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terça-feira, 12 de agosto de 2025

QUEER LION 2025

A 82ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza, de 27 de agosto a 6 de setembro de 2025, sob a direção de Alberto Barbera, promete também destacar narrativas LGBTQIA + com o Queer Lion Award. São 10 filmes na competição principal, com o grade vencedor sendo anunciado em 05 de setembro.

Estrany Riu

Filmes em Competição:

After the Hunt - Luca Guadagnino (EUA, 139'): Uma professora universitária enfrenta dilema ético e pessoal quando um aluno talentoso acusa um colega, desenterrando um segredo sombrio de seu passado. Com Julia Roberts, Ayo Edebiri e Andrew Garfield. (Exibição Especial)


En el Camino - David Pablos (México, 93'): Em um mundo dominado por transportadores mexicanos, dois homens desenvolvem um amor proibido, lutando contra um ambiente hostil e um estilo de vida árduo. Com Victor Prieto Simental e Osvaldo Sanchez Valenzuela.


Estrany riu - Jaume Claret Muxart (Espanha/Alemanha, 103'): Dídac, de 15 anos, pedala o Danúbio com a família e encontra Alexandre, cuja presença misteriosa transforma sua vida e abala os laços familiares, gerando dúvidas.


Dark Rooms - Mads Damsbo, Laurits Flensted Jensen, Anne Sofie Steen Sverdrup (Dinamarca/Alemanha/Taipei, 35'): Uma instalação imersiva explora a sexualidade humana em três espaços, revelando histórias íntimas de desejo, trauma e transformação. Venice Immersive.


Arkoudotrypa - Stergios Dinopoulos, Krysianna B. Papadakis (Grécia): Em uma vila grega, Argyro e Anneta enfrentam dilemas quando esta revela gravidez, levando a uma busca por uma caverna mítica e revelações pessoais.


La gioia - Nicolangelo Gelormini (Itália, 108'): Gioia, professora solitária, forma vínculo proibido com aluno Alessio, cuja busca por redenção ameaça destruir a relação. Com Valeria Golino, Jasmine Trinca e Saul Nanni.


En El Camino

Anoche Conquisté Tebas - Gabriel Azorín (Espanha/Portugal, 106'): António e Jota exploram banhos termais romanos, onde as águas misteriosas os levam a confessar sentimentos profundos e o medo de perder a amizade.


Gorgonà - Evi Kalogiropoulou (Grécia/França, 95'): Em cidade dominada por refinaria, Maria enfrenta poder masculino e sua história familiar com a chegada de Eleni, cantora que muda seu destino.


100 Nights of Hero - Julia Jackman (Reino Unido, 90'): Em um mundo opressivo, Cherry e Hero desenvolvem uma relação proibida, desafiando normas enquanto lutam contra um destino imposto por um regime tirânico. Com Emma Corrin.


Constantinopoliad - Sister Sylvester, Nadah El Shazly (Reino Unido/Grécia, 55'): Uma instalação sonora coletiva baseada no diário de Kavafis, explorando fantasmas eróticos e históricos em um livro artesanal.


Filmes Fora de Competição:

L'etranger


L'étranger - François Ozon (França, 120'): Adaptação de Camus sobre Meursault, um homem em crise moral, envolvido em dilemas pessoais e um evento trágico. Com Benjamin Voisin.


Marc by Sofia - Sofia Coppola (EUA, 97'): Documentário que revela a vida reservada e o trabalho criativo de Marc Jacobs, capturado entre Nova York e Paris.


Daroon-e-Amir (Inside Amir) - Amir Azizi (Irã, 103'): Um jovem em Teerã pondera emigrar, carregando memórias de uma tragédia familiar e a decisão de ficar ou partir.


Agon - Giulio Bertelli (Itália/EUA/França, 100'): Histórias de três atletas femininas nos Jogos Ludoj 2024, explorando os impactos de competição e tecnologia em suas vidas.


Além de shows de Drag, exposiçoes, djs o evento também exibe curtas e filmes restaurados na seção Venice Classics: “Matador”, de Pedro Almodóvar, “Aiqing wansui” de Tsai Ming-liang e” Kagi” de Kon Ichikawa são alguns deles. É com certeza um dos grandes radares da arte e da cinefilia!

