem mais interessantes conceitualmente do que na prática. Ainda assim, essa irregularidade faz parte do projeto. “Lavender Men” não quer ser polido nem acessível demais. Ele exige do espectador uma entrega parecida com a de Taffeta, meio desajeitada, meio intensa, mas completamente intensa.

O filme é uma obra profundamente pessoal e provocativa. Entre o delírio e a dor, “Lavender Men” encontra um lugar próprio ao transformar imaginação em ferramenta política e emocional. É um cinema que irradia criatividade, e mesmo tropeçando, deixa marcas fortes ao insistir que recontar o passado também é uma forma de reinventar o presente.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Una Perra Andaluza (Espanha, 2024-2025)

“Una perra andaluza”, criada e dirigida por Pablo Tocino, é daquelas séries que parecem surgir meio por acidente, como uma ideia maluca que ninguém esperava que fosse dar certo, mas deu. Estreada em 2024 e dividida até agora em duas temporadas, a produção, definida como uma dramarachada (dramédia + mamarachada) acompanha um grupo de jovens em Sevilha tentando sobreviver à própria juventude sem muito glamour e com ainda menos dinheiro. Sofía, Samu, Tamara, Marcos, Sylvia e Judit são, cada um à sua maneira, versões contemporâneas de gente perdida, meio fodida emocionalmente e tentando fazer algum sentido da vida entre sexo, amizade, frustração e ressaca.

A primeira temporada tem aquele charme caótico de quem não tem nada a perder. São episódios curtos, quase como recortes de um cotidiano bagunçado, onde Marcos descobre seus desejos se apaixonando pelo melhor amigo hétero, Sofía começa a se cansar de um relacionamento “certinho” demais, e Samu simplesmente se joga na noite e nos aplicativos como se não houvesse amanhã. Tudo é muito direto, às vezes até bruto, com diálogos que parecem improvisados e situações que beiram o desconforto. E é justamente aí que a série encontra sua voz, nessa mistura de humor ácido, vergonha alheia e verdade.

O lado queer aparece de forma completamente natural, sem aquela cara de “representatividade calculada”. Tem personagem gay, trans, gente experimentando, errando, desejando, tudo dentro de um universo onde ninguém está plenamente resolvido. Sylvia, por exemplo, chega de Madri e precisa se reencaixar em Sevilha, enquanto Marcos vive o clássico drama de amar quem não pode. Mas nada disso vira discurso. A série prefere mostrar do que explicar, e isso faz com que tudo soe mais vivo, mais próximo, mais honesto e literalmente, mais nu.

A segunda temporada, lançada em 2025, pega esse mesmo caos e dá uma leve organizada, sem perder a sujeira que faz tudo funcionar. O slogan “envelhecer é uma coisa suja” resume bem o espírito. Os personagens continuam perdidos, mas agora com um pouco mais de consciência do próprio desastre. Samu volta para Huelva e encara outras camadas de si mesmo, Tamara e Judit cruzam caminhos de um jeito interessante, e Marcos finalmente enfrenta suas primeiras experiências com uma mistura de ansiedade e ternura. A série ganha ritmo, as piadas funcionam melhor e os conflitos ficam mais densos.

Tecnicamente, continua longe de qualquer padrão “polido”, e isso é quase um manifesto. A estética DIY, os apartamentos meio feios, a luz irregular, tudo contribui para um retrato muito específico de uma juventude precarizada que raramente aparece com essa franqueza na televisão. Em vez de esconder as limitações, “Una perra andaluza” abraça o improviso e transforma isso em linguagem. E quando funciona, funciona muito, porque há um senso de verdade nas atuações e nos diálogos que compensa qualquer falha.

Olhando as duas temporadas, o que fica é a sensação de estar assistindo algo vivo, em constante construção, meio desajeitado, mas cheio de personalidade. “Una perra andaluza” não tenta agradar todo mundo, nem fazer concessões para parecer mais “aceitável”. Ela aposta no exagero, no desconforto e no afeto torto entre seus personagens para construir um retrato geracional que mistura desejo, solidão e vontade de existir de algum jeito. Pode ser irregular, pode até irritar em alguns momentos, mas é difícil sair ileso dessa energia crua que a série insiste em jogar na tela.

sábado, 28 de março de 2026

A Mulher mais Rica do Mundo(La Femme la Plus Riche du Monde, França/Bélgica, 2025)

“A Mulher mais Rica do Mundo” segue Marianne Farrère (Isabelle Huppert), uma senhora bilionária, cuja fortuna colossal atrai não apenas a cobiça familiar, mas também a presença magnética de Pierre-Alain (Laurent Lafitte), um artista gay mais jovem que passa a ocupar um lugar cada vez mais íntimo em sua vida. Dirigido por Thierry Klifa, o filme articula uma relação ambígua e fascinante, na qual Marianne doa centenas de milhões de euros ao artista, desencadeando tensões que atravessam desejo, afeto, manipulação e poder. Livremente inspirado no escândalo Bettencourt, o roteiro transforma o vínculo entre esses dois personagens no eixo emocional e político da narrativa.

