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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Pillion (Reino Unido/Irlanda, 2025)

 “Pillion”, de Harry Lighton, atualiza o romance “Box Hill”, de Adam Mars-Jones. O diretor não apenas troca uma época por outra, mas reposiciona a experiência queer em um mundo que se diz mais aberto, embora ainda profundamente regulado por expectativas normativas. Colin (Harry Melling) com uma mistura precisa de doçura e obstinação, surge como um sujeito moldado pela superproteção e pela falta de calor humano. Vive com os pais, trabalha como fiscal de trânsito e ocupa o mundo com uma delicadeza quase invisível. É justamente essa delicadeza que encontra em Ray (Alexander Skarsgård) um ponto de contraste. Ray é corpo, regra e presença absoluta. Um motoqueiro escandinavo que carrega no silêncio e na postura uma autoridade que não precisa ser explicada. Entre eles se estabelece uma relação de dominação consensual, estruturada por contratos, tarefas e rituais que organizam o prazer como prática cotidiana.

O grande mérito de “Pillion” está em tratar o BDSM não como metáfora vazia nem como território de exceção moral, mas como forma legítima de vínculo. O poder aqui não é abuso disfarçado, tampouco fantasia descontrolada. É acordo, repetição, linguagem compartilhada. Lighton compreende que a assimetria pode ser produtiva quando escolhida, e que a entrega não é sinônimo de apagamento. Colin não se perde ao se submeter. Ao contrário, encontra contornos mais nítidos para existir.

Esteticamente,  o filme constrói esse embate por meio de contrastes táteis e espaciais. O bege opressivo da casa suburbana, com seus papéis de parede e silêncios educados, colide com o preto lustroso do couro, o vermelho saturado das jaquetas e o som grave das motos. A Harley não é apenas objeto de desejo ou símbolo fálico, mas um terceiro personagem que encarna movimento, risco e pertencimento. O assento traseiro, o pillion do título, define o lugar de Colin na relação e no mundo, sempre em deslocamento, sempre confiando a direção a outro.

A fotografia de Nick Morris e o desenho de som atento aos zíperes, correntes e motores reforçam essa materialidade do desejo. Cada close em metal frio ou couro tensionado aproxima o espectador de uma experiência sensorial. As influências de um cinema europeu que sabe rir da própria melancolia aparecem na leveza com que Lighton atravessa cenas de perda e descoberta. O sexo aparece como elemento narrativo, sempre ousado e explorando as dinâmicas sadomasoquistas.

Skarsgård constrói Ray como uma figura enigmática, sexy, menos interessada em se explicar do que em sustentar sua presença. É um carisma que seduz e, ao mesmo tempo, delimita fronteiras. Ao redor deles, o elenco de apoio, com destaque para Lesley Sharp e Douglas Hodge como os pais de Colin, desenha uma família que não reage com horror à sexualidade do filho, mas também não sabe exatamente como lidar com ela. Esse detalhe é crucial. “Pillion” não está interessado em narrativas de rejeição explícita, mas nas sutilezas do desconforto e da aceitação parcial que marcam a vida queer em tempos supostamente ‘flexíveis'.

O filme recusa tanto a moralização quanto o romantismo. Não há vilões nem redenção. Há aprendizado. Lighton sugere que crescer pode significar reconhecer quando um acordo deixa de servir, mesmo que ele tenha sido fundamental em outro momento. Sensual, engraçado e profundamente atento às contradições do afeto, “Pillion” é um retrato raro de intimidade gay. Um filme que entende que o desejo não precisa ser domesticado para ser compreendido, apenas escutado com atenção.


segunda-feira, 6 de março de 2023

Please Baby Please(EUA, 2022)

Please Baby Please é a viagem lisérgica da diretora Amanda Kramer aos anos 1950, em um mundo neon, de uma gangue de motoqueiros de Nova York ,e seu efeito na sexualidade de um jovem casal beatnik. Arthur (Harry Melling) e Suze (Andrea Riseborough) estão voltando para casa uma noite quando testemunham uma gangue de motoqueiros, os 'Young Gents', assassinar outro casal.

A gangue força Arthur e Suze a divulgar seu endereço residencial na tentativa de intimidá-los a manter o silêncio. Ao fazer isso, Arthur e o belo líder da gangue, Teddy, Karl Glusman evocando Marlon Brando, trocam olhares um com o outro. Isso desencadeia um despertar sexual em Arthur e coloca o casal em uma jornada na qual eles consideram, discutem e exploram a masculinidade e suas identidades sexuais e de gênero. 


Please Baby Please bebe de Kenneth Anger e faz um aceno para clássicos como Amor Sublime Amor(1961) e O Selvagem(1953) e acrescenta uma sensibilidade queer, kitsh, camp e teatral para criar um tipo de filme refrescantemente diferente.

Este filme tem orgulho de ser o que é, uma comédia/melodrama/musical pervertido e não-binário experimental, ou algo assim. Please Baby Please não apresenta muita narrativa; há um arco na jornada do casal, mas a maior parte é revelada por meio de exposições excêntricas.


O excelente acompanhamento musical varia de exotismo burlesco a jazz suave ou cantigas; a coreografia é simples, mas eficaz, mais dependente dos guarda-roupas dos dançarinos do que dos movimentos que executam. Fiel ao estilo dos anos 1950, tudo é reprimido e há pouco sexo real.

Please Baby Please está ciente de quão ridícula é uma caricatura de masculinidade com todo esse cromo e couro preto; é precisamente por isso que é fascinado por esta iconografia. Esse espetáculo de objetificação é especialmente interessante porque é filmado por várias lentes: uma diretora olhando para os homens através do olhar homossexual masculino.


Harry Melling, da franquia Harry Potter, lida habilmente com seus deveres de interpretar um homossexual enrustido de uma maneira gratificante, mas familiar, porém muitos dos elogios a Please Baby Please vêm de Andrea Riseborough, cuja femme fatale exagerada conquista até mesmo os detratores do filme. Ela gira em um espartilho, uiva para a lua, faz uma representação espontânea de Bert Lahr e age cada vez mais loucamente conforme o longa avança. 


A participação especial de Demi Moore, como a vizinha Maureen, foi muito divulgada, mas não é nada assombrosa; o mais significativo é o voto de confiança que ela dá ao emprestar seu nome a esse projeto histérico, que exala um passeio emocionante e exagerado pelos  anos 1950.