sexta-feira, 3 de abril de 2026

Touch Me (EUA, 2025)

 

“Touch Me”, de Addison Heimann, o mesmo de "Hypochondriac", é o tipo de filme que abraça o absurdo e, justamente por isso, encontra um lugar muito particular dentro do terror queer. A história segue Joey (Olivia Taylor Dudley), uma jovem emocionalmente instável, e seu melhor amigo Craig (Jordan Gavaris), cuja relação codependente é abalada pela chegada de Brian ((Lou Taylor Pucci), um alienígena que transforma completamente a dinâmica entre eles. O que começa como estranhamento rapidamente vira obsessão, desejo e um mergulho desconfortável em tudo aquilo que eles tentavam evitar.

Heimann constrói o filme como um pesadelo psicossexual cheio de humor ácido e toques leves de body horror. Não é terror no sentido clássico, de sustos ou monstros escondidos, mas algo mais íntimo e perturbador. O “toque” do título vira metáfora para vício, necessidade emocional e fuga da dor. À medida que Joey e Craig se deixam envolver por Brian, o filme vai revelando camadas de trauma, ansiedade e solidão que nunca foram realmente enfrentadas. É um desconforto que mistura riso nervoso com identificação.

“Touch Me” aposta em uma estética meio lo-fi, meio delirante, que combina com a proposta. Os elementos de ficção científica não tentam parecer realistas, e isso funciona a favor da narrativa. O alien não é só uma presença externa, mas quase uma extensão dos desejos e fragilidades dos personagens. Há algo de grotesco, mas também de bonito, nessa forma como o filme mistura corpo, emoção e fantasia.

A representatividade queer não está nas margens, ela é o centro de tudo. Craig, interpretado por Gavaris, não é apenas “o amigo gay”, mas parte essencial dessa dinâmica afetiva caótica. A relação entre ele e Joey carrega aquela energia clássica de amizade queer-platônica, intensa e dependente, enquanto o triângulo com Brian abre espaço para uma sexualidade fluida e um modelo de relação que foge completamente da norma. O filme flerta com o poliamor, com o desejo não categorizado e com a ideia de que conexões afetivas podem ser tão destrutivas quanto libertadoras. Essa abordagem conversa diretamente com a proposta de Heimann de fazer um cinema de gênero que dialogue com experiências reais da comunidade LGBTQIA+.

O mais interessante é como o filme usa o exagero para falar de coisas muito reconhecíveis. Por trás do alien, dos tentáculos e do humor meio escatológico, existe uma história sobre pessoas que não sabem lidar com suas próprias emoções. A dependência entre Joey e Craig, por exemplo, é tão intensa que chega a ser sufocante. Brian entra como catalisador, mas o problema já estava ali antes. O terror, nesse sentido, não vem do outro, mas do que os personagens carregam.

“Touch Me” pode dividir opiniões, especialmente por sua recusa em ser mais “acessível”. Mas há uma honestidade no caos que torna a experiência marcante. Addison Heimann entrega um filme estranho, provocativo e profundamente ligado a uma sensibilidade queer que não busca aprovação. Entre o desconforto e a identificação, ele cria um espaço onde o exagero vira linguagem e onde a amizade, mesmo quando distorcida, continua sendo o que move tudo.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Pierce (刺心切骨, Singapura/Taiwan/Polônia, 2024)

"Pierce", de Neticia Low, é um thriller psicológico que se desenrola com a precisão de um golpe de esgrima, mas também com a imprevisibilidade de um confronto emocional entre irmãos. A história segue Zijie (Liu Hsiu-Fu), um jovem atleta disciplinado que vê sua rotina abalada com a volta do irmão mais velho, Zihan (Tsao Yu-Ning), recém-saído da prisão após matar um oponente durante uma luta. O reencontro, que poderia ser de reconciliação, rapidamente se transforma em um jogo tenso de influência, manipulação e desconfiança.

Low, que já foi esgrimista, filma esse universo com um olhar quase íntimo. A esgrima não aparece só como cenário, mas como linguagem do filme. Cada movimento, cada aproximação entre os personagens, carrega uma tensão física e psicológica. As máscaras, os uniformes, o silêncio antes do ataque, tudo contribui para essa sensação de que ninguém ali está completamente revelado. Há sempre algo escondido, calculado, esperando o momento certo de avançar.

O grande motor dramático está na relação entre os irmãos. Zihan surge como uma figura magnética e perigosa, alguém que mistura carisma e ameaça de um jeito difícil de decifrar. Ele se infiltra na vida de Zijie com uma presença que parece ao mesmo tempo protetora e corrosiva. Já Zijie oscila entre admiração e medo, como se estivesse preso em uma disputa que não sabe exatamente como enfrentar. Esse conflito é construído com paciência, sem pressa, deixando o desconforto crescer aos poucos.