Klifa constrói sua protagonista como uma figura simultaneamente opaca e magnética, e Huppert, em mais uma atuação de precisão quase clínica, sustenta cada nuance dessa mulher que parece oscilar entre lucidez e entrega. Marianne não é apenas uma herdeira cercada por interesses, mas alguém que encontra em Pierre-Alain uma espécie de espelho tardio, uma chance de reconfigurar suas próprias formas de afeto. O artista, por sua vez, interpretado por Lafitte com ambiguidade calculada, nunca se deixa reduzir a um oportunista ou a uma vítima, habitando um território instável onde carisma e cálculo se confundem.

É nesse espaço que “A Mulher mais Rica do Mundo” revela seus aspectos queer mais instigantes. A presença de Pierre-Alain é estruturante, e sua identidade gay atravessa a narrativa de forma explícita, seja nas sequências ambientadas em bares gays, seja nas referências culturais que orbitam seu universo ou em seus romances casuais. Mais do que isso, o filme explora a aceitação ativa de Marianne, que não apenas reconhece a identidade do artista, mas a acolhe e a defende.

A escolha de inserir esse eixo queer em uma história inspirada em um escândalo real não é trivial. Ao reimaginar o caso Bettencourt com a inclusão de um personagem gay como figura central, Klifa desloca o foco da simples disputa por herança para um campo mais complexo de afetos e identidades. O dinheiro, nesse contexto, deixa de ser apenas um instrumento de poder e passa a operar como mediador de vínculos frágeis, onde dar e receber se confundem com formas de pertencimento e validação.

O filme aposta em um tom que equilibra comédia dramática e crítica social, sem abrir mão de uma elegância visual que reforça o contraste entre opulência e solidão. Há uma ironia sutil na maneira como os espaços luxuosos são filmados, quase sempre esvaziados de calor humano, enquanto os ambientes queer surgem como territórios de pulsação e risco. Essa oposição, longe de ser caricatural, evidencia a busca de Marianne por algo que sua fortuna jamais pôde comprar.

Indicado à Queer Palm no Festival de Cannes 2025, “A Mulher mais Rica do Mundo” interroga o poder através de relações desviantes e afetos não normativos. Klifa encontra, nesse encontro improvável entre uma bilionária e um artista gay, uma matéria dramática rica o suficiente para questionar convenções e expor fragilidades. O resultado é um filme que seduz pela superfície sofisticada, mas que permanece reverberando por aquilo que revela sobre solidão, desejo e as formas inesperadas de reconhecimento.



quinta-feira, 26 de março de 2026

El Último Arrebato (Espanha, 2025)

“El último arrebato”, dirigido por Marta Medina e Enrique López Lavigne,revisita o mito de “Arrebato” e de seu criador, Iván Zulueta, uma das figuras mais enigmáticas do cinema espanhol. Longe de assumir o formato clássico de biografia documental, o filme é uma investigação sobre o fascínio que a obra de Zulueta ainda exerce. O ponto de partida é simples, tentar entender como um filme incompreendido em seu lançamento acabou se tornando uma das obras de culto mais importantes da história do cinema espanhol.

Medina e López Lavigne evitam a estrutura convencional de entrevistas e depoimentos organizados cronologicamente. Em vez disso, constroem um objeto híbrido, situado entre documentário, ensaio e ficção. A narrativa é como um jogo de camadas, quase como bonecas russas, em que o passado do cineasta, as imagens de “Arrebato” e o próprio processo de filmagem se misturam.

O documentário também revisita a figura de Zulueta como um artista maldito. Quando “Arrebato” estreou, sua proposta radical foi recebida com estranhamento e acabou fracassando comercialmente. Com o tempo, no entanto, a obra foi redescoberta e passou a ser vista como um dos filmes mais ousados surgidos durante a transição espanhola. O próprio destino do diretor parece espelhar essa narrativa trágica, já que sua vida foi marcada pelo isolamento e pela dependência de heroína, circunstâncias que contribuíram para seu desaparecimento gradual da cena cinematográfica.

Entre os elementos mais interessantes do filme está a participação de colaboradores e amigos que ajudam a reconstruir esse universo. Figuras como Eusebio Poncela, Cecilia Roth e Jaime Chávarri aparecem para lembrar o ambiente criativo que cercou “Arrebato”. Em vez de meros depoimentos ilustrativos, suas presenças funcionam quase como reencenações da memória, recriando o clima de mistério que sempre envolveu Zulueta.

Há ainda um aspecto metalinguístico que atravessa todo o filme. Em vários momentos, os próprios diretores entram em cena e passam a fazer parte da narrativa, revelando dúvidas, frustrações e impasses do processo criativo. Esse gesto aproxima o documentário do espírito autoficcional contemporâneo, onde a linha entre observador e objeto observado se torna cada vez mais instável. Ao se deixar contaminar pelo universo de Zulueta, o filme sugere que o fascínio por “Arrebato” não é apenas histórico, mas também algo que continua a afetar quem se aproxima de sua obra.

