terça-feira, 9 de junho de 2026

Boy George & Culture Club (Reino Unido/EUA, 2025)

Alison Ellwood já demonstrou interesse por figuras musicais que ajudaram a moldar a cultura pop, como Cyndi Lauper, e em “Boy George & Culture Club” encontra material fértil para revisitar uma das bandas mais emblemáticas dos anos 1980. O documentário acompanha a ascensão meteórica do grupo formado por Boy George, Jon Moss, Roy Hay e Mikey Craig, combinando entrevistas recentes com vasto material de arquivo para reconstruir uma trajetória marcada por sucesso, excessos e conflitos internos.

O filme não transforma Boy George no único protagonista. Embora o cantor continue sendo o centro da narrativa, Ellwood abre espaço para que Roy Hay, Mikey Craig e Jon Moss contem suas próprias versões da história. O resultado é um retrato mais coletivo do Culture Club, revelando como a mistura de reggae, soul, new wave e pop ajudou a criar uma sonoridade singular que dominou rádios e paradas internacionais.


O relacionamento amoroso entre Boy George e Jon Moss é apresentado como uma força criativa e destrutiva ao mesmo tempo, inspirando canções importantes enquanto gerava tensões nos bastidores. O documentário também relembra como George se tornou uma figura revolucionária para a cultura LGBTQIA+, desafiando expectativas de gênero e sexualidade em uma época muito menos receptiva à diversidade do que a atual. Ellwood sugere que muitas das discussões enfrentadas pelo artista nos anos 1980 continuam assustadoramente contemporâneas.

O filme encontra seus momentos mais emocionantes justamente quando abandona a cronologia convencional e mergulha nas feridas do grupo. A pressão da fama, o foco excessivo da imprensa em Boy George, os ressentimentos dos demais integrantes e os problemas com dependência química aparecem sem grandes rodeios. Não é um documentário investigativo ou particularmente confrontador, mas consegue transmitir a sensação de que o sucesso do Culture Club carregava um preço alto para todos os envolvidos.

A diretora aposta em uma linguagem bastante acessível, repleta de imagens de arquivo, performances televisivas e grafismos inspirados na estética dos anos 1980. Em alguns momentos, essa abordagem funciona como uma cápsula nostálgica irresistível; em outros, parece excessivamente convencional para uma história tão extravagante.

“Boy George & Culture Club” não pinta o retrato definitivo da banda, mas é um documentário envolvente, afetuoso e musicalmente rico. Mais do que celebrar sucessos como “Do You Really Want to Hurt Me” e “Karma Chameleon”, o filme recupera a importância cultural de um grupo que ajudou a redefinir a visibilidade queer no pop global. Ao final, permanece a sensação de que, por trás dos chapéus gigantes e dos refrões inesquecíveis, existia uma história muito mais complexa do que a fama permitia enxergar.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Tip Toe (Reino Unido, 2026)

 "Tip Toe" confirma que Russell T Davies continua sendo um dos cronistas mais inquietos da experiência queer contemporânea. A minissérie de cinco episódios abandona qualquer conforto nostálgico para mergulhar em um retrato feroz da Inglaterra atual, onde preconceitos antigos ganham novas formas através da desinformação digital. Ambientada em Manchester, a trama acompanha o choque entre Leo (Alan Cumming), dono de um bar na célebre Canal Street, e Clive (David Morrissey), um eletricista conservador cuja visão de mundo vai sendo contaminada por discursos de ódio cada vez mais normalizados.

A estrutura narrativa é um dos grandes diferenciais da série. Sem revelar detalhes decisivos da trama, basta dizer que a história se desenvolve em duas frentes temporais: um presente carregado de tensão e uma reconstrução gradual dos acontecimentos que levaram aqueles personagens até um ponto de ruptura. A direção de Peter Hoar encontra equilíbrio entre o suspense suburbano e o drama humano, transformando ruas aparentemente comuns em territórios de ansiedade constante.


O elenco é extraordinário. Alan Cumming entrega uma das melhores atuações de sua carreira como Leo, um homem espirituoso, vulnerável e cansado de perceber que batalhas que julgava vencidas precisam ser travadas novamente. David Morrissey, por sua vez, evita qualquer caricatura ao interpretar Clive, tornando ainda mais perturbador acompanhar sua trajetória.