After The Hunt

ATUALIZAÇÃO: O vencedor do QUEER LION no Festival de Veneza 2025 foi anunciado: o reconhecimento foi para o filme mexicano "En el camino (On the Road)", dirigido por David Pablos, que também conquistou o principal prêmio da seção Orizzonti. 🏆🎬🌈 POSTS RELACIONADOS: AQUECIMENTO QUEER LION

domingo, 30 de março de 2025

Sex Love Venice (EUA, 2024)

“Sex Love Venice” te pega desprevenido logo de cara (talvez não no melhor sentido). Michael (Daniel Bateman) acorda e já entra em uma sequência de sexo que quer normalizar as tantas outras que virão, o que acaba sempre soando meio déjà-vu. Steve Balderson tenta nos jogar no vazio existencial de um cara recém-solteiro, que irá vagar por Veneza com os amigos em busca de uma reinvenção, Mas a cidade que deveria ser encantadora, aqui parece só um cenário de Instagram. Michael transa, encara o horizonte, transa de novo, e você fica esperando o momento em que o filme vai dizer algo além de "olha, ele tá perdido"

O que poderia ser um estudo interessante sobre solidão e desejo se perde em uma execução que não sabe se quer provocar, emocionar ou apenas exibir corpos bonitos. Michael, como centro da narrativa, é um protagonista que pede empatia, mas não dá muito em troca. Daniel Bateman até tenta carregar o peso do silêncio e dos olhares vagos, mas o roteiro não o ajuda a ir além de um estereótipo de "homem quebrado buscando redenção no amor".

Veneza é quase um personagem coadjuvante que merecia mais atenção. A cidade, com seus canais e aura romântica, poderia ter sido o contraponto perfeito ao vazio de Michael, mas Balderson a reduz a um pano de fundo bonito, sem alma. Há momentos em que a fotografia tenta capturar essa melancolia — um reflexo na água, uma luz dourada —, mas eles são raros e não sustentam a narrativa. O sexo, que abre o filme com tanta ênfase, logo vira um ruído de fundo, repetitivo e desprovido de significado, como se o diretor tivesse medo de deixar o silêncio falar mais alto.

Quando o amor entra em cena, com a chegada de um novo interesse romântico (Alexander Ananasso), o filme tenta mudar de tom. A promessa é que Michael vai despertar, que seu coração vai se expandir, como diz a sinopse. Mas a transição é abrupta, quase ingênua, e o romance não convence. Falta química, falta tempo pra respirar essa relação.

Mas dá pra ver o esforço por trás da obra. Balderson claramente ama seus personagens e tem um olhar estético que, em momentos pontuais, brilha — como na cena da livraria Libreria Acqua Alta, que é um respiro visual. A presença de Mink Stole, uma lenda do cinema alternativo, musa de John Waters, também traz um charme nostálgico, mesmo que subaproveitado. Não é um filme sem intenções; ele quer falar de cura, de desejo, de redescoberta. Só que tropeça na própria ambição.

No fim, “Sex Love Venice” é como um affair de uma noite: começa quente, mas logo deixa você querendo mais — não de sexo, mas de substância. Michael merecia um arco mais bem construído, e Veneza, um papel mais significativo. É um filme para quem gosta de cenas de sexo quente, com um elenco bonito, mas é difícil não sentir que o filme prometeu uma viagem profunda e entregou só uma passadinha rápida.

quarta-feira, 8 de março de 2023

All the Beauty and the Bloodsheed(EUA, 2022)


 
All The Beauty and The Bloodshed é um documentário poderoso e premiado, de Laura Poitras,  que acompanha a vida da fotógrafa Nan Goldin. Em 6 capítulos, somos levados de sua infância até seu ativismo para derrubar a família Sackler, a dinastia farmacêutica amplamente responsável pelo enorme número de mortos na epidemia de opióides. 

Após uma infância difícil e traumática, na década de 1960, ela foi encorajada a tirar fotos para encontrar sua voz. Ela estudou fotografia em Boston e lá conheceu um grupo de criativos com ideias semelhantes. Goldin e seus amigos seguiram para Provincetown, que já era uma meca queer. Lá ela trabalhou em um bar de lésbicas, viveu em uma comunidade e saiu com pessoas como Cookie Mueller, Divine e John Waters.


Ela documentou seus amigos nessa cena muito sexy e subversiva do centro da cidade, e começou a mostrar slides de suas imagens à noite, sempre acompanhadas por diferentes trilhas sonoras. Seu trabalho reforçava o poder da amizade e o poder que os homens tinham sobre as mulheres naquele momento.