“El último arrebato” não tenta resolver o enigma de Iván Zulueta, e talvez esteja justamente aí sua potência. O documentário prefere habitar esse território de obsessão e fascínio, aceitando que certos artistas permanecem indecifráveis. Mais do que um retrato definitivo, o documentário funciona como uma carta de amor ao cinema enquanto vício, como uma experiência que pode consumir quem se aproxima demais de sua intensidade. O verdadeiro legado de Zulueta não é apenas um filme cult, mas a ideia de que o cinema pode ser uma forma de desaparecimento dentro da própria imagem.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Remember I Am Dead (Espanha, 2024)

“Remember I Am Dead”, de Noel Alejandro, é uma experiência que se infiltra lentamente sob a pele,  menos um filme sobre fantasmas e mais uma meditação erótica sobre presenças que insistem em não desaparecer. Com 56 minutos, o trabalho reafirma o cineasta como um dos nomes mais inquietos surgidos na interseção entre o cinema autoral e o cinema adulto, onde o desejo nunca é gratuito, mas sempre carregado de memória.

Na calada da noite, em uma paisagem rural quase suspensa no tempo, acompanhamos Sagat, um fazendeiro de 31 anos, caminhando por um cemitério esquecido, uma imagem que já anuncia o tom elegíaco do filme. Ao amanhecer, a aparição de Roman, um enigmático homem de 29 anos, na sala austera de sua casa, inaugura uma narrativa que não se organiza pela lógica, mas pelo afeto e pela estranheza. Interpretados por Pierre Emö e Brandon Jones (também conhecido como Jonzu), os personagens se movem como se compartilhassem uma memória que o espectador nunca acessa completamente, e é justamente nesse vazio que o filme encontra sua força.

Alejandro constrói sua mise-en-scène como um sussurro: silenciosa, rarefeita, quase espectral. A sensação de familiaridade inexplicável que liga Sagat e Roman não busca resolução; ao contrário, o filme insiste no mistério como linguagem. Por que Roman está ali? O que os une? Em vez de respostas, “Remember I Am Dead” oferece um estado de suspensão emocional, onde passado e presente se contaminam continuamente, criando uma atmosfera em que o tempo parece dissolvido.

Descrito como um “abraço morno tingido de solidão melancólica”, o filme traduz essa ideia com rigor formal. Há algo profundamente íntimo na forma como os corpos são filmados, não como objetos de desejo imediato, mas como arquivos vivos de experiências, perdas e fantasmas. Alejandro, conhecido por suas narrativas não convencionais dentro do cinema adulto, aqui radicaliza sua proposta ao esvaziar o erotismo de sua função mais evidente, transformando-o em vestígio, em eco, em algo que resiste.

Um dos elementos mais fascinantes é o uso do som  ou melhor, da ausência dele. A trilha sonora, funciona quase como uma anti-trilha, reforçando o silêncio e ampliando a sensação de desamparo. Esse vazio sonoro não apenas intensifica o caráter fantasmagórico da obra, mas também desloca o espectador para dentro de uma experiência sensorial onde cada gesto, cada respiração, ganha peso dramático.

“Remember I Am Dead” oferece uma jornada introspectiva sobre desaparecimento, memória e a natureza assombrosa do que não pode ser resolvido. É um trabalho que redefine o gênero dos mortos-vivos ao abandonar o horror explícito e abraçar uma melancolia persistente. Uma experiência erótica, bela e profundamente assombrada.


DRIVE NOS COMENTÁRIOS

terça-feira, 24 de março de 2026

Visita de Mudança (Jimpa, Austrália/Países Baixos/Finlândia, 2025)

"Jimpa", de Sophie Hyde, parece um gesto pequeno mas gigante em emoção. A diretora, conhecida por seu olhar sensível em obras como “Boa Sorte, Leo Grande”, retorna aqui a um território mais íntimo, cruzando memória, identidade e pertencimento queer em uma narrativa que se constrói a partir de encontros geracionais. A história segue uma mãe levando Frances, filhe não binárie, para visitar o avô gay, em Amsterdã.

No centro da história está a relação entre três figuras: uma pessoa jovem em processo de descoberta, sua mãe e o avô, Jimpa, cuja presença funciona quase como um eixo gravitacional. Interpretado por Olivia Colman, John Lithgow e Aud Mason-Hyde, o trio forma um núcleo dramático intenso. Colman entrega mais uma performance precisa, equilibrando fragilidade e controle, enquanto Lithgow, que já brilhou em "Love is Strange", de Ira Sachs, constrói um Jimpa carismático, mas também atravessado por contradições. 

