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quarta-feira, 8 de março de 2023

All the Beauty and the Bloodsheed(EUA, 2022)


 
All The Beauty and The Bloodshed é um documentário poderoso e premiado, de Laura Poitras,  que acompanha a vida da fotógrafa Nan Goldin. Em 6 capítulos, somos levados de sua infância até seu ativismo para derrubar a família Sackler, a dinastia farmacêutica amplamente responsável pelo enorme número de mortos na epidemia de opióides. 

Após uma infância difícil e traumática, na década de 1960, ela foi encorajada a tirar fotos para encontrar sua voz. Ela estudou fotografia em Boston e lá conheceu um grupo de criativos com ideias semelhantes. Goldin e seus amigos seguiram para Provincetown, que já era uma meca queer. Lá ela trabalhou em um bar de lésbicas, viveu em uma comunidade e saiu com pessoas como Cookie Mueller, Divine e John Waters.


Ela documentou seus amigos nessa cena muito sexy e subversiva do centro da cidade, e começou a mostrar slides de suas imagens à noite, sempre acompanhadas por diferentes trilhas sonoras. Seu trabalho reforçava o poder da amizade e o poder que os homens tinham sobre as mulheres naquele momento.


A metade dos anos 80 viu com mais interesse a obra de Goldin. Ela documentou a violência de seu namorado contra ela e isso levou à publicação em 1986 do livro The Ballad of Sexual Dependency. Suas apresentações de slides continuaram a ganhar popularidade e ela começou a chamar a atenção de galerias e colecionadores. Naquela época, a AIDS e o vício em heroína estavam causando estragos.


Ela colaborou com o amigo e colega artista David Wojnarowicz em uma mostra de arte com tema de AIDS, 'Witness - Against Our Vanishing', que causou muita controvérsia, ao mesmo tempo em que aumentava a tão necessária conscientização sobre a doença. Isso deu início ao gene ativista em Goldin e ela se envolveu com a ACT UP.


Durante o mesmo período, a família Sackler, com sua empresa familiar, a Purdue Pharma, tornou-se muito rica graças a um remédio viciante, o Valium. A família passou a desenvolver o OxyContin e o Fentanyl, ambos analgésicos à base de químicos altamente toxicômanos. Os caminhos de Goldin e da família Sackler poderiam nunca ter se cruzado se a artista não tivesse recebido OxyContin para alívio da dor após uma cirurgia.

Ela tornou-se imediatamente viciada na droga que tomou conta de sua vida por vários anos. Farta com a facilidade com que um medicamento prescrito poderia arruinar sua vida, ela escapou por pouco da morte por overdose. Goldin decidiu aproveitar sua experiência de ativismo contra a AIDS para enfrentar a Família Sackler.


Desde 2017, Nan Goldin é o fundadora e líder de um grupo de ativistas conhecido como PAIN (Prescription Addiction Intervention Now), que se propôs o ambicioso desafio de atingir Sackler onde mais dói: na imagem da mídia que a família construiu para si mesma ao longo das décadas, graças a obras filantrópicas e grandes doações a museus. Por meio de uma série de protestos eles conseguiram persuadir instituições como Guggenheim, MOMA, The Tate e o The British Museum a parar de aceitar doações da família.


Ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o documentário é tão inspirador mostrando como o ativismo coletivo pode trazer mudanças. A contribuição de Goldin é generosa, tanto por seus depoimentos, mas também com muitas filmagens inéditas, histórias não contadas e imagens dos anos 1970 e 80. Certamente, sua postura positiva em relação à comunidade LGBTQIA + é digna de aplausos.



Isolamento Esplêndido(Splendid Isolation, Países Baixes, 2022)

Isolamento Esplêndido começa com uma série de imagens aéreas da natureza, campos, prados, pântanos, florestas, como se fossem abstraídas do espaço humano. A música que o acompanha, sombria, arrepiante, instrumentalmente difícil de identificar. De forma igualmente fantástica e inexplicável, duas mulheres pareciam chegar à praia. Sua missão secreta é ressuscitar sua própria identidade com os restos de luz e defendê-la da tempestade devastadora que está prestes a atingir sua casa idílica.

