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domingo, 2 de março de 2025

Endless Summer Syndrome (Le syndrome de l'été sans fin, República Tcheca/França, 2023)

“Endless Summer Syndrome”, de Kaveh Daneshmand, é um thriller psicológico com uma abordagem que desafia convenções, especialmente ao integrar elementos queer em sua trama densa e perturbadora. A narrativa acompanha Delphine (Sophie Colon), uma advogada que vive uma vida idílica ao lado do marido Antoine (Mathéo Capelli) e dos filhos adotivos, Aslan(Gem Deger) e Adia(Frédérika Milan), até que uma denúncia anônima revela um segredo devastador.

Antoine mantém um relacionamento com Aslan, seu filho adotivo. Esse ponto de virada não apenas desmonta a fachada de perfeição familiar, mas também posiciona a representatividade queer como um catalisador narrativo, explorado com audácia e ambiguidade.


A presença queer no filme, materializada na relação entre Antoine e Aslan, pai e filho adotivo, é tratada como um dispositivo que amplifica as tensões éticas e emocionais da história. Daneshmand opta por evitar romantizações ou vilanizações fáceis, apresentando o affair com uma neutralidade desconcertante que força o espectador a confrontar suas próprias percepções sobre moralidade e consentimento. Nesse sentido, a representatividade não busca afirmar identidades ou celebrar a diversidade, mas sim provocar, questionando os limites do aceitável e expondo as fragilidades de uma estrutura familiar que se pretendia intocável.


A escolha de escalar Gem Deger, de Playdurizm(2020), co-roteirista e intérprete de Aslan, reforça a intenção de dar profundidade a essa perspectiva queer, ainda que o próprio Deger e o diretor tenham sugerido em entrevistas que o filme transcende a categorização. Para eles, a história é um drama humano amplo, e o elemento queer serve como um espelho para reflexões mais universais sobre poder e transgressão. 


Visualmente, o filme sustenta essa dualidade com uma estética que oscila entre o bucólico e o claustrofóbico, refletindo o contraste entre a superfície harmoniosa e o caos interno da família. A trilha sonora minimalista e as atuações contidas – especialmente de Deger e de Caty Baccega como Delphine – intensificam a sensação de desconforto que permeia a narrativa, enquanto a direção de Daneshmand mantém um ritmo deliberado que dá espaço para o peso das revelações.


“Endless Summer Syndrome” não é um filme queer no sentido tradicional, mas um experimento cinematográfico que utiliza a identidade e a sexualidade como ferramenta de ruptura. Sua força reside na recusa de oferecer respostas ou conforto, deixando o público imerso em um terreno moral ambíguo onde a representatividade queer não é um fim, mas um meio poderoso para explorar as fissuras da condição humana.


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Playdurizm(República Tcheca, 2020)


Playdurizm marca a estreia audaciosa do jovem artista Gem Deger, que, aos 22 anos, assume os papéis de roteirista, diretor e protagonista deste longa de terror inovador. Com uma narrativa que dialoga diretamente com o público queer, o filme apresenta uma história estranhamente cativante, desafiando convenções e mergulhando em um universo visual e emocional único.

O enredo segue Demir (interpretado por Deger), um adolescente que desperta misteriosamente dentro de uma série fictícia chamada Instinto Rebelde. Ele se vê ao lado de Andrew (Austin Chunn), seu ator favorito, da namorada deste, Drew (Issy Stewart), e de um adorável leitãozinho chamado Joshua. A trama se desenrola em um mundo esteticamente marcante, quase como uma instalação artística, onde tons de rosa, azul, lilás e neon criam uma atmosfera imersiva. É nesse cenário que acompanhamos uma jornada de luxúria, drogas e um amor obsessivo, enquanto Demir, seduzido por Andrew, adentra um universo de fetiches e fantasias.Fora dessa realidade alternativa, Demir trabalha em uma videolocadora, um detalhe que oferece pistas sutis sobre como ele foi parar nesse mundo estranho, do qual não se recorda como chegou. O filme não hesita em explorar territórios perturbadores, com cenas gráficas de estupro e necrofilia que desafiam o espectador, equilibrando desconforto e fascínio. Playdurizm é uma obra inventiva e louvável para uma estreia, evocando influências de David Cronenberg e Francis Bacon, além de ecoar o espírito excêntrico de Gregg Araki em seus momentos mais bizarros. Um exemplo disso é Andrew enrolando um baseado com uma seda de moranguinhos, um toque que mistura o trivial ao surreal com maestria. Para quem mergulha em Playdurizm, a experiência é como adentrar um sonho febril, onde cores vibrantes e narrativas desconexas se entrelaçam para criar algo hipnótico e, ao mesmo tempo, inquietante. A pessoa que se entrega a essa obra sente-se transportada para o mundo de Demir, oscilando entre a sedução do escapismo e o peso de suas sombras mais escuras. É uma imersão que provoca, desafia e deixa marcas, consolidando Gem Deger como uma voz promissora no cinema contemporâneo.