A construção do filme acompanha essa delicadeza. Hyde opta por uma design de produção naturalista, com câmera próxima aos corpos e aos silêncios, permitindo que gestos mínimos ganhem peso dramático. Não há pressa em “explicar” os personagens; o filme prefere observá-los, como se estivesse escutando memórias sendo reorganizadas em tempo real. 

“Jimpa” não se limita a identidade ou representação queer direta, mas se infiltra na própria estrutura da narrativa. O filme discute herança LGBTQIA+ como algo vivido, transmitido e também tensionado entre gerações. Jimpa, como figura de uma geração anterior, carrega experiências que dialogam com um passado de luta e invisibilidade, enquanto a jovem protagonista encarna um presente onde outras possibilidades de existência parecem mais acessíveis, ainda que não menos complexas. 

Há, ainda, um interesse claro da diretora em explorar a ideia de família para além de estruturas normativas. As relações em “Jimpa” são marcadas por afeto, mas também por ruídos, incompreensões e silêncios que nunca se resolvem completamente. Esse é um dos maiores méritos do filme: recusar o óbvio. Ao invés de oferecer o definitivo, Hyde prefere manter seus personagens em um estado de busca contínua.

Se há fragilidades, elas surgem justamente dessa aposta no minimalismo. Em alguns momentos, o ritmo contemplativo pode se aproximar da estagnação. Ainda assim, essas escolhas parecem coerentes com a proposta do filme, que privilegia sensações sobre conclusões. “Jimpa” é uma obra sensível e sofisticada, sustentada por um elenco estelar e por uma direção que entende o cinema como espaço de escuta, um lugar onde o passado e o presente queer podem coexistir, dialogar e, sobretudo, continuar sendo reinventados.

Trans Memoria (Suécia/França, 2024)

 

“Trans Memoria” nasce de uma necessidade profundamente pessoal. O documentário acompanha a própria diretora, Victoria Verseau, em um processo de revisitar sua transição enquanto lida com o luto pela perda de uma amiga próxima. Ao lado de Athena e Aamina, também mulheres trans em diferentes momentos de suas jornadas, o filme constrói uma espécie de diário coletivo, onde passado, presente e futuro se misturam em conversas, deslocamentos e lembranças fragmentadas.

O que mais chama atenção logo de início é o modo como o filme rejeita uma estrutura tradicional. Não há uma narrativa linear clara, nem uma progressão dramática convencional. Em vez disso, Verseau aposta em uma construção mais sensorial, onde a memória funciona como eixo organizador. As cenas parecem surgir como lembranças soltas, às vezes íntimas, às vezes quase abstratas, criando uma experiência que exige entrega do espectador. Não é um filme que guia, é um filme que convida a sentir.

Essa escolha estética se reflete diretamente na forma como os corpos são filmados. Há um olhar muito atento à materialidade da experiência trans, não como espetáculo, mas como algo vivido, sentido e, muitas vezes, revisitado com dor e carinho ao mesmo tempo. A câmera se aproxima, observa, respeita. Existe uma tentativa clara de capturar não apenas quem essas mulheres são hoje, mas quem foram e quem ainda estão se tornando. É um cinema que trabalha na instabilidade da identidade, sem tentar fechá-la em definições.

A relação entre memória e luto é outro eixo forte. A ausência da amiga que não está mais presente atravessa o filme de maneira constante, como um fantasma que reorganiza todas as outras experiências. “Trans Memoria” entende que lembrar também é um ato político, especialmente para corpos historicamente apagados. Ao revisitar o passado, o filme não busca apenas reconstruir uma trajetória individual, mas também preservar histórias que frequentemente são interrompidas ou silenciadas.

O documentário é particularmente potente por fugir de qualquer lógica explicativa ou pedagógica. Não há tentativa de “traduzir” a experiência trans para um público externo. O filme parte do pressuposto de que essas vivências já têm valor em si mesmas. Ao colocar mulheres trans conversando, rindo, lembrando e existindo juntas, ele constrói um espaço de intimidade raro no cinema. Mais do que falar sobre identidade, o filme mostra o que significa compartilhar existência, afeto e memória dentro de uma comunidade.

A ausência de uma narrativa mais definida e o ritmo contemplativo tornam a experiência menos acessível, especialmente para quem busca uma história mais direta. Ainda assim, é justamente nessa recusa em simplificar que “Trans Memoria” triunfa. O filme não tenta ser universal, e talvez por isso seja tão específico e verdadeiro. Ele funciona como um gesto de preservação, um registro sensível de vidas que insistem em existir, lembrar e se transformar, mesmo quando o mundo ao redor tenta apagá-las.

domingo, 22 de março de 2026

TOP 10 MARCO BERGER

Marco Berger é um dos nomes mais consistentes e reconhecíveis do cinema queer contemporâneo na América Latina. Desde o final dos anos 2000, o diretor argentino construiu uma filmografia centrada no desejo masculino, especialmente naquele que se manifesta em zonas de ambiguidade. O que interessa a Berger é o jogo, o olhar, o tempo dilatado entre  homens que orbitam um ao outro sem necessariamente nomear o que sentem. Berger sempre se manteve fiel a um modelo de produção independente. Isso não apenas garantiu liberdade criativa, como também contribuiu para a intimidade de seus filmes. É justamente nessa recusa em oferecer o óbvio que sua obra se torna tão potente dentro do cinema queer, especialmente ao inquietar masculinidades e expor as fissuras do comportamento padronizado.