A obra da cineasta polonesa Urszula Antoniak é extremamente pessoal, o que se reflete sempre não só nas próprias histórias e nas mulheres retratadas, mas sobretudo no enobrecimento do corpo nu, expondo-o visivelmente como dominante compositivo e tornando o filme numa espécie de autoexorcismo.

Hannah(Anneke Sluiters) está sempre vestida de branco, como um fantasma assombrando esta cabana. Anna(Khadija El Kharraz Alami), por outro lado, com cabelos maravilhosamente cacheados e vestida de preto da cabeça aos pés, parece estar de luto há muito tempo.


O encontro delas é realmente um flerte de longa data, com  closes românticos separados por uma janela embaçada, sua plasticidade momentânea causada pelo vapor quente lançado sobre uma superfície transparente marca uma fronteira que as amantes jamais conseguirão ultrapassar.


O impacto do Covid-19 no filme e em toda a produção é a maior força que molda a narrativa. Segundo a diretora, Isolamento Esplêndido surgiu especialmente por sua ligação com o marido durante o período do vírus. A profunda intimidade entre os dois também criou um abismo insuportável de medo da morte causado pela doença, resultando num isolamento seriamente imperfeito.


A pandemia pode ter deixado marcas na própria artista, mas não parece ter causado nenhum impacto negativo no processo de filmagem. Isolamento Esplêndido é um estudo construído com precisão da psique feminina, do gênero de obras fortemente enraizadas com o trabalho de Ingmar Bergman, algumas tomadas até sugerem diretamente um aceno para o diretor sueco. 


Enquanto Isolamento Esplêndido está em busca de um arco-íris em profundidade, quando olhamos para a paleta de cores da linguagem da câmera, podemos nos deparar com um espectro de tons muito escuros. Além disso, a arquitetura da casa representa o reflexo de um labirinto completamente vazio e longe dos excessos.

Isolamento Esplêndido, que descreve as dificuldades de conexão, união, comunicação e reside na linguagem mais abstrata; é muito mais que um fantasma que vagueia despercebido entre nós.



terça-feira, 8 de março de 2022

MULHERES NA DIREÇÃO

No dia Internacional da Mulher, nada mais natural que uma página sobre cinema preste sua homenagem celebrando o trabalho de diretoras na sétima arte. Embora hoje esse movimento feminino venha ganhando cada vez mais força, em premiações, festivais e no cinema mainstream, desde que existem filmes, existem mulheres que os fazem. Quando os irmãos Lumière estavam chocando o público com sua representação de um trem em movimento, Alice Guy-Blaché foi pioneira em suas próprias técnicas na nova forma de arte. Quando D. W. Griffith foi precursor em avanços na arte construindo seu próprio estúdio para fazer seu trabalho, Lois Weber estava fazendo exatamente o mesmo. Quando Hollywood estava em plena Era de Ouro, Dorothy Arzner, Dorothy Davenport, Tressie Souders e muitas outras mulheres estavam lá, fazendo seus próprios filmes. As preciosidades existem e para cultuar o trabalho de criadoras que deixam sua marca na cultura cinematográfica o CINEMATOGRAFIA QUEER fez uma lista, claro que de acordo com sua temática, e, com um foco maior em obras recentes. Que essa seleção capture a ampla variedade e diversidade do trabalho que as mulheres captam por trás das câmeras e que sirva como lembrete de que as diretoras colocaram sua marca em cada década, gênero e tipo de filme, e seguirão fazendo exatamente isso.


