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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Bookends (EUA, 2026)

Em “Bookends”,  Nate (Noam Ash) é um escritor tentando construir uma carreira e uma vida em Nova York quando descobre que seu namorado o traiu e vê seu mundo desmoronar de uma vez. Sem dinheiro e sem saber muito bem para onde ir, ele acaba recorrendo aos avós, Saul (F. Murray Abraham) e Miriam (Caroline Aaron), que vivem em uma comunidade judaica para idosos. O que soa como uma derrota, voltar para um lugar que Nate considera distante demais de sua vida, aos poucos se transforma em uma oportunidade de recomeço. Mike Doyle dirige o filme com uma leveza que combina com sua proposta de comédia dramática, deixando que o humor surja do choque entre gerações enquanto a história abre espaço para assuntos bem menos confortáveis.

A relação entre Nate e os avós é o grande eixo dramático do filme. Saul e Miriam não são apresentados como figuras idosas idealizadas, mas como pessoas cheias de personalidade, contradições e pequenas manias. Eles querem ajudar Nate, mas também querem interferir, opinar e reorganizar a vida do neto segundo aquilo que acreditam ser melhor para ele. Existe uma graça particular nessa inversão de expectativas, porque o personagem que volta para casa imaginando que precisa cuidar da própria vida acaba descobrindo que também precisa aprender a ouvir. 


A homossexualidade de Nate também é tratada com grande naturalidade. Depois de tantos filmes queer construídos em torno da rejeição familiar, “Bookends” imagina uma situação diferente: o avô e a avó não precisam aprender a aceitar que o neto é gay porque, essencialmente, já o amam. A questão está em outra parte. Nate precisa descobrir como continuar pertencendo a uma família sem abrir mão da própria identidade e, ao mesmo tempo, aprender que a vida afetiva de seus avós também é feita de escolhas, frustrações, cumplicidades e concessões. A relação com Daniel (Charlie Barnett), o médico dos avós, nasce nesse contexto e funciona como uma extensão desse processo de reconstrução.


A obra ganha outra camada quando a demência começa a atravessar a história de Saul. Miriam inicialmente se recusa a aceitar que o marido está apresentando sinais de declínio cognitivo, enquanto Nate fica cada vez mais dividido entre a vontade de recuperar sua independência e a responsabilidade diante de uma situação que não pode simplesmente ignorar. É nesse momento que “Bookends” encontra seu tema mais delicado: envelhecer também significa assistir pessoas que sempre pareceram indestrutíveis perderem lentamente aquilo que as definia. E isso dói.


O filme sabe exatamente quando provocar uma risada, quando inserir uma conversa sentimental e quando aproximar Nate de Daniel. Essa segurança torna a experiência agradável, mas também deixa alguns conflitos previsíveis demais. O mérito está em não transformar essa previsibilidade em cinismo. “Bookends” parece saber que seu objetivo não é reinventar a comédia romântica, mas encontrar dentro dela um espaço para falar de envelhecimento, solidão, família e pertencimento.


O título ganha sentido quando percebemos que Nate está cercado por pessoas que funcionam como extremos e referências de diferentes momentos da vida. Os avós representam um passado que ele julgava ultrapassado, enquanto sua própria trajetória ainda está sendo escrita. No meio disso existe Daniel, uma nova possibilidade afetiva, e existe também a literatura, que Nate tenta usar para organizar aquilo que sente. “Bookends” não trata o recomeço como uma transformação grandiosa, mas como algo muito mais cotidiano: voltar para casa, ouvir os avós, aceitar ajuda, cuidar de quem precisa e permitir que alguém novo entre na sua vida.