10 - Los Agitadores (Argentina, 2022)

Um grupo de amigos passa o verão entre festas, conversas e jogos de sedução. Berger aqui radicaliza sua proposta, quase abandonando a narrativa tradicional em favor de uma experiência sensorial.

09 - Mariposa (Argentina, 2015)

Um exercício narrativo ousado que acompanha um casal em diferentes realidades possíveis. Ao brincar com linhas do tempo paralelas, Berger investiga como o acaso molda as relações afetivas. 


08 - Plan B (Argentina, 2009)

Bruno decide se aproximar do novo namorado de sua ex com um plano em mente. O que começa como manipulação evolui para algo mais complexo. Um dos primeiros filmes de Berger, já trazendo sua marca registrada: o desejo que surge onde não era esperado.


07 - Taekwondo (Argentina, 2016)

Um grupo de amigos divide uma casa de veraneio, criando um ambiente de convivência masculina carregado de tensão erótica. Berger explora o corpo masculino com uma naturalidade rara, transformando gestos cotidianos em pura provocação.


06 - Os Amantes Astronautas (Argentina, 2024)

Dois amigos viajam juntos e passam a lidar com sentimentos que nunca haviam sido verbalizados. O filme retoma temas clássicos do diretor, mas com um olhar mais maduro sobre o tempo, o afeto e as oportunidades perdidas.


05 - El Cazador (Argentina, 2020)

Um adolescente se envolve com um homem mais velho em uma relação marcada por desejo e perigo. Aqui, Berger flerta com o thriller, criando uma atmosfera mais densa sem abandonar sua abordagem sensorial do erotismo.


04 - Hawaii (Argentina, 2013)

Dois homens se reencontram durante o verão, trazendo à tona memórias e sentimentos não resolvidos. Um dos filmes mais delicados do diretor, onde o passado pesa tanto quanto o desejo presente.


03 - Perro Perro (Argentina, 2025)

Em seu trabalho mais recente, Berger refina ainda mais sua investigação sobre masculinidade e desejo. O filme aposta em relações ambíguas e jogos de poder, reafirmando seu interesse por personagens que nunca dizem exatamente o que sentem.


02 - Un Rubio (Argentina, 2019)

Um homem hétero divide apartamento com um colega de trabalho gay, e a convivência transforma lentamente essa dinâmica. Berger constrói aqui um dos seus estudos mais precisos sobre desejo reprimido e masculinidade em crise.


01 - Ausente (Argentina, 2011)

Um adolescente desenvolve uma obsessão por seu professor, criando uma tensão constante entre inocência e manipulação. Talvez o filme mais emblemático de Berger, onde sua linguagem encontra um equilíbrio perfeito entre narrativa, erotismo e inquietação. Ganhador do Teddy, no Festival de Berlim.

Encerrar uma lista de Marco Berger é entender que sua filmografia não se resume a finais felizes ou tragédias retumbantes, mas à celebração do corpo masculino. Através de sua lente, a masculinidade deixa de ser apenas rústica para se tornar algo poroso, atravessado por dúvidas, medos e uma vulnerabilidade que o cinema heteronormativo não mostra.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Perro Perro (Argentina, 2025)

Em “Perro Perro”, Marco Berger radicaliza um conjunto de obsessões que atravessam sua filmografia, transformando o desejo em uma fábula abertamente absurda. A premissa beira o surrealismo: Juan (Germán Flood) encontra um homem que vive como um cachorro e decide acolhê-lo, cuidando dele com carinho, alimentação e intimidade crescente. A partir desse ponto de partida, o filme abandona qualquer compromisso com o realismo para mergulhar em um território alegórico onde o comportamento humano é reconfigurado por impulsos primários, instaurando uma narrativa que tensiona constantemente os limites entre o instinto e a construção social.

Berger utiliza o convívio entre Juan e esse “homem-cão” para investigar dinâmicas de poder, dependência e afeto. O gesto de cuidar, que inicialmente parece generoso, revela progressivamente ambiguidades inquietantes: há ternura, mas também controle; há desejo, mas também domesticação. Essa ambivalência é central para o filme, que nunca oferece respostas fáceis sobre a natureza dessa relação, preferindo explorar suas zonas de desconforto. 