"Tip Toe" é uma das produções mais relevantes do ano. Davies não quer somente celebrar a comunidade LGBTQIA+, mas discutir sua  fragilidade diante de um cenário social cada vez mais hostil. O bar de Leo funciona como espaço de acolhimento para diferentes identidades, incluindo personagens trans interpretados por Iz Hesketh e Shakeel Kimotho. Ao mesmo tempo, a série relembra a geração que sobreviveu à crise da AIDS, conectando aquelas lutas ao crescimento contemporâneo da homofobia e da transfobia

Embora trate de temas pesadíssimos, "Tip Toe" preserva o humor característico de Davies. Há momentos de afeto, ironia e humanidade que impedem a narrativa de se transformar em um exercício de desespero absoluto. A série também encontra espaço para discutir família, envelhecimento, masculinidade, relacionamentos e pertencimento.

Difícil assistir a "Tip Toe" sem sentir um nó no estômago. É uma obra que provoca, enfurece e entristece, mas que também reafirma a importância da arte como ferramenta de alerta. Davies não traz conforto emocional. Em vez disso, entrega uma série que encara de frente o medo, a intolerância e a fragilidade das conquistas sociais. O resultado é um thriller psicológico e político de enorme impacto, uma experiência angustiante que permanece ecoando muito depois do último episódio.

sábado, 6 de junho de 2026

Departures (Reino Unido, 2025)



“Departures” parte de um encontro aparentemente banal em um portão de embarque para construir algo muito mais doloroso. Dirigido por Neil Ely e Lloyd Eyre-Morgan, que também assinam a produção e atuam no longa, o filme acompanha Benji (Lloyd Eyre-Morgan), um homem de Manchester que se apaixona pelo enigmático Jake (David Tag). O que começa como uma conexão intensa, alimentada por escapadas frequentes para Amsterdã, rapidamente se transforma em uma relação marcada por desequilíbrios emocionais, dependência afetiva e feridas difíceis de cicatrizar.

Embora seja descrito como uma comédia romântica, “Departures” está muito mais interessado nas ruínas deixadas pelo amor do que em seus encantamentos. O roteiro mergulha em temas como obsessão, solidão, vício, autoestima e o desejo quase desesperado de ser amado. A narrativa alterna momentos de humor mordaz e sexo casual com passagens de profunda vulnerabilidade, criando um retrato bastante reconhecível para muitos homens gays que já confundiram paixão com autodestruição.


Benji e Jake habitam um universo de aplicativos, sexo casual, padrões corporais sufocantes e masculinidades contraditórias. O longa aborda questões recorrentes da experiência gay contemporânea sem moralismo. Há um entendimento raro de que o desejo também pode ser uma zona de conflito, onde carências, traumas e expectativas colidem de maneira devastadora.


Visualmente, os diretores apostam em uma linguagem vibrante, quase pop, que contrasta com o sofrimento do protagonista. Sequências animadas, montagem fragmentada e uma estrutura não linear ajudam a traduzir o estado emocional de Benji, que revisita memórias enquanto tenta sobreviver ao presente acompanhado por uma excelente trilha sonora que lembra o melhor do britpop.

Lloyd Eyre-Morgan entrega um protagonista exposto, engraçado e dolorosamente humano, enquanto David Tag constrói um Jake sedutor justamente por sua inacessibilidade. A química entre os dois torna compreensível por que Benji insiste em permanecer preso a uma relação claramente tóxica. O filme evita dividir seus personagens entre heróis e vilões, preferindo explorar as zonas cinzentas onde amor, manipulação, desejo e insegurança coexistem.


“Departures” encontra sua própria voz ao abordar o fim de um relacionamento com honestidade brutal e humor cortante. Inspirado por experiências reais de seus criadores, o longa transforma dor íntima em narrativa universal. É um filme sobre corações partidos, mas também sobre sobrevivência emocional, sobre aprender a abandonar fantasmas e aceitar que algumas partidas são necessárias para que uma nova vida possa finalmente começar.



quinta-feira, 4 de junho de 2026

Skiff (Bélgica, 2025)

“Skiff”, da diretora belga Cecilia Verheyden, é um delicado drama de formação que segue Malou (Femke Vanhove), uma adolescente de 15 anos que vive em uma pequena cidade flamenga, divide os dias entre a escola e o remo competitivo, enquanto tenta compreender seus sentimentos. Quando conhece Nouria (Lina Miftah), namorada de seu irmão Max (Wout Vleugels), algo muda de forma irreversível.