A metade dos anos 80 viu com mais interesse a obra de Goldin. Ela documentou a violência de seu namorado contra ela e isso levou à publicação em 1986 do livro The Ballad of Sexual Dependency. Suas apresentações de slides continuaram a ganhar popularidade e ela começou a chamar a atenção de galerias e colecionadores. Naquela época, a AIDS e o vício em heroína estavam causando estragos.


Ela colaborou com o amigo e colega artista David Wojnarowicz em uma mostra de arte com tema de AIDS, 'Witness - Against Our Vanishing', que causou muita controvérsia, ao mesmo tempo em que aumentava a tão necessária conscientização sobre a doença. Isso deu início ao gene ativista em Goldin e ela se envolveu com a ACT UP.


Durante o mesmo período, a família Sackler, com sua empresa familiar, a Purdue Pharma, tornou-se muito rica graças a um remédio viciante, o Valium. A família passou a desenvolver o OxyContin e o Fentanyl, ambos analgésicos à base de químicos altamente toxicômanos. Os caminhos de Goldin e da família Sackler poderiam nunca ter se cruzado se a artista não tivesse recebido OxyContin para alívio da dor após uma cirurgia.

Ela tornou-se imediatamente viciada na droga que tomou conta de sua vida por vários anos. Farta com a facilidade com que um medicamento prescrito poderia arruinar sua vida, ela escapou por pouco da morte por overdose. Goldin decidiu aproveitar sua experiência de ativismo contra a AIDS para enfrentar a Família Sackler.


Desde 2017, Nan Goldin é o fundadora e líder de um grupo de ativistas conhecido como PAIN (Prescription Addiction Intervention Now), que se propôs o ambicioso desafio de atingir Sackler onde mais dói: na imagem da mídia que a família construiu para si mesma ao longo das décadas, graças a obras filantrópicas e grandes doações a museus. Por meio de uma série de protestos eles conseguiram persuadir instituições como Guggenheim, MOMA, The Tate e o The British Museum a parar de aceitar doações da família.


Ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o documentário é tão inspirador mostrando como o ativismo coletivo pode trazer mudanças. A contribuição de Goldin é generosa, tanto por seus depoimentos, mas também com muitas filmagens inéditas, histórias não contadas e imagens dos anos 1970 e 80. Certamente, sua postura positiva em relação à comunidade LGBTQIA + é digna de aplausos.



segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Veneza (Brasil, 2019)



Em seu segundo longa-metragem, codirigido por Hsu Chien Hein, Miguel Falabella conseguiu um fato inusitado: reunir a outrora musa de Almodóvar, Carmen Maura com o notável talento brasileiro de Dira Paes. Veneza, baseado na peça de Jorge Accame, se passa em algum lugar no interior do Brasil, onde a atriz espanhola interpreta Gringa, a debilitada dona de um Bordel, que sonha em ir à cidade italiana encontrar o único homem que já amou, Giácomo (Magno Bandarz).

Tonho(Eduardo Moscovis) e Rita(Dira Paes) controlam o prostíbulo com mãos de ferro. A partir do momento em que o personagem leva uma jukebox para o estabelecimento, percebemos uma luz onírica se aproximando.

Em meio a um surto da Gringa, Tonho e Rita prometem levá-la até Veneza, porém precisarão contar com a ajuda das prostitutas Jerusa (Danielle Winits), que representa uma mulher resistente, em constante negação, e Madalena(Carol Castro).

A propósito de Madalena, ela protagoniza o romance fluído do filme. Júlio (Cario Manhente) sofre com o amor que sente pelo sexo oposto, sempre pedindo para se vestir como mulher na hora da relação. Sonhadora, a personagem vê no garoto, uma oportunidade para sair dali e viver em São Paulo.

Com Veneza, Miguel Falabella encanta o público em uma locomotiva de sonhos. O ambiente circense entra em cena, para trazer uma série de pequenos arcos, além de momentos decisivos para o desfecho, sensível da Gringa.

Veneza consegue emocionar , comover e irradiar luz em tempos sombrios, ainda que toque em temas mais pesados como violência contra mulher, homofobia e misoginia. Falabella encontra uma forma muito particular de trazer otimismo e esperança, com lirismo e muita licença poética para narrar sua história.