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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Homens de Barro (Brasil/Argentina, 2025)

 

“Homens de Barro”, de Angelisa Stein, remete ao clássico de Shakespeare, Romeu e Julieta, só que, nessa versão contemporânea, ambientada no Rio Grande do Sul, os protagonistas são dois homens: Pássaro (Gui Mallmann) e Ângelo (João Pedro Prates), jovens que se conhecem desde a infância e desafiam a culpa e os próprios medos para viver um amor proibido, moldando assim o destino dos personagens.

A primeira parte, mostra os protagonistas quando crianças e a origem da rivalidade, ambos os pais eram donos de olarias, fabricando tijolos, o que explica o título e provoca desavenças com destinos trágicos. A trama aborda questões de desejo, culpa, rivalidade familiar e a busca por identidade em um contexto de preconceito e tradição.

Na segunda parte, o filme explora as tensões da velha rivalidade e a força de um amor que luta contra todas as adversidades. Pássaro e Ângelo mergulham em uma relação homoafetiva que desafia o preconceito, a hostilidade e os próprios ressentimentos herdados da inimizade entre os pais.


A fotografia do premiado Bruno Polidoro, de filmes como “5 Casas(2020)” e “A Nuvem Rosa(2021)”,  e a direção de arte de Pauliana Becker, apoiadas por uma trilha sonora que intensifica a atmosfera dramática, são pontos altos do filme, traçando um retrato visualmente expressivo do interior gaúcho, com seus rios e vegetação.

“O ambiente das olarias e as paisagens ajudaram a criar uma atmosfera atemporal, onde os conflitos familiares e os dilemas internos dos personagens encontram uma forte ressonância visual e emocional. Ao mesmo tempo, a inserção de elementos brasileiros e argentinos, tanto na trama quanto na produção, reforça a complexidade da narrativa e a riqueza desse diálogo cultural”— explica Angelisa Stein.


Outro ponto favorável de “Homens de Barro”  é que ele caminha para a descentralização no cinema nacional e carrega uma forte sotaque gaúcho. O filme foi rodado nos bairros de Belém Novo, Restinga e Lami, zona rural de Porto Alegre, embora seja ambientado em uma pequena cidade, com todos os estigmas que esses povoados alimentam.

"Homens de Barro" é uma tentativa nobre de trazer para o cinema brasileiro uma história de amor que dialoga com uma tragédia clássica, mas com um olhar contemporâneo sobre identidades e preconceitos. Embora o filme tenha seus momentos de brilho, especialmente na direção visual, a narrativa carece de um pouco mais de desenvolvimento.


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

A Primeira Morte de Joana(Brasil, 2021)

É verão de 2007, em uma praia no sul do país. Joana (Letícia Kacperski), de 13 anos, sabe que os adultos nem sempre têm as respostas para suas perguntas. Quando sua tia-avó morre e familiares e amigos começam a compartilhar suas memórias dela, Joana começa a pensar nela de uma nova maneira, Um detalhe dessa vida a confunde: por que sua tia-avó nunca se casou ou namorou? Sua decisão de investigar a levará a lugares inesperados.

A diretora Cristiane Oliveira criou algo ao mesmo tempo sutil e expansivo. Joana não é detetive a tempo inteiro - ainda tem de ir à escola, fazer as suas tarefas e lidar com todas as complicações do crescimento. Sua melhor amiga, Carolina (Isabela Bressane), que sofre bullying na escola por ser lésbica,  brinca com ela sobre sua busca, dizendo que ela não tem coragem de ser uma investigadora quando ela nem mesmo vai andar de bicicleta até os moinhos de vento no horizonte. 


Há muito sobre o que é socialmente permitido no mundo masculino e feminino. Com a consciência das interações sociais se desenvolvendo rapidamente em resposta às mudanças em sua vida familiar, Joana é gradualmente capaz de entender as restrições em que vive. Sua mãe desaprova que ela passe um tempo com Carolina. Outros fofocam. O que está se desenvolvendo entre as meninas é óbvio para todos, menos para Joana.


Premiada no Festival de Gramado, a cinematografia de Bruno Polidoro, ressalta as paisagens do litoral gaúcho e garante ao filme uma qualidade arejada que aumenta a sensação de possibilidade mesmo no pequeno mundo de Joana. Os moinhos de vento, o mar, as algas e a estrada são lembretes constantes de que há mais além do horizonte, esperando que ela estenda a imaginação.


Joana é interessante porque ela não é precoce, não é uma líder e não é a maior investigadora do mundo, mas uma garota comum que passamos a valorizar conforme ela aprende a se valorizar. Sua narrativa ganha vida quando ela imagina a de sua tia-avó e reconhece que há coisas que nunca é possível saber. De uma maneira ou outra, a vida sempre encontra um caminho.