Veronica (Haley Lu Richardson), de 17 anos, engravida de seu namorado, apesar de ser uma usuária cuidadosa de preservativo. Ela não pode fazer um aborto no Missouri sem o consentimento dos pais, e eles ultra-religiosos nunca permitirão, então ela convence sua distante melhor amiga de infância Bailey(Barbie Ferreria), a levá-la ao Novo México para que possa fazer o procedimento. Desgrávida, da diretora Rachel Lee Goldenberg, é um híbrido de gêneros cinematográficos que se reconciliam no meio do caminho, uma vez que a história ganha velocidade e força emocional. O longa é um road movie com um novo personagem excêntrico esperando em cada parada.


Eternos(Eternals, EUA, 2021)


Eternos é o primeiro blockbuster de Chloé Zhao, ganhadora do Oscar, de Melhor Diretora, por Nomadland(2020). Ela é sem dúvida a cineasta mais empolgante a ter acesso ao MCU até hoje. Certos elementos estão profundamente ancorados no DNA do MCU e não permitem que o filme o transforme completamente do avesso, mas Zhao captura algo bonito, tocante e único na tela que não treme de admiração diante da mitologia da Marvel. Em vez disso, ela traz o filme de super-herói de volta às suas raízes e mergulha na essência dos personagens que povoam o épico.



O doce filme de estreia da dramaturga Jessica Swale, Onde Fica o Paraíso combina uma narrativa deliciosa que equilibra facilmente eventos sísmicos de amadurecimento com uma história de amor comovente entre duas mulheres. Estamos no auge da Segunda Guerra Mundial, a escritora caminha confiante por sua pequena cidade. Desagradada por muitos, ela os despreza em igual medida. A jovem Alice (Gemma Arterton) vive sua vida privada e independente, elaborando e pesquisando seu próximo livro, até que uma surpresa aparece em sua porta.



A diretora Cristiane Oliveira criou algo ao mesmo tempo sutil e expansivo em A Primeira Morte de Joana. É verão de 2007, em uma praia no sul do país. Joana (Letícia Kacperski), de 13 anos, sabe que os adultos nem sempre têm as respostas para suas perguntas. Quando sua tia-avó morre e familiares e amigos começam a compartilhar suas memórias, Joana começa a pensar nela de uma nova maneira e se perguntar porque sua parente nunca teve um namorado? Sua investigação, ao lado da amiga Carolina (Isabela Bressane), que sofre bullying na escola por ser lésbica, a levará a caminhos inesperados.


Entramos no filme, de Katie Found, através da reclusão de uma floresta coberta de vegetação, lar de Claudia(Markella Kavenagh), de dezesseis anos, e de sua falecida mãe. Sem experiência além deste espaço idílico, Claudia lamenta a ausência de seu único ente, junto do cachorro. Mais implicitamente, ela avalia a desestabilização incorrida pela morte de sua mãe. O que há para a vida fora deste reino protegido da infância? Voltando para dentro com tristeza, ela inadvertidamente aguarda a possibilidade de uma nova chegada, que assume a forma de Grace (Maiah Stewardson), uma jovem de espírito livre que se arrisca de forma surrealista no mundo de Claudia, só por curiosidade.


O longa de estreia da diretora belga Zoé Wittock, oferece uma linda e não convencional história de amor entre uma jovem e um brinquedo de parque de diversões. A atriz francesa Noémie Merlant, do glorioso Retrato de uma jovem em chamas(2019), interpreta a tímida Jeanne. A jovem trabalha em um parque de diversões de uma pequena cidade na França. Quando o “Move It”, uma grande atração giratória chega ao parque, Jeanne se vê completamente envolvida e o batiza de Jumbo, com quem começa a se comunicar  por meio de movimentos circulares, secreções escuras e as lâmpadas coloridas que o adornam.



Protagonizado por Natasha Lyonne, a sátira à cura gay de Jamie Babbit, é colorida, divertida e bebe do universo de John Waters. Os sinais de que Megan é lésbica parecem claros. Ela come tofu, ouve canções de Melissa Etheridge e tem fronhas decoradas com flores ginecológicas de Georgia O'Keeffe. Outra pista: quando beija o namorado, ela fantasia com as líderes de torcida. Seus pais prontamente a mandam para uma instituição chamada True Directions, onde conhece o amor através da personagem de Clea Duvall e vive momentos hilários junto do ‘reorientador’ interpretado por RuPaul Charles.