O roteiro, escrito em parceria com Vincent Vanneste, prefere os silêncios, os olhares e os pequenos gestos. Malou é uma personagem constantemente deslocada: sofre bullying no clube de remo, evita os vestiários e encontra refúgio apenas na água, onde pode remar sozinha e escapar das pressões do mundo exterior. Essa sensação de inadequação atravessa todo o filme e faz com que cada descoberta emocional carregue um peso genuíno.

A fotografia, de Jordan Vanschel, aposta em luz natural e tons quentes que contrastam com o turbilhão interno da protagonista. O verão flamengo ganha contornos transformando rios, margens e paisagens suburbanas em extensões do estado emocional de Malou. Há uma elegância discreta na encenação, reforçada pela montagem de Thomas Pooters, que mantém o ritmo íntimo sem jamais perder o envolvimento do espectador.


O filme não apresenta a Bélgica contemporânea como um paraíso da aceitação, mas reconhece que crescer queer continua sendo uma experiência atravessada por inseguranças, medos e constrangimentos. A paixão de Malou por Nouria surge de maneira natural, sem transformar sua orientação sexual em um problema. O conflito está menos no desejo em si e mais na dificuldade de expressá-lo em uma comunidade pequena, onde o julgamento alheio permanece uma presença constante.

Grande parte do impacto emocional do longa vem da atuação extraordinária de Femke Vanhove. A jovem atriz constrói uma protagonista complexa, capaz de alternar entre a fragilidade e obstinação em uma mesma cena. Sua química com Lina Miftah é sutil, baseada em aproximações graduais e emoções contidas. 

“Skiff” não reinventa o gênero coming-of-age, mas encontra beleza na honestidade com que retrata a adolescência. Cecilia Verheyden compreende que crescer é aceitar contradições, perder ilusões e descobrir partes de si que nem sempre agradam aos outros. O resultado é um filme delicado e sensível que transforma uma história de primeiro amor em uma reflexão universal sobre a coragem de existir exatamente como se é.

Criadas (Brasil, 2025)

 “Criadas”, primeiro longa-metragem de ficção de Carol Rodrigues, é uma obra assombrada por fantasmas que nunca deixaram de existir. O filme acompanha o reencontro de Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), primas que cresceram sob o mesmo teto, mas jamais em condições de igualdade. Quando Sandra retorna à antiga casa da família em busca de uma fotografia de sua mãe, que trabalhou ali como empregada doméstica residente, o passado ressurge com uma força quase sobrenatural. O reencontro das duas desencadeia um acerto de contas íntimo entre memória, afeto e violência estrutural.

Carol Rodrigues demonstra enorme controle ao combinar drama psicológico, realismo fantástico e horror subjetivo. A casa onde grande parte da narrativa se desenrola não funciona apenas como cenário, mas como um organismo vivo que acumula silêncios, ressentimentos e segredos. As paredes parecem guardar marcas invisíveis de uma estrutura social profundamente brasileira, onde relações familiares e relações de trabalho frequentemente se confundem. 

O maior mérito de “Criadas” está na forma como aborda racismo e desigualdade sem recorrer ao didatismo. Sandra e Mariana compartilham uma ancestralidade comum, mas suas trajetórias foram moldadas por experiências radicalmente distintas dentro da mesma casa.

A representatividade queer surge integrada ao tecido emocional da narrativa. Mariana é uma mulher lésbica e o filme incorpora sua sexualidade.  Além disso, a trama sugere desejos, afetos e vínculos que escapam das definições convencionais, ampliando a complexidade dos relacionamentos apresentados. Como uma cineasta negra e queer, Carol Rodrigues observa essas identidades de maneira interseccional, entendendo que raça, gênero, sexualidade e classe operam simultaneamente na construção das experiências de suas personagens.


As atuações de Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti sustentam toda a densidade dramática da obra. Não por acaso, ambas receberam o prêmio de Melhor Atriz na mostra Novos Rumos do Festival do Rio. Existe uma química delicada entre as duas intérpretes, construída tanto através dos diálogos quanto dos silêncios.

