segunda-feira, 30 de março de 2026

Una Perra Andaluza (Espanha, 2024-2025)

“Una perra andaluza”, criada e dirigida por Pablo Tocino, é daquelas séries que parecem surgir meio por acidente, como uma ideia maluca que ninguém esperava que fosse dar certo, mas deu. Estreada em 2024 e dividida até agora em duas temporadas, a produção, definida como uma dramarachada (dramédia + mamarachada) acompanha um grupo de jovens em Sevilha tentando sobreviver à própria juventude sem muito glamour e com ainda menos dinheiro. Sofía, Samu, Tamara, Marcos, Sylvia e Judit são, cada um à sua maneira, versões contemporâneas de gente perdida, meio fodida emocionalmente e tentando fazer algum sentido da vida entre sexo, amizade, frustração e ressaca.

A primeira temporada tem aquele charme caótico de quem não tem nada a perder. São episódios curtos, quase como recortes de um cotidiano bagunçado, onde Marcos descobre seus desejos se apaixonando pelo melhor amigo hétero, Sofía começa a se cansar de um relacionamento “certinho” demais, e Samu simplesmente se joga na noite e nos aplicativos como se não houvesse amanhã. Tudo é muito direto, às vezes até bruto, com diálogos que parecem improvisados e situações que beiram o desconforto. E é justamente aí que a série encontra sua voz, nessa mistura de humor ácido, vergonha alheia e verdade.

O lado queer aparece de forma completamente natural, sem aquela cara de “representatividade calculada”. Tem personagem gay, trans, gente experimentando, errando, desejando, tudo dentro de um universo onde ninguém está plenamente resolvido. Sylvia, por exemplo, chega de Madri e precisa se reencaixar em Sevilha, enquanto Marcos vive o clássico drama de amar quem não pode. Mas nada disso vira discurso. A série prefere mostrar do que explicar, e isso faz com que tudo soe mais vivo, mais próximo, mais honesto e literalmente, mais nu.

A segunda temporada, lançada em 2025, pega esse mesmo caos e dá uma leve organizada, sem perder a sujeira que faz tudo funcionar. O slogan “envelhecer é uma coisa suja” resume bem o espírito. Os personagens continuam perdidos, mas agora com um pouco mais de consciência do próprio desastre. Samu volta para Huelva e encara outras camadas de si mesmo, Tamara e Judit cruzam caminhos de um jeito interessante, e Marcos finalmente enfrenta suas primeiras experiências com uma mistura de ansiedade e ternura. A série ganha ritmo, as piadas funcionam melhor e os conflitos ficam mais densos.

Tecnicamente, continua longe de qualquer padrão “polido”, e isso é quase um manifesto. A estética DIY, os apartamentos meio feios, a luz irregular, tudo contribui para um retrato muito específico de uma juventude precarizada que raramente aparece com essa franqueza na televisão. Em vez de esconder as limitações, “Una perra andaluza” abraça o improviso e transforma isso em linguagem. E quando funciona, funciona muito, porque há um senso de verdade nas atuações e nos diálogos que compensa qualquer falha.

Olhando as duas temporadas, o que fica é a sensação de estar assistindo algo vivo, em constante construção, meio desajeitado, mas cheio de personalidade. “Una perra andaluza” não tenta agradar todo mundo, nem fazer concessões para parecer mais “aceitável”. Ela aposta no exagero, no desconforto e no afeto torto entre seus personagens para construir um retrato geracional que mistura desejo, solidão e vontade de existir de algum jeito. Pode ser irregular, pode até irritar em alguns momentos, mas é difícil sair ileso dessa energia crua que a série insiste em jogar na tela.

Um comentário: