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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Primeiras impressões sobre a 3ª temporada de EUPHORIA

Após quatro anos de espera, a terceira temporada de “Euphoria” finalmente estreou. O episódio 1 promete, mas não entrega tudo o que um dia o público um dia amou na série. Sai o visual impecável e entra um México desértico e genérico, sempre objetificado como terra dos cartéis e de ninguém. Sydney Sweeney rebolando de fio-dental em fantasias de OnlyFans, bunda e peitos, é o candy eye hétero, que reforça a misoginia da indústria. Gatilhos jogados na tela sem filtro e um elenco que, honestamente, já pesa mais que a própria atração principal, justificariam que ela não precisava retornar.

A forma como “Euphoria” lida com trauma, dependência e sexualidade continua parecendo mais provocação barata do que reflexão profunda querendo inflar o ego de seu showrunner e rei das tretas nos bastidores, Sam Levinson.  O episódio abre com Rue (Zendaya), reforçando estereótipos, contrabandeando fentanil no México, engolindo pacotinhos e cuspindo drama na fronteira, mostrando que em 5 anos ela apareceu zero, enquanto Cassie navega sua bolha suburbana de direita, filma conteúdo erótico no OnlyFans para bancar um casamento de 50 mil dólares em flores com Nate (Jacob Elordi).

O desfecho de Fez, interpretado pelo falecido Angus Cloud, é preguiçoso, destinado a 30 anos na prisão, citado vagamente. Os maiores personagens como Jules(Hunter Shaffer) nem aparecem. Colman Domingo retorna como Ali, o padrinho que tenta colocar os 12 passos do NA (Narcóticos Anônimos) na cabeça de Rue, que visivelmente não quer melhorar, não busca ajuda, tratamento ou redenção. Há uma discussão completamente equivocada sobre o 3º passo, um erro grotesco de roteiro que demonstra a falta de cuidado e pesquisa. Não é apenas ruim, é irresponsável!

Labrinth ficou de fora e inclusive segue expondo suas indignações com o tratamento recebido.  A trilha de Hans Zimmer mistura faroeste, country, rap e pop, dando um tom épico ao caos mas sem o tom etéreo que o britânico trazia. “Euphoria” sempre soube embalar o problema em beleza, e o episódio 1 nem isso consegue. É quase bonito. É problemático. E é exatamente por isso que, mesmo com ranço, o público vai assistir até o final.

Primeiras impressões? A série continua viciada em usar o corpo (principalmente o feminino nesse começo) como chamariz visual enquanto os personagens envelhecem e as tramas ficam mais rasas. Quatro anos de espera para um arco que parece ter passado apenas quatro meses. O primeiro capítulo precisava ser mais babilônico, mais icônico. Seguiremos acompanhando, só pra falar mal depois.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Euphoria 2ª Temporada(EUA, 2022)

Após três anos de espera, a segunda temporada da aclamada Euphoria, série de Sam Levinson, para a HBO, chegou, mais sombria, obscura e menos lúdica e colorida mas igualmente realista e imersiva. O primeiro episódio começa revelando as origens do traficante Fez(Angus Cloud).

Somos transportados a um bordel repleto de sexo explícito onde o menino é resgatado por sua avó, uma bandida da pesada e inserido no submundo ilícito. O personagem enfim ganha protagonismo e já adulto aparece ao lado do minidealer Ash(Javon "Wanna" Walton) e Rue, a brilhante Zendaya, novamente se envolvendo em problemas.

Após uma tentativa de reabilitação, Rue recaiu e seu comportamento cada vez mais fora da realidade acaba por afastar as pessoas queridas, assim como colocá-la em riscos físicos e mentais. Ainda neste começo, em uma Festa de Ano Novo, regada a sexo, álcool, música e muita droga somos apresentados ao personagem Elliot(Dominic Fike) que mais tarde irá desempenhar um papel fundamental no relacionamento de Jules(Hunter Shafer) e Rue.


Ainda sofrendo as consequências da primeira temporada Sydney Sweeney  exibe sua beleza melancólica em cenas repletas de erotismo que definem sua personagem Cassie, submissa, objetificada, porém enigmática e que disputa secretamente o amor do vilão Nate(Jacob Elordi), com a melhor amiga Maddy(Alexa Demi).