Apoiado pela fotografia de Julia Zakia e por uma encenação que flerta constantemente com o sobrenatural, “Criadas” transforma traumas históricos em imagens concretas. Fantasmas da infância, da ancestralidade e da própria formação social brasileira atravessam a narrativa sem jamais parecerem meros recursos alegóricos. Carol Rodrigues entrega um filme ambicioso, sensível e politicamente relevante, capaz de discutir memória, pertencimento e herança racial.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Perdição de Lázaro (Brasil, 2026)

"A Perdição de Lázaro", novo curta de Diego Paulino, mergulha em uma experiência sensorial, política e contemporânea. Lázaro (Lucas Wickhaus) é um profissional de TI frustrado com os resultados da musculação e obcecado por alcançar um ideal físico inalcançável. Quando a tecnologia de reconhecimento facial de sua academia começa a falhar, ele passa a acordar diariamente com rostos diferentes,e pertencentes justamente aos homens que possuem os corpos que ele mais deseja. O que inicia como fantasia rapidamente se transforma em um pesadelo identitário sobre desejo, pertencimento e autodestruição.

Diego Paulino constrói uma obra que dialoga diretamente com o afrofuturismo, o horror corporal e a ficção científica queer. Cada enquadramento parece projetar um futuro possível onde algoritmos, bancos de dados biométricos e tecnologias de vigilância deixam de ser ferramentas e passam a moldar subjetividades. A academia BioNeural, com seu inquietante slogan "Ative o Modo Monstro", surge como uma espécie de templo contemporâneo da performance corporal, onde músculos substituem personalidade e a validação social se torna uma nova religião.

O curta encontra sua maior potência  ao explorar a tensão homoerótica que permeia os espaços de musculação. Paulino entende que academias são ambientes carregados de desejo, competição, comparação e fantasia. O treino deixa de ser apenas exercício físico para assumir contornos quase sexuais. Corpos negros musculosos ocupam a tela como objetos de admiração, cobiça e projeção. Ao mesmo tempo, o diretor questiona o preço dessa obsessão, expondo a fragilidade emocional escondida sob a superfície dos corpos considerados perfeitos.

Visualmente, "A Perdição de Lázaro" é hipnotizante. A fotografia, o desenho sonoro e a iluminação se fundem numa experiência quase lisérgica, transformando a jornada do protagonista em uma viagem que parece oscilar entre o sonho, o delírio e a ficção científica cósmica. A inserção de desenhos animados, imagens de arquivo e referências ao fisiculturismo clássico amplia ainda mais essa sensação de deslocamento temporal, como se Lázaro estivesse preso em um arquivo infinito de imagens produzidas para vender ideais de masculinidade.

A dimensão política da obra também merece destaque. Em um momento em que esteroides e substâncias para ganho de massa muscular se tornam cada vez mais acessíveis, enquanto casos de complicações e mortes ganham espaço nas manchetes, o filme assume uma relevância imediata. Paulino não faz uma crítica moralista, mas revela como a indústria do corpo perfeito se alimenta da insegurança, transformando vulnerabilidades em mercado. 

Além de uma ficção científica queer, "A Perdição de Lázaro" é uma reflexão sobre os limites da transformação pessoal. Seu protagonista busca esculpir o corpo perfeito, mas acaba perdendo a própria identidade no processo. Diego Paulino realiza um trabalho inventivo criando uma obra delirante, iconográfica e humana.


As Lunáticas (Brasil, 2026)

“As Lunáticas”, primeira série de ficção de Henrique Arruda, explode em humor afeto, humor e memória queer. Construída em formato de falso documentário, a produção acompanha o retorno de uma banda fictícia dos anos 1980 que, quatro décadas após seu único sucesso, tenta reencontrar espaço em um mundo dominado por algoritmos, influenciadores e dancinhas virais. O resultado é uma comédia delirante que parece nascer de uma batida improvável entre a nave da Xuxa e o Bar da Buchada, universo onde o kitsch, o camp e a cultura popular nordestina coexistem em perfeita harmonia.