Esteticamente, “Perro Perro” marca uma inflexão interessante dentro da obra do diretor. Filmado em preto e branco, o longa aposta em uma mise-en-scène depurada, com enquadramentos que enfatizam corpos, gestos e proximidades físicas do homem cão que está sempre nu. Esse visual contribui para uma sensação de suspensão temporal, como se a história existisse em um espaço fora da realidade cotidiana. Ao mesmo tempo, o minimalismo dialoga com o absurdo, criando um contraste produtivo entre a sobriedade da imagem e a estranheza da situação. 


No centro do filme está a performance de Juan Ramos, cujo trabalho corporal é essencial para sustentar a proposta. Sem dizer uma única palavra, ele constrói um "cachorro" que comunica solidão e devoção através do olhar e do movimento, provocando uma reação instintiva no espectador. Do outro lado, Germán Flood personifica a obsessão cuidadora, criando uma dinâmica que oscila entre o afeto paternalista e o homoerotismo latente. É uma dança perigosa que nos faz perguntar: quem é o verdadeiro animal na busca por preencher o vazio existencial?

Berger utiliza a alegoria para explorar formas de desejo que escapam às normatividades, deslocando categorias fixas de identidade e relacionamento flertando com a prática do pet-play. Mais do que representar uma relação homoerótica, o filme investiga a própria construção do desejo, sugerindo que ele é moldado por instintos, projeções e estruturas de poder. É Berger em sua forma mais provocadora e sensorial, usando o humor ácido para mascarar uma tragédia sobre o isolamento e as formas bizarras que inventamos para nos sentirmos amados.

Ao fim, o que fica é a sensação de que Marco Berger fez algo diferente aqui e atingiu um novo patamar de liberdade criativa. Flertando com o universo de João Pedro Rodrigues, ele não precisa mais das desculpas de "brotheragem” para explorar o desejo; ele cria suas próprias regras em um mundo onde a pele fala mais que a língua. "Perro Perro" é um experimento incômodo e brilhante que reafirma o diretor argentino como o grande cartógrafo do desejo queer contemporâneo, provando que, às vezes, é preciso latir para finalmente ser.

quinta-feira, 19 de março de 2026

The Activist (Aktyvistas, Lituânia, 2025)

“The Activist”, de Romas Zabarauskas, é o capítulo final de uma trilogia iniciada com “The Lawyer” (2020) e “The Writer”(2023), consolidando um projeto autoral voltado para as tensões entre política, desejo e identidade queer na Lituânia contemporânea. Aqui, a narrativa acompanha Andrius (Robertas Petraitis), um jovem ativista que toma uma decisão extrema após a morte do namorado: infiltrar-se em um grupo neo-nazista para encontrar o responsável pelo crime. 

O que torna Andrius um personagem interessante é justamente sua instabilidade. Ele não é um herói clássico, nem um mártir da causa. Existe uma impulsividade nas suas decisões que beira o imprudente, mas que também revela o quanto ele está emocionalmente abalado. Sua relação com Bernardas (Vaslov Goom) adiciona outra camada ao filme, trazendo à tona afetos, tensões e contradições que escapam da lógica puramente política. O ativismo aqui não aparece como um espaço de certezas, mas como um campo atravessado por fragilidades pessoais.

A estrutura do filme acompanha esse mergulho em um ambiente hostil. A infiltração no grupo neo-nazista é construída de forma gradual, mostrando como Andrius precisa performar uma identidade que entra em conflito direto com quem ele é. Esse jogo de máscaras cria momentos de tensão interessantes, principalmente quando o filme sugere o risco constante de exposição. Ao mesmo tempo, a narrativa não se apoia apenas no suspense, mas também na deterioração emocional do protagonista, que passa a viver entre dois mundos incompatíveis.


“The Activist” mantém a estética crua que marca o cinema de Zabarauskas. A câmera próxima dos rostos, os ambientes pouco estilizados e a sensação quase documental ajudam a reforçar o realismo da proposta. O uso de espaços urbanos frios e pouco acolhedores contribui para a atmosfera de isolamento, enquanto a presença constante de celulares e redes sociais insere a narrativa em um contexto contemporâneo onde a militância também acontece no digital. 

A história não gira em torno de aceitação ou descoberta, mas de sobrevivência e confronto direto com a violência. O fato de um homem gay se infiltrar em um grupo abertamente homofóbico cria uma tensão potente, colocando o corpo queer em um espaço de perigo constante. Ao mesmo tempo, o filme também aponta para as contradições dentro da própria comunidade, mostrando como o ativismo pode ser atravessado por egos, disputas e diferentes formas de lidar com o trauma.

Ainda que tenha força em sua proposta, o filme também apresenta algumas limitações. A narrativa por vezes se torna dispersa, e a falta de um arco mais definido pode dificultar a conexão com parte do público. Mesmo assim, “The Activist” se sustenta pela coragem de suas escolhas. Ao colocar seu protagonista em um jogo perigoso entre identidade e performance, o filme entrega um retrato inquieto e bastante atual sobre o custo emocional de viver e resistir em um mundo onde o ódio ainda se organiza de forma tão concreta.


