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terça-feira, 15 de março de 2022

A Festa da Menina Morta(Brasil, 2008)



Como ator Matheus Nachtergaele dispensa apresentações.A Festa da Menina Morta, coescrito com Hilton Lacerda, é a estreia poderosa de Nachtergaele como diretor, que desenha temas religiosos combinados com elementos profundamente subversivos.

A Festa da Menina Morta retrata a vida em uma pequena cidade ribeirinha nas profundezas da floresta amazônica, onde os moradores veneram Santinho (Daniel de Oliveira), um jovem que supostamente herdou poderes divinos e curativos de sua mãe, interpretada por Cassia Kis.

Diz a lenda que ela obteve tais habilidades depois de receber da boca de um cachorro o vestido esfarrapado e manchado de sangue de uma garota desaparecida. O filme culmina nas festividades dos 20 anos do evento, quando a menina morta consegue falar pela boca de Santinho diante de uma grande multidão que admira os trapos. O filme foi inspirado por um evento real semelhante, que Nachtergaele testemunhou durante a produção de O Auto da Compadecida(2000)


O filme tem notáveis ​​e surpreendentes semelhanças com Psicose(1960) de Alfred Hitchcock, aqui temos Santinho tendo um caso incestuoso com seu pai (Jackson Antunes). Santinho é lunático, mal-humorado e obcecado por si mesmo, propenso a explosões violentas, às vezes carregadas de feminilidade. Assim como Norman Bates, Santinho personifica sua mãe morta: através do sexo com o pai,e Bates através do crossdresser.


Mas A Festa da Menina Morta é um filme genuinamente brasileiro em todos os sentidos. Nachtergaele abriu mão de elementos de suspense e misticismo em favor de um visual mais naturalista, pela fotografia de Lula Carvalho.  Além disso, vários animais são mortos, e o grunhido de um porco morrendo pode ser ouvido diversas vezes ao longo do filme, tornando-o desconfortável e doloroso de assistir.


Tais elementos transgressores e subversivos são um pano de fundo adequado para o absurdo do fanatismo religioso. Nenhum ato incestuoso ou matança de animais é menos irracional do que a veneração religiosa de Santinho por seus seguidores. O filme procura ser um retrato íntimo dos envolvidos nesta seita e da infinita capacidade humana de “fabricar” a fé e buscar algum sentido na horripilante experiência da morte.


quarta-feira, 24 de março de 2021

Febre do Rato(Brasil, 2011)


Sexo, anarquia e poesia! Evocando Chico Science e o movimento mangue beat, Claudio Assis, de Amarelo Manga, mostra uma Recife em desarranjo, fotografada em preto e branco, por Walter Carvalho, e que dá voz aos marginalizados, como é de costume em sua obra.

Através da nudez dos personagens, percebemos que Febre do Rato parte do sexo para estabelecer sua narrativa. Com roteiro de Hilton Lacerda, de Tatuagem, o longa propõe um olhar periférico, porém fascinante das grandes metrópoles brasileiras.

Irandhir Santos é o poeta Zizo, que escreve para um jornal manifesto chamado “Febre do Rato” e quando não está discursando, está transando num tonel com sua vizinha mais velha. Tudo muda quando ele conhece Eneida(Nanda Costa), uma jovem cheia de ideais, porém desinteressada no artista.

A fluidez da sexualidade dos personagens transita por toda a obra, Boca Mole, vivido por Juliano Cazarré, expõe sua nudez sem pudor, enquanto participa de surubas e menáges. Já Paizinho, Matheus Nachtergaele, colaborador recorrente do diretor, está casado como uma trans, mas vive um dilema relacionado à essa questão.

As relações “subversivas” que o filme propõe são provocativas e podem até incomodar a um público mais conservador, no entanto são fundamentais para transmitir a mensagem que o diretor quer passar.

Diante de barracos, botecos, a praia ou o rio o filme vai atingindo seu clímax.  O corpo dividido pelas cópias do Xerox, a brutalidade das metrópoles, os instintos humanos, são símbolos que o diretor usa para promover uma reflexão contemporânea, política e periférica, fazendo de seu Recife, o retrato de um país.