Rafiki é um romance, entre duas jovens, ambientado em um lugar onde tais histórias de amor, na vida real e na tela, são proibidas por lei. É o primeiro filme queniano a ser exibido em Cannes e, mais importante, o primeiro filme com uma mensagem positiva sobre a homossexualidade no Quênia, onde o filme foi banido em seu lançamento.  A diretora, Wanuri Kahiu, cria uma ode lírica para encontrar uma alma gêmea em meio a uma maioria indiferente, usando o conto de Monica Arac de Nyeko, Jambula Tree, como sua base.



Desconstruindo o gênero do faroeste, a ganhadora do Oscar, pelo roteiro de O Piano(1993), Jane Campion conta a história dos irmãos Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), que são ricos proprietários da maior fazenda de Montana. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Quando George secretamente se casa com a viúva local Rose (Kirsten Dunst), o invejoso Phil faz tudo para atrapalhá-los, até porque a homossexualidade aparente do recém chegado Pete(Kodi Smit-McPhee), acaba lhe impactando. O longa é recordista de indicações e uma das grandes apostas para o Oscar 2022.



Bom Trabalho, relato brilhante da cineasta Claire Denis, sobre a existência dos legionários franceses na África é um filme lindo, compulsivamente poético e que transcreve com inesperada simpatia a severidade da vida de um soldado. A fotografia de Agnès Godard, compõe alguns momentos realmente bonitos da paisagem africana, com a luz estranha e o terreno implacável contra o qual esses corpos e almas masculinas são testados até a destruição.


Em torno de sua obra, a aclamada Céline Sciamma imprime sua identidade, sempre com um olhar muito feminino e uma poderosa sensibilidade. Seu mais recente longa, Pequena Mamãe, não foge dessas características e marca a volta da diretora ao universo infantil muito bem explorado em Tomboy(2011). Nelly (Joséphine Sanz) tem oito anos e sua avó materna acaba de falecer. Com sua mãe, Marion (Nina Meurisse), e seu pai (Stéphane Varupenne), ela se despede de todos no funeral, para depois  se hospedar na casa da avó, onde Marion cresceu. Na casa, uma espécie de recanto de conto de fadas próximo a uma floresta, a presença do pai é gentil. Há cenas lindas em que Nelly o ajuda a se barbear ou pede que ele lhe conte um segredo. Mas, principalmente, o longa é sobre a conexão de Nelly e Marion




Ganhador da Palma de Ouro, no Festival de Cannes, em 2021, Titane da diretora Julia Ducournau, é um filme atrevidamente ousado e deliciosamente visceral. Após sofrer um acidente na infância, Alexia(Agathe Rousselle) precisou colocar uma placa de titânio e carrega uma grande cicatriz na cabeça. Ela é uma stripper feroz e uma assassina compulsivamente delirante. Crescida, Alexia com a cabeça ainda raspada pela metade, ganha a vida se despindo em feiras de automóveis. A reviravolta do filme acontece quando Vincent (Vincent Lindon), um bombeiro musculoso, pensa encontrar o seu filho há muito tempo desaparecido Adrien. POSTS RELACIONADOS: 10 FILMES LGBTQIA+ DIRIGIDOS POR MULHERES



domingo, 14 de março de 2021

10 FILMES LGBTQIA+ DIRIGIDOS POR MULHERES



Março é o mês de celebrar a mulher e todas as suas conquistas na sociedade. Na sétima arte, o sexo feminino, vêm desde os primórdios buscando seu lugar ao sol e o reconhecimento finalmente vem chegando, com mulheres envolvidas em grandes produções, indicadas à importante prêmios e cada vez mais ganhando espaço para expressar sua arte e contar suas histórias. Encerramos nossa semana especial #8M, com uma lista de 10 obras LGBTQIA+ realizadas por diretoras, como forma singela de exaltar mulheres de todos gêneros e identidades.

