Mostrando postagens com marcador Jean-Michel Basquiat. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jean-Michel Basquiat. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de março de 2022

Os Diários de Andy Warhol(The Andy Warhol Diaries, EUA, 2022)

Em 1968, após levar um tiro da anarcofeminista Valerie Solanas, o pai da POP Art e artista multifacetado, Andy Warhol, sobreviveu milagrosamente e começou a escrever um diário. Publicado em 1989, após sua morte, o livro, editado por Pat Hackett, revelou muito mais do que o efeminado excêntrico por trás da peruca.

A série documental, escrita por Andrew Rossi, e produzida por Ryan Murphy, para a Netflix, vai ainda mais a fundo e analisa as entrelinhas. A atração é inteligentemente narrada pela voz de Andy Warhol, recriada por meio de inteligência artificial.

A narrativa não linear, permite que a obra passeie por diferentes períodos de sua vida e como isso refletia em sua obra. O riquíssimo acervo de imagens, acompanhando a narração, mostra as perturbações, as motivações, as inquietudes e os prazeres de um dos maiores artistas de todos os tempos.

Apresentando o impacto de Andy Warhol na cultura POP, a série mostra como ele foi precursor em propagar a homossexualidade no cenário underground, tanto em seus filmes, quanto em obras mais explícitas, realizadas, entre outros, junto de Victor Hugo, o toy boy de Halston.

Mas para além de Nova York, a série retorna até Pittsburgh, onde o jovem Warhol, era uma pessoa completamente deslocada e, em 1949, com uma nota de $20 foi à Big Apple, criou a lendária Factory, seu estúdio e reduto de marginalizados e iniciou o seu legado. Um artista que ansiava pela aceitação do mainstream, mas cuja arte era baseada em ficar de fora para vê-la claramente; um deus da estética cuja obsessão com a superfície das celebridades o colocavam em constante risco de ser classificado como superficial.


Warhol se declarava assexual, mas o diário revela duas de suas paixões arrebatadoras. A série acessa seu coração e dedica bastante tempo, primeiro com Jed Johnson, um jovem que veio em busca de sonhos em East Village e após Jon Gould, um executivo da Paramount, com quem manteve um duradouro caso.

Por falar em Paramount, há belíssimos momentos com cenas de filmes, um deles é com Warhol refletindo sobre Joan Crawford, Faye Dunaway e Mamãezinha Querida(1981) e o outro é quando ele narra uma linda sequência de A História sem Fim(1984).

O que não falta em Os Diários de Andy Warhol é arte. Podemos acompanhar toda sua evolução artística, desde quando começou como ilustrador de moda, passando pelo clássico rótulo de Sopas Campbell, a icônica sequência de Marylins, e séries e mais séries de obras que nos transportam diretamente para o Andy Warhol Museum.

A parceria de sucesso e conturbada com Jean-Michel Basquiat também é bastante ressaltada. Warhol viu no jovem grafiteiro SAMO um talento nato, e em 2 anos eles produziram, juntos, mais de 200 obras. Se Andy manipulava não é esclarecido, mas ver a apreciação de sua arte conjunta é emocionante, reforçada por imagens que evocam sonhadoramente um século que parece inescapavelmente mais decadente, glamoroso e maduro do que o nosso.

Com uma capacidade imensa de se reinventar, o artista profetizou que no futuro todos teriam seus 15 minutos de fama. O próprio foi um dos pais da MTV, ele tinha um programa de TV , fez participações em The Saturday Night, The Love Boat e estava sempre com uma câmera na mão. Andy Warhol era uma das pessoas mais famosas do mundo e sabia fazer o uso disso como ninguém.

Além da música de abertura, Nature Boy, com Nat King Cole, a trilha ainda traz Bee Gees, Chic, Yazoo, Robbie Dupree, The Extremes, The Pointer Sisters, Maria Callas, JMJ, General Public, Hercules and Love Affair, e outros.

A ideia de fazer da série um documental é brilhante. Andy Warhol por si só era uma obra de arte. Não há melhor intérprete para o artista do que o próprio e há acervo de imagens suficientes para isso. Cada episódio é muito bem ilustrado, dando uma aula de arte e cultura POP.

O Studio 54, Mick Jagger, Diana Ross, Liza Minnelli, Madonna, Gianni Versace, todos aparecem. Mas os depoimentos de Bob Colacello, editor da revista de Warhol. a Interview, Pat Hackett, Glen Ligon, Jessica Beck, David LaChapelle, o cineasta John Waters, Rob Lowe, Vincent Freemont, Mariel Hemingway, Paige Powell, e muitos outros, enriquecem ainda mais a produção.

