segunda-feira, 2 de março de 2026

Amanece (Espanha, 2023)


"Amanece", de Juan Francisco Viruega, começa com Alba (Aura Garrido) retornando ao interior de Almería depois do fim de um relacionamento. Ela reencontra a irmã Candela (Iria del Río) e a mãe Aurora (Isabel Ampudia), que enfrenta uma doença delicada. O reencontro familiar não é caloroso nem explosivo, mas atravessado por silêncios, pequenas tensões e memórias que nunca foram totalmente resolvidas. A paisagem árida da região, entre salinas e mar aberto, acompanha esse retorno como se fosse parte da própria história.

Viruega constrói um drama intimista que aposta no tempo e na observação. Não há grandes reviravoltas, e sim conversas interrompidas, olhares que dizem mais do que discursos e uma sensação constante de algo que ficou por ser dito. Essa escolha torna o filme mais contido, mas também mais honesto. O diretor confia na força do cotidiano e na presença das atrizes para sustentar a emoção sem recorrer ao melodrama.

A dimensão queer aparece de maneira discreta, mas significativa. O passado afetivo de Alba envolve uma relação com outra mulher, e o filme trata essa experiência sem sublinhados excessivos ou transformá-la em conflito central. A sexualidade da personagem é parte de quem ela é, não um elemento isolado que precisa ser explicado ou justificado. Em um contexto familiar tradicional e em um espaço interiorano, essa presença tem peso político justamente por sua naturalidade. “Amanece” propõe uma representação queer que não gira em torno da revelação ou do trauma, mas da vivência cotidiana, com suas dores e afetos.

O longa utiliza a luz natural de Almería para reforçar a sensação de exposição emocional. Os espaços abertos contrastam com o recolhimento das personagens, criando uma tensão interessante entre o que é vasto e o que permanece guardado. A câmera acompanha de perto os rostos, permitindo que cada hesitação apareça sem pressa. A fotografia valoriza tons quentes e uma textura que aproxima o espectador da experiência sensorial daquele ambiente.

As atuações são o grande eixo do filme. Aura Garrido transmite fragilidade e resistência ao mesmo tempo, enquanto Iria del Río constrói uma Candela mais contida, marcada por ressentimentos que aparecem em gestos mínimos. Isabel Ampudia evita qualquer exagero ao interpretar Aurora, trazendo dignidade a uma personagem que lida com o próprio desgaste físico. O trio sustenta a narrativa mesmo nos momentos em que o ritmo desacelera.

“Amanece” é um filme sobre retorno, reconciliação e aquilo que não se resolve completamente. Sua força está na delicadeza com que observa laços familiares e na maneira como inclui a experiência queer sem transformá-la em espetáculo. Juan Francisco Viruega entrega um drama sensível, que pede atenção e disponibilidade emocional, apostando que, às vezes, o que mais transforma não é o confronto direto, mas a coragem de permanecer e escutar.