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quinta-feira, 10 de julho de 2025

Cris Miró (Ela) (Cris Miró (Ella), Argentina, 2024)

"Cris Miró (Ella)" é uma série biográfica que explora a vida de Cris Miró, a primeira vedete transgênero argentina a conquistar fama nos anos 90, deixando um legado inabalável na cultura e na comunidade LGBTQI+. Dirigida por Martín Vatenberg em colaboração com Javier Van de Couter, a produção traça a trajetória de Cris desde seus primeiros passos na discoteca Gaslight até seu estrelato nos principais teatros de Buenos Aires, como o Maipo. Mais do que uma narrativa sobre sucesso, a série destaca sua luta para afirmar sua identidade em uma sociedade marcada pelo machismo e seu impacto como pioneira.

A produção, em 8 episódios, reflete o cuidado de honrar a memória de Cris Miró. Martín Vatenberg, que também coescreveu o roteiro com Lucas Bianchini, traz uma perspectiva pessoal ao projeto, inspirado por sua admiração pela vedete desde a infância. O resultado é uma série que evita o sensacionalismo, focando na essência da protagonista e em sua influência cultural.

A escalação do elenco é um dos grandes pontos da série, com Mina Serrano arrasando no papel principal. A atriz espanhola, radicada em Paris e reconhecida na comunidade LGBTQIA+, entrega uma interpretação profunda e emocionante, capturando tanto a força quanto a fragilidade de Cris Miró.

A narrativa vai além da ascensão de Cris ao estrelato, explorando os desafios que enfrentou como mulher transgênero em um contexto social hostil. A série aborda sua relação complexa com a família, especialmente com a mãe, Nilda (Katja Alemann), e o apoio mais empático do pai, Sergio, interpretado por César Bordón, bastante conhecido do público brasileiro, e os obstáculos impostos por uma sociedade que a celebrava no palco, mas a julgava fora dele. Sua visibilidade como vedete abriu portas para a comunidade trans, mas também a expôs a pressões, como a exigência de cirurgias para se adequar a padrões de feminilidade.

A verdade é um pilar da série, sustentada pela performance protagônica e pela inclusão de imagens de arquivo, como entrevistas reais com figuras como Mirtha Legrand e Suzana Gimenez, que expõem os preconceitos dos anos 90.  Embora a série por vezes se concentre demais em recriar momentos públicos de Cris, ela ganha força ao explorar sua intimidade, como sua relação com o namorado Federico (Vico D’Alessandro) e seu mentor Marito (Marcos Montes). Esse equilíbrio entre glamour e gragilidade torna a produção envolvente e significativa.


"Cris Miró (Ella)" é um tributo poderoso a uma figura mítica que desafiou normas e pavimentou caminhos para a visibilidade trans na Argentina. Com uma produção cuidadosa, a obra se destaca para compreender a história recente do país e os avanços na representatividade, olhando para o passado para projetar um futuro glorioso.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Carvão (Brasil/Argentina, 2022)

Carvão, estreia em longa-metragem da cineasta Carolina Markowicz, é uma obra que equilibra com precisão o humor ácido, a sátira social e o terror psicológico, oferecendo um olhar cortante sobre a moralidade flexível de uma família rural no interior de São Paulo. Escrito e dirigido por Markowicz, o filme solidifica sua voz autoral, já celebrada em curtas como O Órfão, vencedor da Queer Palm em Cannes 2018, e explora, de forma sutil mas impactante, aspectos queer que desafiam normas rígidas de um contexto conservador.

A narrativa segue Irene (Maeve Jinkings), uma mulher calejada pela vida, que administra uma carvoaria com o marido Jairo (Rômulo Braga) e o filho pequeno Jean (Jean de Almeida Costa). A rotina modesta da família, marcada pelo cuidado com o avô acamado Firmino (Benedito Alves), é sacudida por uma proposta sinistra de uma enfermeira suspeita (Aline Marta): eliminar o idoso para abrigar Miguel (César Bordón), um traficante argentino fugitivo disposto a pagar bem pelo esconderijo. 


O que se desenrola é uma trama que entrelaça o absurdo ao cotidiano, desnudando as contradições de uma comunidade moldada por hipocrisia religiosa e interesses mesquinhos.


A estética de Carvão, capturada pela fotografia de Pepe Mendes, sufoca: a poeira asfixiante da carvoaria e os tons terrosos do interior paulista criam uma atmosfera entre o bucólico e o opressivo. A edição de Lautaro Colace, com seu ritmo intencionalmente pausado, amplifica o desconforto, como o calor persistente de um forno que nunca se apaga. 



O viés queer do filme, embora não se apresente como uma narrativa convencional de identidade ou romance, brota nas entrelinhas, especialmente na construção de Jairo. Markowicz sugere, com uma provocação sutil, que o marido de Irene carrega desejos reprimidos que colidem com a fachada de masculinidade rústica que ele exibe. Um olhar trocado entre Jairo e Miguel, carregado de uma tensão ambígua, é um exemplo marcante — um instante que não se concretiza em ação, mas que planta sementes de inquietação.


Esse subtexto queer ecoa a filmografia anterior e posterior de Markowicz, como O Órfão e Pedágio. Em Carvão, o tema é mais velado, entrelaçado à crítica ampla da hipocrisia social. A possível homossexualidade reprimida de Jairo funciona como metáfora para os segredos que corroem a família e a comunidade. Tal como o carvão do título, esses desejos são combustíveis ocultos, prontos para incendiar se expostos.


Maeve Jinkings brilha como Irene, uma matriarca que transita entre pragmatismo e desespero com uma intensidade palpável. Jean de Almeida Costa, em sua estreia, encanta com uma mistura de inocência e astúcia, enquanto César Bordón confere a Miguel uma aura enigmática que intensifica a sensação de ameaça. Rômulo Braga, como Jairo, opta por uma atuação contida, deixando o público especular sobre as camadas mais profundas de seu personagem.


Carvão é um triunfo de Carolina Markowicz como uma voz única no cinema brasileiro. Seu olhar queer, ainda que submerso, integra-se a uma crítica mordaz da performance social, da religiosidade oportunista e da sobrevivência em um país doente. Para o espectador, é um convite a enfrentar o desconforto  e a perceber que, sob as cinzas da tradição, arde um fogo que resiste a se apagar.