O passado do obscuro Cal Jacobs é revelado no terceiro episódio, que humaniza o personagem, destaca o talento de Eric Dane e fornece momentos oitentistas embalados por INXS, marca a volta do tão característico neon e faz ainda uma referência ao clássico Happy Together. Enquanto isso, no presente, Lexi(Maude Apatow), já muito bem mais desenvolvida, além de flertar com Fez, começa a planejar a peça que será essencial no desfecho da trama.



“Só fumei um baseadinho”, Rue deu o primeiro passo dos Narcóticos Anônimos, que é admitir a derrota, porém não seguiu os conselhos do seu padrinho Ali(Colman Domingo), tornando sua vida infernal e a de seus parentes, trazendo à tona o tema da codependência ao vermos o sofrimento de sua mãe Leslie(Nika King) e sua irmã Gia(Storm Reid).

Quando o quarto episódio começa vislumbramos as melhores referências, durante a abertura, com Jules e Rue recriando filmes e obras de arte, como O Nascimento de Vênus, Brokeback Mountain, Yoko e John Lennon, Ghost, Frida Kahlo, Branca de Neve e Titanic. Embora as cenas sejam lindas e cintilantes, elas carregam o tom do andamento do relacionamento entre as protagonistas, que a essa altura é de partir o coração.

Assim como a relação entre Jules e Rue não será mais a mesma, algo também acontece com a amizade de Cassie e Maddy, abalada por Nate, que nessa temporada está ainda mais odioso, obsessivo, ambíguo e a ponto de um feminicídio.

Quando Labrinth, o compositor da trilha, aparece em uma participação, vislumbramos esperança para a protagonista, mas que nos episódios seguintes será quebrada com Rue sofrendo uma crise violenta de abstinência, correndo pelas ruas, sofrendo riscos, destilando verdades e mostrando os efeitos devastadores da droga na vida de um dependente químico.

Enquanto uns minguam, como Kat(Barbie Ferreira) que teve sua participação reduzida ao relacionamento com Ethan(Austin Abrams) e alguns carões, outros crescem, que é o caso de Lexi, que finalmente leva sua peça aos palcos e expõe, de forma muito sombria, os personagens, especialmente o vilão Nate. Servindo de muita metalinguagem, o espetáculo da irmã de Cassie acontece nos dois últimos episódios.


O tom adotado nessa segunda temporada certamente é mais sombrio. Embora o uso explícito de drogas tenha sido diminuído ainda há muitas carreiras e imagens impressionantes, como uma agulha espetando a pele. No entanto, mesmo obscuras, as cenas são plasticamente belas e há um momento memorável de Maddy experimentando as roupas luxuosas no close de sua patroa, ao som de Judy Garland.

Por falar em Judy Garland, a trilha mais uma vez incrível traz nomes como Lana del Rey, Tove Lo, James Blake, Bonnie Tyler, Ben E. King, Missy Elliot, Mazzy Star,  Mahalia Jackson, Jonathan Richman, Sinead O’Connor, INSX, Roxette, Erasure, Echo & The Bunnymen, Lenny Kravitz, CAN, 2Pac, Orville Peck, Sharon Cash, Captain & Tenille, e é claro Labrinth.


O vazio que habita em Rue e que só pode ser preenchido com doses de droga é o que a consome e a destrói, e também é o fio condutor da série, mas sempre há uma luz, sempre há uma esperança, e por mais que Euphoria não seja moralista, ela é realista mesmo em um universo lúdico que traz beleza para a escuridão.


Quando chega em seu oitavo e último episódio, Euphoria é catastrófica e trágica com toques tarantinescos e momentos comoventes. A resolução da peça de Lexi, traz o desfecho para os personagens(nem todos), e alguns são surpreendentes, enquanto outros desoladores.

As consequências do vício, do abuso, da criminalidade e das amizades tóxicas custam um preço alto. Mas o final, mostrando a sobriedade de Rue traz luz, um caminho de respostas e o anúncio da terceira temporada de um dos maiores sucessos televisivos dos últimos tempos.


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Euphoria(EUA, 2019)


A dependência química é uma doença crônica. Progressiva, incurável e fatal, se não for tratada. Rue, a heroína de Euphoria, série criada por Sam Levinson para a HBO, interpretada por Zendaya, é uma adicta. Ela, que nasceu 3 dias depois do fatídico 11 de setembro, se envolve nos maiores perigos, anda com traficantes e descreve como o uso da droga preenche o seu vazio com “aqueles segundos de nada”. Até que aos 16 anos, a personagem tem uma overdose.

Rue é mandada para a reabilitação, onde arruma um padrinho e aprende os passos para manter a sobriedade. Porém, quando sai da clínica logo bate na casa do seu fornecedor Fez (Angus Cloud) que anda acompanhado de um traficante mirim. No entanto Jules, interpretada pela estreante Hunter Schafer, uma garota transgênero, surge em sua vida, lhe possibilitando almejar pelo amor próprio e uma vida menos destrutiva.

Jules é  nova no subúrbio. Logo ela tem uma noite de sexo com Cal Jacobs(Eric Dane), que é pai de Natan(Jacob Elordi), o algoz da série e mais popular garoto da escola. O jovem senhor que aparenta manter uma família perfeita, parece na verdade ser um pedófilo, predador de menores e que grava tudo e cataloga numa gaveta.

Natan, que antes se apresentava como o príncipe encantado para Jules, se tornará contra ela em um mundo de mentiras e chantagens. Toda a maldade do personagem, um campeão de quarteback, parece maquiar uma falta de resolução de sua sexualidade.


A estética lisérgica, luminosa e inebriante acompanha a série que apresenta uma forte linguagem de videoclipe. Portanto a trilha original composta pelo produtor Labrinth segue cuidadosamente cada uma das cenas. Há músicas de Beyoncé, Rosalia, Bronski Beat, Santigold, Cat Power, DeBarge, Megan the Stallion, Drake, Doja Cat, Madonna, Billie Eilish, Cocorosie, Solange, J Balvin, The Arcade Fire, a própria Zendaya e muito mais.

Kat(Barbie Ferreira), que lembra a personagem de Thora Birch em Ghost World(2001), é uma gordinha, que escreve literatura erótica e faz o maior sucesso no Tumblr, no entanto não encontra popularidade na escola. Após um suposto vídeo de sexo seu vazar, a personagem se empodera orgulhando-se de seu corpo e transformando-se em uma dominatrix da internet. “Sexualidade é um espectro", diz. Os novos aspectos porém trazem fortes mudanças.

Enquanto vai discutindo temas como dependência química, ambientes manicomiais, virgindade, bipolaridade, cyberbulliyng, prostituição, transexualidade, abuso contra a mulher, codependência, aborto, pedofilia e gordofobia, a série vai desenvolvendo o amor fluído entre Jules e Rue, que se torna tão intenso quanto platônico.

Além das inúmeras cenas com sexo, pênis e drogas, o êxtase da nudez e da violência explícita, a atração acompanha uma jovem lutando para tornar-se uma pessoa melhor, frequentando reuniões de NA para conseguir fazer as pazes consigo mesma.

Há cenas em parques de diversões. Há Halloween. Há fogos de artifício. Há um orgasmo no carrossel. A série ainda dá espaço para personagens menores, mas relevantes, como Maddy(Alexa Demie), a namorada de Natan cuja principal inspiração é Sharon Stone, em Cassino(1995) e Cassie(Sydney Sweeney), que representa a mulher objetificada.

Premiada com o Emmy, Zendaya é excepcional em todas as ocasiões. Ela acrescenta leviandade de partir o coração aos momentos em que sua adolescente em espiral se sente invencível em vez de frágil, e a maneira como ela se comporta, narra cada história e geralmente lida com o peso de estar no comando de uma série. 

A maioria  dessas histórias também são narradas na infância e variam de chocantes a terríveis, sejam passadas ou presentes, e elas se somam. Mas cada momento deve refletir a verdade de alguém. Euphoria é um drama adolescente que realmente se esforça para ser honesto com a experiência da puberdade.


Após 8 episódios, de cerca de 1h, e um final apoteótico,  Euphoria deixa um um gosto agridoce com um sabor de quero mais. No ano passado, foram lançados dois episódios especiais focados nas protagonistas da série, que é uma adaptação da produção israelense de mesmo nome, realizada em 2012, por Ron Leshem, Daphna Levin e Tmira Yarden.