A premissa é e irresistível. Sharlene Summer (Sharlene Esse), Raquel Simpson (Raquel Simpson), Suelanny Sybernética (Suelanny Tigresa) e Pérola Patrícia(Pérola Saymon) são convocadas pelo empresário Gilberto Carreiras (Gilberto Brito) para uma tentativa desesperada de retorno. Perdidas entre streamings, patrocinadores e criadores de conteúdo, as artistas precisam aprender a sobreviver em um mercado completamente diferente daquele que conheceram. Com episódios curtos, de cerca de quinze minutos, a série encontra ritmo justamente na sucessão de situações absurdas, constrangimentos e conflitos internos entre divas que mal conseguem se suportar.


Henrique Arruda transforma o choque entre passado e presente em sua principal fonte de humor. A série passeia com desenvoltura pelo desgaste das fitas VHS, pelos programas de auditório dos anos 1980, pela estética synthpop e pelas referências às Frenéticas, ao mesmo tempo em que mergulha no universo dos youtubers e criadores de conteúdo. Personagens como Safira (Matheus Ferreyra) e Ruby (Ruby Nox ganhadora de Drag Race Brasil), no fictício “Viralizou Viado”, ajudam a construir uma ponte divertida entre gerações, revelando como a cultura queer se reinventa sem abandonar completamente suas raízes.


Mas por trás das gargalhadas, da sátira e dos fantoches com nome de tarja preta existe algo mais profundo. “As Lunáticas” é também uma obra sobre pertencimento, envelhecimento e permanência. Suas protagonistas são artistas trans e travestis inspiradas em trajetórias reais da cena noturna recifense, mulheres que ajudaram a construir espaços de resistência muito antes de qualquer reconhecimento institucional. Quando Pérola Patrícia dispara a frase “o juiz me considerou louca”, a série deixa escapar uma camada de dor histórica que nunca está distante do humor.

O hit atemporal “Amor do Futuro” gruda na cabeça, enquanto o peso de Gilberto Brito, em seu último papel, confere ao projeto uma dimensão ainda mais emocionante. Sua presença acaba funcionando como uma espécie de despedida afetiva para uma figura fundamental da cultura pernambucana. O mesmo vale para Pérola Saymon, que nos deixou muito recentemente, e na série entrega alguns dos momentos mais engraçados, ela é a rainha dos memes.


Ao final dos cinco episódios, “As Lunáticas” deixa a sensação de ter assistido não apenas a uma comédia, mas a uma celebração da memória queer nordestina. Henrique Arruda em seu universo particular compreende que o humor pode ser uma poderosa ferramenta de preservação e afeto. Entre hits espaciais, figurinos extravagantes, referências televisivas e situações completamente absurdas, a série constrói um retrato amoroso de artistas que se recusam a desaparecer. A série será exibida na íntegra em uma sessão Especial no famoso Cinema São Luiz, em Recife, no dia 20 de junho com participação da equipe e elenco.



terça-feira, 2 de junho de 2026

Erupcja (EUA, 2025)

“Erupcja”, de Pete Ohs, filmado na Polônia e estrelado por Charli XCX e Lena Góra, segue a Bethany, uma turista inglesa presa em Varsóvia após uma erupção vulcânica interromper sua viagem romântica com o namorado Rob. O imprevisto a leva de volta ao encontro de Nel (Will Maden), uma antiga paixão, reacendendo sentimentos que pareciam adormecidos. A partir dessa premissa quase absurda, Pete Ohs constrói uma delicada história sobre reencontros, desejo e a incapacidade de seguir roteiros afetivos pré-estabelecidos.

O que poderia ser apenas mais um romance sáfico independente ganha personalidade graças à maneira como Ohs transforma Varsóvia em um organismo vivo. Ruas, bares, apartamentos e vielas tornam-se extensões emocionais dos personagens. Há algo de cinema de passeio, de deriva romântica, que remete tanto à Nouvelle Vague quanto ao mumblecore norte-americano. A câmera acompanha os encontros e desencontros com espontaneidade, como se estivéssemos observando fragmentos de vidas reais capturados por acaso.


O relacionamento entre Bethany e Nel não é tratado como uma questão a ser explicada, mas como um sentimento que simplesmente existe. Aqui, o conflito está na dúvida, na nostalgia e nas escolhas que fazemos quando percebemos que talvez estejamos vivendo a vida errada.