10 - Beach Rats(EUA, 2017, de Eliza Hittman)

A diretora Eliza Hittman, que fez sua estreia com Forever's Gonna Start Tonight, também dirigiu alguns episódios de 13 Reasons Why e atualmente colhe os frutos do sucesso de seu mais recente filme, Nunca, Raramente, Às vezes, Sempre. Em Beach Rats, cujo também escreveu o roteiro, ela conta a história de um adolescente sem rumo do Brooklyn que luta para escapar de sua vida doméstica desoladora e navega em questões de auto identidade, enquanto equilibra seu tempo entre seus amigos delinquentes, uma nova namorada e homens mais velhos que ele conhece na internet.


09 - Elisa & Marcela(Elisa y Marcela, Espanha, 2019, de Isabel Coixet)

Com uma filmografia extensa, a diretora catalã Isabel Coixet, já dirigiu obras aclamadas como Minha Vida sem Mim, A Vida Secreta das Palavras e Fatal. Em Elisa & Marcela, sua primeira produção para a Netflix, totalmente fotografada em preto e branco, ela conta a história real de um casamento inesperado entre duas mulheres no início dos anos 1900. Para driblarem as regras locais e poderem se casar, Elisa forja documentos de um parente falecido e se passa por um homem para viabilizar a primeira união homossexual da Europa.


08 - Monster - Desejo Assassino(Monster, EUA, 2003, de Patty Jenkins)

Monster foi o filme de estreia de Patty Jenkins, que mais tarde ficou conhecida por dirigir os filmes da Mulher Maravilha, protagonizados por Gal Gadot. Seu primeiro longa conta a história verídica de Aileen Wuornos(Charlize Theron) que anda de bar em bar e se prostitui até o dia em que conhece a jovem Selby Wall(Christina Ricci), mandada pelos pais para viver com os tios e tentar "curar sua homossexualidade". No entanto, a paixão entre as duas é mais forte que as pressões da família. E juntas decidem tomar conta de seus destinos. Na impossibilidade de achar um emprego sério, Aileen continua a se prostituir para poder sustentar a namorada. Quando um de seus clientes se torna mais violento e coloca sua vida em risco, ela é obrigada a cometer um crime para se defender. E esse será o primeiro de uma série que a levará à destruição. O longa rendeu à Charlize Theron, o Oscar de Melhor Atriz, em 2004.


07 - Para Wong Foo! Obrigada por tudo! Julie Newmar(To Wong Foo! Thanks for everything, Julie Newmar, EUA, de Beeban Kidron)

Após Para Wong Foo, o filme mais relevante de Beeban Kidron foi Bridget Jones: No limite da razão, seu último longa, de 2016, Hippie Hippie Shake é estrelado por Sienna Miller e Cillian Murphy. A obra de 1995, é uma hilariante comédia estrelando Wesley Snipes, Patrick Swayze e John Leguizano como Roxeema Jackson, Vida Boheme e Chi Chi Rodriguez. As queens partem de Nova York para Hollywood para um concurso de beleza, no caminho, elas são forçados a um desvio imprevisto. Perdidas numa pequena cidade as três tiram proveito da situação. Seu brilho e glamour chacoalham os moradores e o palco está montado para um fim de semana de alegria e extravagância.


06 - Corações Desertos(Desert Hearts, EUA, 1985, de Donna Deitch)

O filme, de 1985, é considerado um marco por tratar a homossexualidade com naturalidade, pelo olhar feminino de Donna Deitch. No longa, Vívian é uma professora de inglês reprimida que vai a Reno para um divórcio rápido, em 1959, onde conhece Cay, uma jovem bonita, destemida e bem resolvida que trabalha num cassino. As duas desenvolvem uma amizade que desperta desejos em Vívian que ela não pode negar. Após sua belíssima estreia em Corações Desertos, a diretora condicionou a sua carreira em séries como Grey's Anatomy e Lei e Ordem.