Guardião (Brasil, 2025)

“Guardião”, dirigido por Eduardo Tosta, constrói uma narrativa delicada a partir de um gesto simples, mas profundamente simbólico. Ambientado em Salvador, o curta segue Fernando (João Sena), uma criança que decide ir fantasiada de Curupira para uma festa escolar, incorporando elementos que tensionam expectativas de gênero, e seu avô Lino (Carlos Betão), que se vê confrontado com esse desejo. A partir dessa premissa, o filme organiza um embate íntimo entre afeto e norma, onde o cotidiano familiar se transforma em campo de negociação emocional. A escolha de situar a narrativa no espaço doméstico reforça o caráter íntimo da história, permitindo que pequenas ações e reações ganhem peso dramático.

A relação entre avô e neto é o eixo emocional da obra, construída por meio de diálogos singelos e de uma expressividade que se manifesta sobretudo nos gestos. Lino não surge como uma figura rígida, mas como alguém atravessado por contradições, preso entre o cuidado genuíno e os valores que o formaram. Essa ambiguidade dá densidade ao personagem. Fernando, por sua vez, é apresentado com uma espontaneidade que captura a inocência de quem ainda não compreende plenamente os códigos sociais que o cercam. O encontro entre essas duas temporalidades, a "criança viada" em descoberta e a velhice em revisão, estrutura o conflito do filme com sensibilidade.


A presença do Curupira como figura simbólica é um dos achados mais interessantes da narrativa. Tradicionalmente associado à proteção da floresta e à subversão de caminhos, o personagem folclórico é aqui reconfigurado como um vetor de desconstrução de gênero. Ao incorporar saia e elementos considerados femininos à fantasia, Fernando ativa uma leitura que desloca o folclore para um campo contemporâneo de debate sobre identidade. O Curupira deixa de ser apenas uma entidade mítica para se tornar um dispositivo narrativo que questiona normas e propõe outras possibilidades de existência.


Em vez de tratar a infância queer como problema ou desafio, Tostes a apresenta como espaço de imaginação e liberdade, ainda não totalmente capturado pelas violências do mundo exterior. O despertar queer é sugerido com delicadeza, atravessado por curiosidade, desejo de expressão e pequenas transgressões. Ao mesmo tempo, o filme não ignora o choque geracional que acompanha esse processo, evidenciado tanto nas reações do avô quanto na figura da vizinha Terezinha (Luciana Souza), cujos pensamentos retrógrados funcionam como representação de uma sociedade que vigia e regula corpos desde cedo.


 “Guardião” revela um cuidado estético que amplia a potência de sua narrativa. A fotografia, de Black Mamba, merece destaque ao capturar o aconchego do lar, mas também a luz e as cores de Salvador com uma sensibilidade que dialoga com o estado emocional dos personagens. Há uma atenção particular aos detalhes, objetos, texturas, pequenos movimentos, que contribui para a construção de uma atmosfera poética. A trilha, com hinos da cantora Luka e uso pontual de música incidental, reforça o tom íntimo do filme, funcionando como extensão dos sentimentos que não são verbalizados. 


“Guardião” encontra sua força na sutileza. Ao abordar temas como identidade de gênero na infância, memória e afeto intergeracional, o filme evita o didatismo e aposta em uma construção sensível, onde cada gesto carrega significado. A jornada de Fernando não é apresentada como conflito resolvido, mas como um instante capturado de descoberta, ainda em formação. Nesse recorte, o filme encontra sua potência: na capacidade de registrar a beleza e a fragilidade de um momento em que ser quem se é ainda parece possível, mesmo diante de um mundo que, em breve, exigirá outras respostas. O curta será exibido em 27/03 no Cine Glauber Rocha, em Salvador.


quarta-feira, 18 de março de 2026

Days of August (EUA, 2025)

“Days of August”, de Mackenzie Marsteller, constrói uma narrativa que combina romance e ficção política em um cenário distópico. Ambientado em uma versão alternativa dos Estados Unidos dominada por um regime autoritário, o filme acompanha a trajetória de Godfrey Kilpatrick (Santiago Sepulveda), um escritor recluso ligado a um jornal clandestino que resiste ao governo. Quando ele redescobre o diário de seu antigo amante, August Dupree (Teryn Macallan), memórias de um relacionamento proibido emergem e obrigam o protagonista a revisitar tanto sua história pessoal quanto os conflitos políticos de sua juventude. A trama transforma o filme em uma reflexão simultânea sobre amor, memória e resistência em tempos de repressão.

O filme é bifurcado em duas linhas temporais distintas. De um lado, o presente marcado pela clandestinidade e pela vigilância estatal; de outro, o passado reconstruído através dos escritos de August. A estrutura do longa bebe da fonte dos romances de cartas e memórias. A narrativa se revela através da leitura de textos íntimos, deixando que o relacionamento dos personagens apareça aos poucos. Com o diário guiando tudo, Marsteller entrega um filme que se organiza pela emoção e pelo que ela desperta, fugindo daquela progressão clássica de eventos.

