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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

História de Dos Guerreros (Argentina, 2024)

“História de Dos Guerreros”, dirigido por Pablo César e escrito em parceria com Jerónimo Toubes, emerge como um drama íntimo e transcontinental. Filmado em 16 mm na província de Corrientes, entre Empedrado e o bairro Cambá Cuá, o longa aposta em uma estética cálida e granulada que recria os anos 80 e celebra a herança cultural afrodescendente da região.

Ara (Alejo Isnardi), jovem lutador de MMA que trabalha em plantações de cítricos, sonha em competir profissionalmente no Brasil. Kossi (Idriss Mousa Sare), jogador de futebol do Togo, vê seu destino interrompido por uma lesão no joelho e pelo abandono dos intermediários que o trouxeram à Argentina. Os dois se cruzam em um festival dedicado a San Baltazar, a ritmo de tambores, e a partir daí nasce um vínculo que atravessa fronteiras, carregado de anseios e dores.


O que começa como amizade se transforma em atração amorosa, frágil e intensa. O peso da homofobia obriga Ara a se afastar após serem denunciados por um colega, e a narrativa captura esse dilema com delicadeza e dor. O longa coloca os protagonistas diante da encruzilhada: escolher a invisibilidade como estratégia de sobrevivência ou reivindicar seu desejo mesmo sob risco de rejeição.


Quando os sonhos individuais desmoronam, Ara e Kossi acabam sob o jugo de Momo (Horacio Ruiz), organizador local que os obriga a lutar um contra o outro em um combate de MMA. O que poderia ser apenas espetáculo violento ganha camadas simbólicas: é ali que se colocam em jogo identidade, dignidade e a possibilidade de resistirem juntos contra a exploração.


César construiu sua trajetória como um dos poucos cineastas latino-americanos dedicados a tecer pontes entre a América do Sul e a África, filmando em ambos os continentes. Em “História de Dos Guerreros”, ele avança ainda mais, trazendo um relato queer, interseccional e popular, no qual desejo, identidade e desigualdade se entrelaçam em cena.


Com pouco mais de uma hora, o filme não desperdiça tempo: seu ritmo é firme e direto. A relação entre Ara e Kossi late como um grito de resistência contra a marginalização, provando que o afeto pode ser um gesto de sobrevivência. “História de Dos Guerreros” é sobre corpos que insistem em existir e amar, mesmo quando tudo ao redor os tenta silenciar.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

TOP 10 CINEMA LGBTQIA+ ARGENTINO

Para celebrar a indicação de ‘Argentina, 1985’, de Santiago Mitre, disponível no Prime Video, ao Oscar de Filme Internacional, e ainda a visita diplomática de nosso presidente a terra do tango e até mesmo a vitória do país na Copa, a página resolveu eleger os seus 10 filmes hermanos de temática LGBTQIA+, mais queridos!


10 - Camila Sairá Essa Noite(Camila Saldrá Esa Noche, Argentina, 2021)

 

Escrito e dirigido por Inés María Barrionuevo, co-escrito por Andrés Aloi, em Camila Sairá Esta Noite, quando sua avó fica gravemente doente, Camila(Nina Dziembrowski), é forçada a se mudar para Buenos Aires, deixando para trás uma escola pública liberal de ensino médio para uma instituição privada tradicional. Fazer um filme sobre adolescentes que um público mais amplo possa desfrutar não é uma tarefa fácil, mas o longa está à altura desse desafio. Ele consegue capturar de forma impressionante a juventude de sua história sem sobrecarregar o tom, mantendo uma atmosfera convincente e sincera.



09 - Outra história de amor(Otra historia de Amor, Argentina, 1986)

Outra História de Amor, de Americo Ortiz de Zarate, foi um dos primeiros filmes argentinos a tratar a homossexualidade, e causou polêmica por mostrar o relacionamento de um chefe, casado e pai de família, com outro homem. Jorge Castro(Mario Pasik) está há um mês trabalhando na empresa, quando revela a seu chefe Raul Loreras(Arturo Bonin) que se sente atraído por ele.


08 - Fim de Século(Fin de Siglo, Argentina, 2019)

As ruas de Barcelona por onde Ocho(Juan Barberine) percorre, e seus ruídos silenciosos, marcam o começo do longa de estreia do argentino Lucio Castro, uma bela história de amor, sobre um caminho não percorrido. Quando avista Javi(Ramon Puiol) na praia, Ocho se sente intimamente atraído, mas somente quando o vê da janela de um Airbnb onde está instalado, pois mora em Nova York, é que o chama.


07 - Marilyn(Argentina/Chile, 2018)


Fica claro desde a abertura de Marilyn, de Martin Rodriguez Redondo, que o protagonista, Marcos (Walter Rodríguez), admira roupas e acessórios femininos. Ele ajuda sua mãe Olga (Catalina Saavedra) a escolher vestidos e muitas vezes os usa em segredo. Marcos é um adolescente reticente, muitas vezes levado a realizar tarefas na fazenda da família, que se tornam mais necessárias após a morte repentina de seu pai. Baseado em fatos reais, o filme é um conto sombrio e brutal.


06 - Esteros(Brasil/Argentina, 2016)


O filme de estreia do diretor Papu Curotto,  Esteros, é um conto relativamente clássico em seus traços gerais, contando a história de Matias(Ignacio Rogers) e Jerónimo(Esteban Masturini), dois melhores amigos de longa data que aparentemente se afastaram após a infância. 


05 - Un Año sin Amor(Argentina, 2005)


Longa de estreia de Anahí Berneri, o filme, ganhador do Teddy Award, em 2005, adapta a autobiografia de Pablo Perez. Em 1996, o gay e soropositivo Pablo(Juan Minorín) entediado com sua rotina de sexo em cinemas, e solitário, começa a escrever um diário com suas experiências.


