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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Natal Amargo (Amarga Navidad, Espanha, 2026)

 

Pedro Almodóvar retorna ao espanhol em "Natal Amargo" olhando para trás sem qualquer nostalgia. Em vez de buscar conforto na própria filmografia, o cineasta transforma o ato de criar em matéria dramática, embaralhando lembranças, ficção e autobiografia em uma narrativa  metalinguística. A história acompanha a escritora Elsa (Bárbara Lennie), que enfrenta um período de luto e bloqueio criativo, ela é na verdade personagem de um roteiro do cineasta Raúl (Leonardo Sbaraglia), cuja vida profissional e pessoal passa a dialogar perigosamente com o material que pretende transformar em filme. Ao redor deles orbitam personagens como Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), Patricia (Victoria Luengo), Natalia (Milena Smit), o parceiro de Raúl, Santi (Quim Gutiérrez) e Bonifacio (Patrick Criado), formando um mosaico de afetos, memórias e feridas que borra continuamente as fronteiras entre realidade e invenção,

Há um humor discreto atravessando a melancolia, uma ironia tipicamente almodovariana que impede a narrativa de sucumbir ao peso do sofrimento. É também um dos filmes mais musicais do diretor em muitos anos. A emocionante interpretação de Amaia Romero para "Las simples cosas" ecoa a intensidade de Caetano Veloso cantando em "Fale com Ela", enquanto a presença simbólica de Chavela Vargas reaparece como uma homenagem carregada de afeto a uma artista fundamental para o universo emocional de Almodóvar. Em outro extremo, uma sequência de striptease embalada por Grace Jones reafirma que sensualidade, humor e dor continuam coexistindo em perfeita sintonia dentro de seu cinema, fazendo da música uma extensão dos sentimentos que as personagens nem sempre conseguem verbalizar.

Essa sensação de reencontro também passa pelo elenco. Bárbara Lennie conduz o filme com uma interpretação delicada e contida, Rostos históricos do cinema almodovariano, como Carmen Machi, Rossy de Palma e Bibiana Fernández, além da atriz trans Ángeles Ortega e até Los Javis, reafirmam compromisso do diretor com um cinema onde diferentes identidades convivem com absoluta naturalidade e nunca precisam justificar sua existência.

 "Natal Amargo" confirma que poucos cineastas contemporâneos dominam a imagem com tamanha precisão. Na fotografia, sai o antigo colaborador José Luís Alcaine, para a primeira contribuição com Pau Esteve Birba, que transforma objetos, tecidos, paredes e peças decorativas em extensões do estado emocional das personagens. Cada ambiente parece cuidadosamente construído para revelar sentimentos antes mesmo que eles sejam verbalizados. Os enquadramentos, as cores saturadas e a direção de arte preservam uma assinatura estética imediatamente reconhecível.

O roteiro encontra sua maior força justamente ao transformar o próprio processo criativo em conflito dramático. O cinema deixa de ser apenas tema para tornar-se personagem. Almodóvar questiona os limites éticos entre inspiração e apropriação, perguntando até que ponto um artista tem o direito de transformar a intimidade alheia em ficção. Esse movimento aproxima inevitavelmente "Natal Amargo" de "Dor e Glória", mas sem repetir sua estrutura. Se naquele filme predominava a reconciliação com o passado, aqui há uma inquietação permanente sobre o preço de transformar experiências pessoais em obra de arte. Vida e cinema deixam de ocupar espaços distintos e passam a existir como uma única matéria narrativa.

Mesmo que alguns momentos revelem um cineasta confortável revisitando temas recorrentes, "Natal Amargo" permanece uma obra sofisticada, elegante e emocionalmente generosa. Seu humor delicado, a musicalidade constante, o reencontro com figuras emblemáticas da filmografia almodovariana e a reflexão sobre o próprio ato de criar reafirmam a vitalidade artística de Pedro Almodóvar. Entre ficção e memória, desejo e luto, o diretor continua encontrando novas formas de filmar sentimentos antigos, lembrando que revisitar o próprio universo nunca significa permanecer no mesmo lugar, mas descobrir novas possibilidades de olhar para aquilo que ainda habita ne pele.


terça-feira, 10 de junho de 2025

COMEÇAM AS RODAGENS DE 'AMARGA NAVIDAD', NOVO LONGA DE ALMODÓVAR


O 24º longa-metragem de Pedro Almodóvar, “Amarga Navidad”, já está em produção, com filmagens em Madri e Lanzarote. Inspirado em um conto homônimo do livro de relatos O Último Sonho, o filme é uma comédia trágica sobre gênero, combinando humor e drama, uma marca registrada do cineasta espanhol. A trama explora a relação entre ficção e realidade, com a metalinguagem — tão presente em "Má Educação" — entrelaçando vida e arte. O título, que ecoa a canção de Chavela Vargas,, reforça a conexão emocional da cantora com a obra de Almodóvar.

A história acompanha Elsa (Bárbara Lennie), uma publicitária que enfrenta a morte de sua mãe durante um feriado prolongado em dezembro. Para lidar com o luto, ela mergulha no trabalho, mas uma crise de pânico a obriga a parar. Elsa viaja para Lanzarote com sua amiga Patricia — personagem também presente no conto original —, enquanto seu parceiro, Bonifacio, fica em Madri. Paralelamente, a narrativa segue Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), um roteirista e diretor de cinema, em um jogo de ficção e realidade.

O elenco estelar traz Bárbara Lennie (que estreou em “A Pele que Habito”) como Elsa, Leonardo Sbaraglia (“Dolor y Gloria”) como Raúl Durán, além de Aitana Sánchez-Gijón e Milena Smit (ambas de “Mães Paralelas”), e os estreantes em filmes do Almodóvar, Patrick Criado e Quim Gutiérrez. A trama explora luto, ausência materna e a complexidade das relações humanas, com a sensibilidade única do diretor para retratar o universo feminino e questões de identidade.