Esteticamente, “Days of August” assume um visual modesto, típica de produções indie realizadas com recursos limitados. O projeto foi desenvolvido por uma equipe jovem e financiado em parte por crowdfunding, com filmagens concentradas em poucos dias na Virgínia e na Carolina do Norte. Essa escala reduzida  reflete em cenários contidos e numa mise-en-scène que privilegia a intimidade dos diálogos e a atmosfera melancólica da narrativa. 

No centro da estrutura está a dinâmica entre os personagens interpretados por Santiago Sepulveda e Teryn Macallan. A relação entre Godfrey e August funciona como o eixo dramático do filme, sugerindo uma história de amor atravessada por repressão política e desigualdade social. Godfrey carrega o peso de sua origem aristocrática dentro do regime autoritário, enquanto August surge como a voz mais livre e sensível do relacionamento, registrada através do diário que conduz a narrativa. Essa assimetria emocional produz momentos de vulnerabilidade que reforçam o caráter trágico da história.

Entre os principais méritos do filme está justamente sua ambição temática. Ao combinar romance queer, distopia política e reflexão sobre memória, “Days of August” busca dialogar com tradições narrativas distintas, aproximando referências do melodrama romântico e da ficção especulativa. Entretanto, essa mesma ambição também revela algumas fragilidades. O desenvolvimento do universo distópico permanece relativamente superficial, e certos conflitos políticos aparecem apenas como pano de fundo para o drama pessoal. 

Ainda assim, “Days of August” revela um projeto autoral movido por forte convicção emocional. Ao centrar sua narrativa na lembrança de um amor perdido em meio a um regime repressivo, o filme trabalha uma reflexão sobre como as relações afetivas sobrevivem mesmo sob estruturas de controle social. A memória de August torna-se não apenas um registro de intimidade, mas também um gesto de resistência contra o esquecimento imposto pelo poder.



terça-feira, 17 de março de 2026

O Som da Morte (Whistle, EUA/Irlanda, 2025)



Dirigido por Corin Hardy, “O Som da Morte” é um horror adolescente que mistura maldição sobrenatural e drama colegial. A trama acompanha um grupo de estudantes que encontra um misterioso apito esculpido em forma de caveira, artefato associado a uma antiga relíquia mesoamericana. Ao ser tocado, o objeto convoca manifestações das mortes futuras daqueles que ouviram seu som, desencadeando uma série de perseguições sobrenaturais que ecoam estruturas narrativas já bem conhecidas. No centro da história estão Chrys (Dafne Keen), uma nova aluna marcada por traumas familiares, e Ellie (Sophie Nélisse), colega de escola que rapidamente se aproxima dela.

“O Som da Morte” apresenta uma premissa intrigante: a ideia de que cada pessoa é perseguida por uma versão antecipada de sua própria morte. Essa lógica aproxima o filme de títulos como “Premonição”, mas também de narrativas recentes que exploram maldições transmitidas por objetos ou rituais. Hardy constrói a progressão da história a partir da revelação gradual das regras dessa ameaça sobrenatural, conduzindo os personagens por uma série de tentativas desesperadas de escapar ao destino anunciado. 

Tecnicamente o filme é competente. A fotografia, de Björn Charpentier, investe em contrastes intensos de luz e sombra para criar um ambiente inquietante, enquanto a montagem, de Nicholas Emerson, privilegia sequências de tensão crescente que culminam em explosões de violência gráfica. Hardy, que já havia trabalhado com horror em “A Freira”, demonstra habilidade em manipular o suspense através da expectativa visual: corredores vazios, reflexos ambíguos e aparições repentinas que transformam espaços cotidianos, como escolas ou festas locais, em territórios de ameaça constante. 


Mas o que nos interessa está a dimensão queer da narrativa. O relacionamento entre Chrys e Ellie não funciona como mero detalhe, mas como eixo emocional da história. O romance entre as duas personagens surge de maneira gradual, marcado por gestos tímidos, trocas de mensagens e momentos de vulnerabilidade compartilhada. Essa abordagem permite que o filme explore a descoberta do desejo em um contexto adolescente sem recorrer a clichês. A alquimia entre Dafne Keen e Sophie Nélisse tem é um dos aspectos mais fortes do longa, oferecendo um contraponto afetivo à brutalidade das mortes que cercam os personagens. 

Pontos fracos se estendem à construção de alguns personagens secundários, que acabam funcionando apenas para morrer. Ainda assim, “O Som da Morte” demonstra um esforço claro em equilibrar  horror e investimento emocional nas protagonistas. Entre sequências de violência sobrenatural e a delicadeza do romance entre Chrys e Ellie, o filme encontra sua identidade justamente nessa tensão entre brutalidade e romance. O resultado é um terror teen piegas, mas capaz de oferecer momentos de intensidade visual e uma representação queer que adiciona uma dimensão sensível ao gênero.