É dentro desse ambiente tenso que surge a dimensão queer do filme, de forma surpreendentemente delicada. Zijie é gay, e desenvolve um crush tímido e sincero por Hui (Rosen Tsai), um colega de esgrima. O mais interessante é como isso é tratado: sem grandes revelações, sem drama excessivo, quase como qualquer primeiro amor. Zihan, inclusive, percebe rapidamente e incentiva o irmão, transformando o flerte em uma espécie de estratégia de combate. Já a mãe representa um silêncio mais incômodo, sugerindo negação ou recusa. Essa abordagem naturalista, alinhada ao contexto de Taiwan como um país mais progressista em relação aos direitos LGBTQIA+, dá ao filme uma leveza pontual que contrasta com o restante da narrativa.

Esse contraste é fundamental. Enquanto a relação entre os irmãos é marcada por controle, mentira e tensão, o afeto de Zijie por Hui oferece uma espécie de respiro emocional. Não é uma subtrama que domina o filme, mas funciona como contraponto, lembrando que ainda existe espaço para vulnerabilidade e descoberta em meio ao caos. Ao tratar esse romance sem transformá-lo em conflito central, Low reforça uma ideia simples, mas poderosa: histórias queer também podem existir fora do trauma.

“Pierce” é construído como um filme sobre confiança e máscaras, sobre aquilo que mostramos e aquilo que escondemos. Com uma direção segura e performances contidas, Nelicia Low cria um drama que prende não pelo excesso, mas pela tensão constante. Entre golpes calculados e sentimentos mal resolvidos, o filme encontra sua força justamente nesse equilíbrio entre dureza e delicadeza.


Simão do Deserto (Simón del Desierto, México, 1965)

“Simão do Deserto”, de Luis Buñuel, é um média-metragem que acompanha o eremita Simão (Claudio Brook), um homem que decide viver no topo de uma coluna no meio do deserto para se aproximar de Deus. De cima, ele tenta resistir às tentações do mundo, enquanto o Diabo (Silvia Pinal) aparece repetidamente, assumindo diferentes formas para testá-lo. O que começa como uma sátira religiosa logo se transforma em algo bem mais inquietante, quase um delírio sobre desejo, repressão e hipocrisia.

Buñuel não tem o menor interesse em tratar a fé com reverência. Pelo contrário, ele desmonta o misticismo como se estivesse arrancando suas camadas uma a uma. Simão, isolado e idolatrado, parece mais preocupado com sua própria imagem de santidade do que com qualquer transcendência real. A coluna onde ele vive, erguida no meio do nada, funciona quase como um símbolo fálico: uma tentativa de se elevar acima do corpo que, ironicamente, só torna esse corpo ainda mais presente. Quanto mais ele tenta negar o desejo, mais o desejo se infiltra em tudo.


E aí entra o Diabo de Silvia Pinal, a mesma atriz eternizada anos antes em Viridiana (1961) , que está simplesmente fascinante. Ela surge ora como uma mulher sensual, exibindo pernas, seios e uma feminilidade exagerada, ora como figuras mais andróginas, chegando até a assumir uma aparência masculina e barbada em determinado momento. Esse jogo de transformações bagunça completamente qualquer noção fixa de gênero ou moralidade. O Diabo não é só tentação sexual: ele é instabilidade pura, uma força que embaralha santo e pecador, masculino e feminino, sagrado e profano.


Dentro desse ambiente quase exclusivamente masculino, o filme deixa escapar um subtexto homoerótico curioso e desconfortável. A figura do jovem monge Matías (Enrique Álvarez Félix), imberbe, delicado e “arrumado demais”, desperta em Simão uma desconfiança que vai além da disciplina religiosa. Ao mandá-lo embora “até que lhe cresça a barba”, Simão revela um medo que não é só do pecado em geral, mas de um desejo específico que ele não consegue (ou não quer) nomear.


E não é só isso. O deserto de Simão do Deserto está longe de ser um espaço puro. Pelo contrário, ele é povoado por desejos desviantes, estranhos, até grotescos. Há o anão que fala das cabras de forma obscena, pequenas interações carregadas entre os homens, uma energia sexual difusa que parece escapar por todos os lados. O que Buñuel sugere, com seu humor ácido e surrealista, é que a repressão não elimina o desejo: ela só o deforma, empurrando-o para lugares inesperados e muitas vezes mais perturbadores.