Nos anos 1980, a sombra da AIDS pairou sobre Nova York, e o mundo, e o que era iluminado escureceu e Andy Warhol, vivia com medo e perdendo pessoas queridas à sua volta. Com Gould sendo derrotado pela AIDS, Warhol investe sua arte penosamente na calamidade, e não no voyeur desinteressado sugerido por sua fachada pública, e o último episódio esclarece o manifesto por trás de suas obras finais.

Ele afirmava que queria ser uma máquina, que não queria ter sentimentos, mas o que essa preciosidade da Netflix nos mostra é exatamente o oposto. Um gênio frágil, delicado e sensível. A produção apresenta o legado artístico de Andy Warhol para uma nova geração e reafirma sua importância como um dos maiores vanguardistas e ícones POP de todos os tempos. 



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Basquiat - Traços de uma Vida(Basquiat, EUA, 1996)

 Jean-Michel Basquiat(Jeffrey Wright) parece ter passado a maior parte de sua breve vida no lado direito do cérebro. Só outro artista poderia entender isso, e Basquiat é a estreia poética e confiante do pintor Julian Schnabel, que era m amigo do artista. Como Schnabel se lembra dele, ele é uma presença quieta, quase sem palavras, um jovem que raramente diz o que está pensando e muitas vezes escolhe deliberadamente perder o foco de uma conversa. Ele é sonhador, doce e pensativo. Há mágoas e raivas profundas, mas muitas vezes ele escolhe colocar uma máscara para encarar o mundo.

Basquiat, nascido em Nova York de pais de classe média, foi um artista importante na geração que expôs no distrito de SoHo. em Manhattan por volta de 1980. Seu trabalho anônimo era conhecido antes: ele era um grafiteiro cujas legendas cuidadosamente impressas, assinadas “SAMO”, foram encontradas em toda Nova York. Em 29 de abril de 1979, em uma festa de inauguração do Canal Zone, um espaço de arte, Basquiat se identificou como SAMO e em pouco tempo suas pinturas estavam encontrando colecionadores.


Seu trabalho parecia se acumular nas superfícies que encontrava ao seu redor. Pintou em tábuas, paredes, telas, no vestido da namorada e até nos quadros dela. Seu trabalho reúne áreas de cores fortes com áreas mais detalhadas de texto, figuras, desenhos e rabiscos - projetados para um mundo em sua mente. Ele caiu no sucesso com uma facilidade surpreendente. Suas primeiras vendas vieram depois que ele se aproximou de Andy Warhol, notavelmente interpretado por David Bowie, e um famoso colecionador, vivido por Dennis Hopper, em uma mesa de restaurante, e eles compraram seus cartões postais decorados.


Jeffrey Wright faz uma performance quase mística, como Basquiat, que estava naquela época apenas alguns meses sem-teto; ele viveu por um tempo em uma caixa de papelão. Ele se afastou de sua casa de classe média e em um mundo próprio, e até mesmo para sua namorada Gina (Claire Forlani) ele permaneceu um enigma. Sua atenção estava para dentro; como todos os usuários de drogas, ele se concentrava a maior parte do tempo em como se sentia, ou não se sentia.



O mundo da arte de Nova York rapidamente faz de Basquiat uma estrela. O trabalho dele é fantástico, mas a história dele é melhor: de uma caixa de papelão a uma abertura de galeria! Basquiat logo se torna um amigo próximo de Andy Warhol, que aparece como sobrenaturalmente distante mas também  gentil, aberto, receptivo e instintivamente perceptivo sobre novas direções da arte.

Tão brilhante quanto a obra de Basquiat, e o elenco que inclui ainda nomes de Gary Oldman, Courtney Love, Christopher Walken, Parker Posey e Willem Dafoe é a trilha sonora do filme. Tem David Byrne, Tom Waits, Miles Davis, The Pogues, Iggy Pop, The Rolling Stones, Peggy Lee, The Psychedelic Furs, Brian Kelly, Verdi, John Cale e é claro, David Bowie.

Quando Basquiat está deprimido por um artigo de revista que o descreve como o “mascote” de Warhol, um amigo em comum lhe diz: “Andy nunca me pediu nada além de falar com você sobre sair das drogas”. Isso Basquiat não vai fazer. As drogas são o centro de sua existência.
Seu melhor amigo desde os primeiros dias, um pintor porto-riquenho chamado Benny (Benicio Del Toro), finalmente o abandona por causa de sua autodestruição. Gina o encontra quase morto após uma overdose. É claro para todos que ele está em apuros. Mas agora Basquiat está em uma terra mental própria, vagando e rabiscando pelas ruas em busca de sua mãe que está internada em uma clínica psiquiátrica.