04 - Ausente(de Marco Berger, Argentina, 2011)


No longa, de Marco Berger, ganhador do Teddy Award, no Festival de Berlim, Martin(Javier de Pietro) é um adolescente que está interessado em Sebastian(Carlos Echeverria), seu professor de educação física. Após inventar uma série de desculpas, ele consegue passar uma noite na casa do professor, que é comprometido com uma mulher. Porém, quando Martin demonstra suas verdadeiras intenções, uma forte tensão se instaura entre os dois e Sebastian se vê seduzido pelo aluno. Ele passa, então, a ser confrontado com um dilema moral por sua posição de professor.


03 - XXY(Argentina, 2007)

Ganhador do Goya de Melhor Filme Ibero-americano, XXY adentra o universo intersexo. Tentando fugir dos médicos que desejam alterar a ambiguidade genital de Alex, seus pais a levam para um vilarejo no Uruguai. Eles estão convencidos de que uma cirurgia deste tipo seria uma violência ao corpo da adolescente e, com isso, vivem isolados numa casa nas dunas. Até que, um dia, a família recebe a visita de um casal de amigos, que leva consigo o filho adolescente. É quando Alex, que está com 15 anos, e o jovem, de 16, sentem-se atraídos um pelo outro. Com a sempre ótima atuação de Ricardo Darín. .


02 - O Anjo(El Angel, Argentina/ Espanha, 2018)


 Baseado na biografia de Carlos Robledo Puch, o anjo assassino da Buenos Aires, dos anos 1970, o filme de Luis Ortega, tem produção dos irmãos Almodóvar, e muito flerta com o universo do cineasta espanhol, além de ter toques de Tarantino. Carlitos, interpretado brilhantemente pelo estreante Lorenzo Ferro, é um ladrão de nascimento, que passa assaltando casas e roubando objetos alheios. Atraído pelo perigo ele acaba se envolvendo com Ramón, interpretado por Chino Darín.


01 - Plata Quemada(Argentina/Espanha/Uruguai, 2000)


 Baseado em fatos reais, ocorridos nos anos 1960, narrados no livro de Ricardo Piglia, Plata Quemada do diretor argentino Marcelo Piñeyro, narra o arrebatador romance entre Angel(Eduardo Noriega), e Nene(Leonardo Sbaraglia). Após se conhecerem fazendo pegação em um banheiro público, os delinquentes Nene e Angel se tornam inseparáveis, e ficam conhecidos no crime como Os Gêmeos. Com a quadrilha formada, o próximo passo é realizar um grande assalto e roubar 7 milhões de pesos.


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quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Como Matar a Besta(Matar a la Bestia, Argentina/Brasil, 2021)

Uma viagem à fronteira, a exploração do desejo sexual mais profundo, as feridas abertas de uma família desfeita e o mistério são os componentes que definem o universo narrativo de Como Matar a Besta, estreia da diretora Agustina San Martín.

Emilia (Tamara Rocca), 17, decide viajar para uma cidade perdida na fronteira entre Argentina e Brasil. A morte recente de sua mãe a leva a reconstruir o vínculo com seu irmão, explorar as raízes familiares e buscar um sentimento de pertencimento em meio à sua adolescência efervescente.


O trabalho é bem sucedido na construção da atmosfera: a paisagem da selva, a umidade opressiva, o nevoeiro espesso e o aparecimento de um animal misterioso são elementos centrais de uma incrível composição visual e sonora . 


Nesse sentido, é importante valorizar o grande trabalho fotográfico de Constanza Sandoval. Os contrastes de iluminação em tons claros-escuros e uma paleta de cores harmoniosa que se reflete na seleção dos figurinos e na ambientação visual dos ambientes apresentam um grande precisão estética e grande esforço na composição de cada quadro.

Dentro da comunidade encontramos vários tópicos narrativos: uma forte influência da igreja evangélica com sua liderança pastoral clássica na cidade, jovens buscando uma atuação mais intensa diante de tanta calma diária e relações familiares rompidas por um passado turbulento.



Agustina San Martín constrói suas personagens femininas com uma forte marca de caráter e liberdade. E o faz também na perspectiva das relações afetivo-sexuais que Emília estabelece com um grupo de jovens.

Como Matar a Besta é um filme de fronteiras: não só porque reflete a vida marginal de um povo perdido na passagem de um país para outro, mas também porque narra a fronteira entre adolescência e vida adulta, entre realidade e fantasia, entre a busca por pertencimento e medos.


O devaneio se combina com o terror em meio ao despertar sexual de uma adolescente, que se descobre sem realmente se procurar. Nessa ideia estética de misturar o onírico com o aterrorizante, o cotidiano e o anódino se tornam extraordinários diante do olhar atento de uma câmera que sempre busca a selva hipnótica como adereço, um lugar onde perigos e lendas andam de mãos dadas. .

Agustina San Martín cria aqui uma obra em que o clima de tristeza diante dos tempos mortos na fronteira se funde com a atmosfera opressiva e perigosa da selva que se estende, destruindo todos os artefatos da mão do homem e deixando os habitantes à mercê da malandragem e da religião em uma área onde a lei e o Estado não estão presentes.


O filme cria passagens hipnóticas nas quais a realidade se torna difusa, a névoa turva o entendimento, o fantástico e o aterrorizante se tornam carne. Mas o horror de San Martín não é uma construção de efeitos de imagem e som, mas uma espécie de evitação do que não pode ser compreendido, o medo do desconhecido, um desamparo resultante de viver na fronteira com a selva.