Há também uma dimensão poética que atravessa a narrativa. A ideia recorrente de que vulcões entram em erupção sempre que Bethany e Nel se reencontram funciona simultaneamente como piada, superstição e metáfora. Ohs brinca com a noção de destino sem nunca abraçá-la completamente. Seus personagens parecem acreditar em sinais cósmicos.

As atuações ajudam a sustentar esse delicado equilíbrio entre humor e melancolia. Charli XCX, que vem buscado terreno na carreira de atriz, leva para a tela parte da persona inquieta e impulsiva que a tornou uma figura central da cultura pop contemporânea, enquanto Lena Góra oferece à Nel uma serenidade aparente que esconde frustrações profundas. 

“Erupcja”  transforma um romance queer em uma reflexão universal sobre possibilidades perdidas, amores que permanecem suspensos no tempo e a estranha sensação de que algumas pessoas entram em nossas vidas para provocar pequenas erupções permanentes. Leve, melancólico e encantadoramente imperfeito.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

I’m Gonna Kill You (EUA, 2026)

“I’m Gonna Kill You”, estreia na direção de Andrew Chappelle, que atuou em "Hamilton", entende perfeitamente como o erotismo e o horror compartilham o mesmo território: desejo, posse e destruição. Ambientado em um futuro distante onde os poucos sobreviventes da humanidade vivem separados em colônias, o filme imagina uma comunidade exclusivamente gay, transformando uma fantasia utópica em um pesadelo de obsessão e paranoia.

No centro da narrativa estão Cal (James Cusati-Moyer) e Spector (Michael Graceffa), um casal cuja dinâmica tóxica começa a contaminar toda a estrutura da colônia. Enquanto Cal mergulha em festas, sexo e impulsos hedonistas, Spector exige exclusividade e controle. O que começa como um thriller erótico logo se converte em uma reflexão sobre ciúme, dependência emocional e o desejo transformado em arma.

Chappelle filma os corpos como objetos de fascínio e ameaça. Há uma sensualidade constante atravessando cada quadro, mas ela nunca surge como conforto. O curta cria uma atmosfera onde a atração é inseparável do perigo, evocando ecos do cinema queer pós-pandemia, especialmente ao transformar uma comunidade isolada em laboratório para tensões afetivas e psicológicas. O próprio diretor revelou que a ideia nasceu durante os períodos de confinamento da Covid-19, refletindo sobre redes sociais reduzidas e convivências intensificadas.

A presença de Johnny Sibilly e Angus O’Brien, conhecido por “Boots”, reforça a sensação de que o filme busca dialogar diretamente com uma nova geração de performers queer que transitam entre o cinema, a televisão e a cultura digital. O elenco inteiro parece consciente da proposta de habitar um universo onde masculinidade, desejo e sobrevivência estão permanentemente em conflito.

Visualmente elegante e deliberadamente artificial, “I’m Gonna Kill You” aposta em uma ficção científica minimalista para discutir temas profundamente contemporâneos. A ideia de uma “colônia gay” poderia facilmente cair na sátira simplista, mas o curta prefere explorar o quanto relações afetivas podem reproduzir mecanismos de controle, exclusão e violência mesmo dentro de espaços supostamente seguros.

Com apenas cerca de 14 minutos, “I’m Gonna Kill You” deixa a impressão de estar assistindo ao piloto de algo maior. É sexy, inquietante e perversamente divertido, um thriller queer que compreende que o verdadeiro horror não está no fim do mundo, mas na incapacidade de amar sem transformar o outro em propriedade.

Something Still (EUA, 2026)

“Something Still”, curta-metragem dirigido por Ariel Mahler e escrito por John Brodsky, transforma o fim de um relacionamento em um doloroso exercício de arqueologia emocional. Com Zane Phillips, o filme acompanha um homem que retorna ao apartamento que dividia com o ex-namorado e se vê cercado por lembranças que insistem em permanecer vivas. O espaço físico torna-se um território de fantasmas afetivos, onde cada objeto parece carregar as marcas de uma história interrompida.