Produzido pela El Deseo, dos irmãos Almodóvar, em parceria com a Movistar Plus+, “Amarga Navidad" marca o retorno do cineasta ao espanhol após “O Quarto ao Lado”, vencedor do Leão de Ouro em Veneza 2024. Segundo a produtora Esther Garcia, o filme não é uma “volta para casa”, mas uma evolução da visão autoral de Almodóvar.


Com sua mistura de drama, humor e introspecção, “Amarga Navidad" já é aguardado como um dos grandes lançamentos de 2026, com potencial para brilhar em festivais como Cannes, Berlim ou Veneza, onde Almodóvar é um nome de respeito!



sábado, 16 de outubro de 2021

Mães Paralelas (Madres Paralelas, Espanha, 2021)



As mães são personagens constantes na obra de Pedro Almodóvar. Em De Salto Alto(1991), Marisa Paredes e Victoria Abril são mãe e filha em conflito. Em Tudo sobre minha mãe(1999), Cecilia Roth enfrenta a dor da perda de um filho. Em Volver(2006), Carmen Maura, retorna dos mortos para acompanhar suas filhas e em Dor e Glória(2019), o cineasta homenageia sua própria mãe, figura recorrente em seus primeiros filmes, através da personagem de Julieta Serrano.

No filme mais feminino do diretor espanhol em anos, Penélope Cruz interpreta Janis, uma fotógrafa que busca desenterrar os fósseis de seus antepassados mortos durante a Guerra Civil. Para isso ela conta com a ajuda do antropólogo Arturo(Israel Elejalde), o único homem relevante no elenco, com quem terá uma tórrida noite de desejo.

A narrativa almodovariana nos leva direto ao hospital, onde Janis prestes a dar à luz conhece Ana, Milena Smit, indicada ao Goya por No Matarás(2020), uma ingênua adolescente grávida, que entrelaça seu destino com a protagonista criando um poderoso elo. A cena do parto paralelo pode ser considerada umas das mais icônicas da recente obra do diretor.

A fotografia de José Luis Alcaine, que trabalha com o diretor desde Mulheres a beira de um ataque de nervos(1988), é inconfundível. Há um cuidado extremo no uso das cores e dos elementos e objetos cênicos. O onipresente vermelho aparece nos figurinos, adereços e utensílios, enquanto as ruas de Madri são exaltadas em diversas sequências. Também há bastante planos que enaltecem comidas, principalmente as espanholas. Alberto Iglesias novamente é o responsável pela trilha, que nesse caso tem um papel fundamental no clima de thriller que acompanha o filme.


Rossy de Palma, colaboradora constante de Almodóvar, ilumina a tela com sua presença. Ela interpreta Elena, a editora da revista para a qual Janis trabalha, e que também tem um vínculo da infância. Muito diferente de Julieta(2016), a atriz aqui aparece como uma mulher empoderada, elegante e dona de si.

Já Aitana Sánchez Gijón, trabalhando pela primeira vez com o diretor, é Teresa, a mãe de Ana, uma atriz frustrada que assim como em De Salto Alto, mantém uma relação conturbada e distante com a filha. Teresa é uma mulher fina e cheia de nuances, que deixou Ana aos cuidados do pai, que também acabou se tornando ausente, como a maioria das figuras paternas na obra do diretor espanhol.

Com um enredo extremamente feminino, a maternidade é o foco principal do longa. O título já sugere que há uma troca de bebês, o que é revelado logo no início do filme e levará Janis pela procura da verdade e momentos tensos e desesperadores juntos da pequena Cecília, que brilha e traz ternura ao filme. Sempre há uma luz, e ela está em Ana.

Há cenas muito características do diretor, como legumes sendo cortados, uma transexual, Daniela Santiago, a Veneno da série, sendo fotografada pela protagonista, e a tão comentada camiseta WE SHOULD ALL BE FEMINISTS, da Dior, e isso resplandece na tela. Mas é no drama e nos diálogos almodovarianos que habita uma crítica social e um posicionamento político.

A lista de grifes que aparecem no filme é extensa. De Dior, Louis Vuitton, Prada, Giorgio Armani, Pertegaz, Miu Miu, Palomo Espanha e Missoni até outras mais acessíveis como Levis e Zara. Todo o vestuário das “chicas” ou mães Almodóvar é especial.

Madres Paralelas é uma teia sentimental que o gênio do cinema maneja com facilidade, através de diálogos marcantes, uma leve comédia e situações ampliadas pelo sentido artístico. Sob tais parâmetros, Penélope Cruz oferece uma caracterização cheia de matizes e convenientemente emocionante na pele de uma personagem que oferece múltiplas mudanças emocionais. Da mesma maneira Milena Smit, também reluz, neste que é apenas seu segundo longa.

Os laços de sangue e a flexibilidade do conceito de "família" são essenciais no filme, assim como o roteiro apuradíssimo escrito por Almodóvar, que funciona pela própria personalidade do cineasta e por sua habilidade narrativa. Sempre há algo de muito pessoal em seus filmes e isso é o que os torna tão fascinantes.

A obra gira em torno do universo do próprio cineasta. É fácil encontrar referências a outros filmes, nomes e personagens em cenas de Madres Paralelas. As famosas tramas inusitadas são muito bem construídas, pelo roteiro, e o longa traz frescor e criatividade ao narrar uma história densa e fazer uma analogia entre maternidade e a denúncia aos horrores do franquismo e da guerra civil espanhola.