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sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Parque de Diversões (Brasil, 2024)

Após tratar questões de família de acolhimento e cotidiano queer, em Tudo o que você Podia Ser (2023), o diretor mineiro Ricardo Alves Jr., explora outro tema comum entre homens gays, o cruising ao ar livre.

As ruas de Belo Horizonte são o cenário para esse conto urbano de desejo e luxúria mas que também reflete os imperativos da libido. Figuras anônimas percorrem a cidade em busca de encontros, até que uma delas rompe o portão gradeado do parque e começa a explorar suas vias.


Com roteiro de Germano Melo, o longa é provocativo e quase não possui diálogos, mas quando ditos explodem de um tesão reflexivo. Uma trilha enervante, composta por Dellamud, acompanha essas criaturas da noite, que buscam o prazer proibido nesse playground do amor.


Onde o filme ganha muito destaque é na diversidade de corpos, há muitos deles, em suas mais diversas variações. Cenas de sexo desinibidas, com alguns pênis a mostra, permeiam o filme, banhado em uma luz azul ou vermelha, na fotografia de Ciro Thielmann, que remete ao mítico giallo italiano.

O microcosmo do Cruising é muito bem coberto, já que nele também há subdivisões de fetiche, há sexo grupal, oral, voyeurismo, mijo, axilas, beijo grego, BDSM, e tudo isso transforma,  apesar do extenso elenco,  com Brunno, Bramma Bremmer, Igui Leal e Will Soares novamente trabalhando com o diretor, que o sexo seja o verdadeiro protagonista.

Mas em meio a tantas sequências desenfreadas de nudez, desejo e inclusive penetração, há também interlúdios mais lúdicos, com dança,  música e até uma coreografia de Blondie. Parque de Diversões é sobretudo corajoso, e não um filme masturbatório,  que rompe livremente e sem tabu as vivências do mundo LGBTQIA+, em um Brasil ainda muito conservador.



quarta-feira, 19 de junho de 2024

Tudo o que Você Podia Ser (Brasil, 2023)

A amizade pulsa no coração de Tudo o que você podia ser, de Ricardo Alves Jr., que faz referência à canção de Milton Nascimento em seu título. O roteiro, de Germano Melo, com uma boa dose de improviso, é íntimo e cru, e traz um novo olhar sobre as narrativas LGBTQIA+ para a tela. “As origens são misturar realidade e ficção, com um elenco vivendo um pouco sua vida mas também uma fábula sobre ela, essa é a origem do projeto”, de acordo com o diretor. 

O roteiro foi elaborado a partir de histórias e vivências do próprio elenco, que estrutura as cenas enquanto o motor da construção do filme. “Tem um procedimento muito teatral, da sala de ensaio, de improvisação, diálogos que a gente mesmo cria, enquanto atrizes, dramaturgas, roteirista…”, completa Bramma Bremmer.


O longa acompanha o último dia de Aisha em Belo Horizonte, uma despedida que se desenrola na companhia de suas melhores amigas: Bramma, Igui e Will. Através das interações cotidianas entre as personagens, o filme oferece um retrato afetuoso da família acolhida, onde cada personagem corresponde a um espaço de vivências muito próprias.

Pinta, colocação, maquiagem, e uma linguagem muito específica, o pajubá, servem como pano de fundo para tratar temas como comunidade, HIV, afeto e sexualidade.  Alguns diálogos foram improvisados no set, partindo de indicações da direção e do roteirista Germano Melo. “Como ela vai chegar nessa questão está na base do improviso dela. O roteiro não está no modelo tradicional, mas constrói uma estrutura dramática onde cada personagem tem suas questões, tem seu drama, tem seu ponto de virada”, refere o diretor.



Como um filme de processo, Tudo o que Você Podia Ser, combina perfeitamente bem, e trata de temas autobiográficos com naturalidade, política e história. “Narrativas de pessoas HIV positivas sempre foram muito conectadas com a morte e com a tristeza, mas hoje qualquer pessoa que faz o tratamento vai se tornar indetectável. É importante falar isso e trazer uma história de vida”, revela Bramma.

Outro aspecto, é que o longa retrata Belo Horizonte, como poucas vezes vimos no cinema, como uma personagem. Em tom quase documental, a fotografia, de Ciro Thielmann, traz cenas gravadas em diferentes bairros e regiões da cidade, como Aglomerado da Serra, Bonfim, Centro, Lagoinha e Santa Tereza, construindo diferentes imagens desse espaço urbano.


A cumplicidade desses personagens em seus momentos compartilhados reafirmam o conceito de que a família é aquela que escolhemos, a que acolhe. É o registro de um tempo. E esses são questionamentos que o filme gera, mas que em um tom muito intimista, também celebra a amizade e a liberdade de se expressar e viver como quiser e puder.


A Sessão Vitrine Petrobras, que é o projeto da Vitrine Filmes em parceria com a Petrobras, está fazendo possível a distribuição desse filme. A Sessão Vitrine Petrobras  tem uma distribuição diferenciada, que permite que filmes brasileiros cheguem a um público que nem sempre teria acesso à produção nacional independente. Colaborou Marco Gal.