A premissa poderia facilmente descambar para o melodrama, mas Mahler opta pela contenção. O que interessa não é apenas o sofrimento da separação, mas as pequenas fissuras que levaram ao rompimento. Aos poucos, a narrativa revela como um encontro sexual inicialmente casual entre o casal e um terceiro homem desencadeou sentimentos inesperados, expondo diferenças irreconciliáveis sobre monogamia, poliamor e os limites da intimidade.

O roteiro de John Brodsky apresenta personagens vulneráveis, tentando navegar desejos que nem sempre conseguem nomear. A discussão sobre relacionamentos abertos surge de forma madura e dolorosamente humana, mostrando que os conflitos não nascem necessariamente da falta de amor, mas das expectativas incompatíveis que cada pessoa deposita em uma relação.

Mais do que uma história sobre separação, “Something Still” fala sobre as marcas que os relacionamentos deixam em nós. O filme entende que o amor raramente desaparece de uma vez. Ele permanece nos cantos da memória, nos hábitos compartilhados e nos lugares que continuam existindo mesmo depois que a relação termina. Essa dimensão emocional faz do curta uma experiência particularmente identificável para espectadores queer, que encontrarão ali uma representação honesta de afetos contemporâneos.

Delicado, melancólico e emocionalmente preciso, “Something Still” encontra força na intimidade. Sem grandes gestos ou discursos, Ariel Mahler e John Brodsky constroem um retrato sincero sobre amor, desejo e perda, lembrando que algumas histórias acabam, mas certas emoções continuam ecoando muito depois do último adeus.


León (Argentina, 2023)

 “León”, de Papu Curotto e Andi Nachón, parte de uma premissa emocionalmente devastadora: Julia (Carla Crespo) precisa reconstruir a própria vida após a morte repentina de sua companheira Barbi (Antonella Saldicco). Em meio ao luto, ela tenta manter funcionando o restaurante que as duas administravam juntas e, principalmente, preservar o vínculo com León (Lorenzo Crespo), o filho que criaram como família. Mas a ausência da mãe biológica transforma tudo em disputa, reabrindo feridas familiares e expondo a fragilidade jurídica e afetiva de muitas famílias queer.

Em vez de transformar o drama em grandes explosões melodramáticas, Curotto e Nachón preferem os silêncios, os olhares cansados, os pequenos gestos de carinho interrompidos pelo peso da perda. Há algo profundamente humano na maneira como “León” retrata o luto: ele não surge como catarse cinematográfica, mas como uma sensação contínua de deslocamento, como se Julia estivesse tentando reaprender a existir dentro de uma rotina que perdeu seu centro emocional.

A dimensão queer do filme nunca é tratada como “tema especial”, e justamente por isso se torna tão poderosa. “León” fala sobre maternidade lésbica, pertencimento e reconhecimento familiar sem didatismo. O conflito não nasce da sexualidade das personagens, mas da estrutura social que ainda insiste em considerar certos vínculos como provisórios ou menos legítimos. O filme entende que a dor queer muitas vezes está nos detalhes burocráticos, nos silêncios institucionais, na ameaça constante de ter sua família invalidada.

O roteiro de Andi Nachón evita armadilhas ao construir personagens imperfeitos e contraditórios. Julia não é transformada em mártir, assim como os demais personagens não existem apenas para cumprir funções dramáticas. Até mesmo o pai ausente de León ganha contornos ambíguos, o que impede que a narrativa caia numa divisão simplista entre vilões e vítimas. Existe um cuidado em mostrar que o afeto pode coexistir com egoísmo, medo e ressentimento, especialmente quando todos estão tentando sobreviver ao mesmo vazio.

“León” aposta numa encenação discreta, quase intimista. A fotografia de Eric Elizondo privilegia espaços domésticos, cozinhas apertadas, corredores e mesas compartilhadas, transformando o restaurante do casal em símbolo dessa família em reconstrução. Os diretores compreendem que cozinhar, alimentar e dividir refeições são atos profundamente afetivos. O filme inteiro parece girar em torno dessa ideia: amar alguém também é aprender a sustentar sua presença mesmo depois da ausência.

Curotto e Nachón transformam uma história íntima em reflexão universal sobre perda, pertencimento e resistência afetiva. É um filme sobre continuar existindo quando a vida planejada desmorona, mas também sobre a insistência radical de chamar certas pessoas de família, mesmo quando o mundo tenta negar.