05 - XXY(Argentina, 2007, de Lucía Puenzo)

Ganhador do Goya de Melhor Filme Íbero-Americano, XXY adentra o universo da intersexualidade. Tentando fugir dos médicos que desejam alterar a ambiguidade genital de Alex, seus pais a levam para um vilarejo no Uruguai. Eles estão convencidos de que uma cirurgia deste tipo seria uma violência ao corpo da adolescente e, com isso, vivem isolados numa casa nas dunas. Até que, um dia, a família recebe a visita de um casal de amigos, que leva consigo o filho adolescente. É quando Alex, que está com 15 anos, e o jovem, de 16, sentem-se atraídos um pelo outro. Com a sempre ótima atuação de Ricardo Darín. A diretora Lucía Puenzo realizou ainda O Menino Peixe, roteirizou O Silêncio do Céu, com Leonardo Sbaraglia e Carolina Dieckman, e atualmente dirige a série La Jauria, com Daniela Veja, no Amazon Prime.


04 - Orlando - A Mulher Imortal(Orlando, Reino Unido/Irlanda, 1992, de Sally Potter)

Nessa adaptação do romance de Virginia Wolf, após participar por 400 anos da história da Inglaterra como homem, Orlando, interpretad@ por Tilda Swinton, volta à vida em corpo de mulher. Transcendendo tempo e gênero, Orlando, uma mulher da nobreza ideal continua sua jornada para perceber a verdade sobre a vida, amor, e aproxima-se do próprio sexo. A diretora Sally Potter trabalhou ainda em longas como Porque Choram os Homem, Ginger & Rose e o mais recente, de 2020, Sonhos de uma Vida, com Elle Fanning, Javier Bardem e Salma Hayek.


03 - Paris is Burning(EUA, 1990, de Jennie Livingston)

Premiado e antológico, o documentário explora a cena dos Ballrooms de Nova York, na segunda metade dos anos 1980. Criada pela população LGBTQIA+ de origem afro-latina, essa subcultura é explorada em todos os seus aspectos e reflexões, tendo como foco alguns personagens marcantes de uma cena que ainda vive. O filme apresenta o conceito de famílias, casas de acolhimento, geralmente comandada por uma mãe trans. Esse longa é um ícone do chamado new queer cinema. Com a carreira de cineasta estagnada, Jennie Livingston, só voltou à direção em um episódio da segunda  temporada da ótima série Pose.


02 - Meninos não Choram(Boys don't Cry, EUA, 1999, de Kimberly Peirce)

História de um garoto transexual, Brandon Teena, morador de uma pequena cidade americana. Baseado em fatos reais, o roteiro mostra os violentos preconceitos que sofre quando sua transexualidade é revelada. Um brutal e cruel retrato de transfobia, que rendeu à Hillary Swank, o Oscar de Melhor Atriz. Com Cloé Sevigny e Peter Sarsgaard, no elenco, o filme é um grito de socorro da comunidade LGBTQIA+, que ainda hoje segue passando tipos de situação assim. A diretora Kimberly Peirce, além de seguir uma jornada na militância, realizou ainda obras como o remake de Carrie, a Estranha, e dirigiu episódios de séries como Cara Gente Branca e Kidding.


01 - Retrato de uma jovem em chamas(Portrait de la jeune fille en feu, França, 2019, de Céline Sciamma)


Ganhador do Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes, em 2019, o longa é ambientado na França do século XVIII, Marianne (Noémie Merlant) é uma jovem pintora que recebe a tarefa de pintar um retrato de Héloïse (Adèle Haenel) para seu casamento sem que ela saiba. Passando seus dias observando Héloïse e as noites pintando, Marianne se vê cada vez mais próxima de sua modelo conforme os últimos dias de liberdade dela antes do iminente casamento. Obra prima de Céline Sciamma, que fez sua estreia em Lírios D'água, seguido por Tomboy e Girlhood. Seu novo filme, Petite Mamam, teve estreia no Festival de Berlim, em 2021.


sexta-feira, 12 de março de 2021

Lírios D'água(Naissance des Pieuvres, França, 2007)


Lírios D’água,
estreia da aclamada diretora Céline Sciamma, presente na Mostra “Um Certo Olhar” em Cannes, em 2007, já exaltava a feminilidade e a sexualidade tão presentes na obra da cineasta, dessa vez usando como pano de fundo, o belo nado sincronizado.

O longa narra a descoberta da sexualidade de três adolescentes, Marie(Pauline Acquart), que está apaixonada pela capitã da equipe, Floriane, Adéle Haenel que anos mais tarde protagonizaria Retrato de uma jovem em chamas, e a desajeitada Anne(Louise Blachère), melhor amiga de Marie.

Enquanto Marie faz de tudo para se aproximar de Floriane e frequentar a piscina, sua timidez impede que ela dê um passo adiante, ainda que os olhares de desejo sejam bem evidentes. Vivenciando mudanças e novas experiências, as protagonistas passam por um momento de intensidade e desejos desabrochados.


O excesso de feminilidade que a obra transborda, em lindas cenas na piscina ou no vestiário, é quebrado pela presença de François(Warren Jacquin), objeto de desejo de Anne e desdenhado por Floriane.

Uma amizade acompanhada de uma enorme tensão sexual entre Marie e Floriane marca a trama, que também é rica em detalhes, como o fato por exemplo, dos pais dessas adolescentes nunca aparecerem. E de Floriane ser taxada como promíscua pelo simples fato de ser bonita.

Que bela e delicada estreia fez Céline Sciamma! Cheio de sutilezas e momentos genuínos, o longa nos apresenta uma diretora muito promissora, que com um clima intimista e a beleza do ballet aquático, construiu uma obra que conta a jornada transformadora da adolescência.



quinta-feira, 11 de março de 2021

Fale com as Abelhas(Reino Unido/Irlanda, 2018)



Os anos 1950, inspiraram lindas obras de temática lésbica no cinema, como Carol(2015) e Corações Desertos(1985). Baseado no romance homônimo de Fiona Shaw, o longa da diretora Annabel Jankel, ambienta o romance de duas mulheres, na conservadora década.

Visto pelo ponto de vista do menino, Charlie(Gregor Selkirk), fio condutor da história e filho de Lydia, Holliday Grainger, de Cinderella, o garoto funciona como narrador da história. Um dia é ele é intimidado pela médica local Jean,  Anna Paquin, de interpretações fortes em O Piano, X-Men e na série True Blood, a conversar com suas abelhas nas colmeias.

A metáfora das abelhas, que geram o néctar da vida e também guardam segredos, é muito bonita e traz cenas poéticas ao filme que é intercalado por favos de mel, no desenrolar da história. Se você não quer, que ninguém saiba, conte às abelhas.

Despejada, e abandonada pelo marido abusivo Robert(Emmun Elliot), Lydia acaba acolhida por Jean, e vai morar em sua casa. Não demora muito para que as duas iniciem um romance, gerando o maior falatório na cidadezinha escocesa onde vivem. Enquanto parecem não ligar e protagonizar muitas cenas de amor, até que são flagradas pelo pequeno Charlie.

Com o olhar delicado, a diretora aborda homofobia, machismo, e o mais importante, o amor entre duas mulheres, em uma época tão conservadora e cruel para pessoas LGBTQIA+, que podiam inclusive ser levadas à prisão. Robert faz uma ruptura nos momentos de sensibilidade, trazendo uma bruta masculinidade.

A química das atrizes traz doçura a uma época que se negava a facilitar para homossexuais. A coragem das protagonistas e a mensagem que o filme deixa ao final, após uma série de desventuras, é linda!