“Simão do Deserto” termina sendo uma provocação deliciosa e incômoda. Buñuel não oferece respostas nem conforto, só expõe o quanto nossas tentativas de controlar o desejo são frágeis, às vezes ridículas. Entre o sagrado e o profano, ele sugere que talvez a maior farsa esteja justamente na ideia de pureza. E é nesse terreno instável, cheio de ambiguidade e desejo reprimido, que o filme continua vivo, estranho, atual e surpreendentemente queer.


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Mi Cielo, Tu Infierno (Cel meu infern teu, Espanha, 2026)

“Mi cielo, tu infierno” segue Adela (Tània Fortea) e Victoria (Sandra Cervera), duas mulheres que se apaixonam na Espanha dos anos 60 e 70, em pleno final do franquismo, quando o desejo entre pessoas do mesmo sexo era criminalizado e tratado como desvio moral. Dirigido por Alberto Evangelio, o filme constrói esse amor ao longo do tempo, atravessado por perseguições, silêncios forçados e separações dolorosas. Ainda assim, por mais que o mundo tente apagá-las, Adela e Victoria permanecem presas uma à outra, como se o afeto fosse a única coisa que resiste à violência histórica.

Evangelio, em seu segundo longa, opta por uma abordagem direta, sem grandes floreios estéticos ou sentimentalismo fácil. Há uma secura no modo como a história é contada que combina com o período retratado. A repressão não aparece como conceito abstrato, mas como algo concreto, cotidiano, que invade casas, famílias, religião e corpos. O roteiro de Noelia Martínez e Ana Piles evita romantizar o sofrimento, preferindo mostrar como o amor entre essas duas mulheres se constrói justamente sob pressão, entre medo constante e pequenos gestos de sobrevivência.

O título já entrega a ambiguidade central do filme. “Mi cielo, tu infierno” sugere que esse amor é ao mesmo tempo refúgio e condenação. Adela e Victoria encontram uma na outra um espaço de liberdade, mas também carregam as consequências desse vínculo em um mundo que não permite que ele exista. Essa tensão atravessa toda a narrativa, criando uma sensação de urgência emocional que nunca se resolve completamente. Amar, aqui, é também colocar-se em risco.

As duas protagonistas sustentam o filme com performances intensas e contidas. Tània Fortea constrói Adela com uma fragilidade que nunca vira fraqueza, enquanto Sandra Cervera dá a Victoria uma presença mais firme, quase desafiadora. Juntas, elas criam uma dinâmica que escapa de estereótipos fáceis. Não há idealização, nem pureza. Há desejo, frustração, ciúme, medo. Um relacionamento vivido em condições extremas, onde cada escolha tem peso.

O contexto histórico não é apenas pano de fundo, mas parte ativa do conflito. A Espanha franquista surge como um ambiente sufocante, onde Igreja, Estado e família operam como forças de controle. O filme se aproxima, em alguns momentos, de um thriller psicológico, especialmente quando a vigilância e a paranoia se intensificam. Essa camada adiciona tensão à narrativa e reforça a ideia de que o perigo não está apenas fora, mas também internalizado nas personagens.

Sem recorrer a grandes discursos, “Mi cielo, tu infierno” é um retrato duro e honesto de um amor sáfico em tempos de repressão. O filme aposta na memória como forma de resistência, mostrando que certos afetos não desaparecem, apenas mudam de forma ao longo do tempo. Ao acompanhar Adela e Victoria, Alberto Evangelio constrói uma história que dói sem manipular, que emociona e que encontra, na persistência do desejo, uma forma silenciosa de enfrentamento.

terça-feira, 31 de março de 2026

Lavender Men (EUA, 2024)

 

“Lavender Men” segue Taffeta (Roger Q. Mason), uma pessoa queer, negra, filipinx e plus-size que trabalha como stage manager em uma peça mambembe sobre Abraham Lincoln. Presa a um ambiente hostil, marcado por rejeição afetiva, racismo e violência estrutural, Taffeta passa a fabular uma realidade paralela onde convoca Abraham Lincoln (Pete Ploszek) e imagina um romance com o jovem soldado Elmer Ellsworth (Alex Esola). Dirigido por Lovell Holder, o filme mistura drama, comédia, fantasia histórica e um espírito meta-teatral que transforma o palco em campo emocional.

A estrutura é assumidamente caótica, alternando entre o teatro “real”, quase claustrofóbico, e a fantasia expansiva que Taffeta constrói para sobreviver. Essa oscilação não busca fluidez clássica, e sim um tipo de fricção constante entre presente e imaginação. O som recorrente de um tiro, evocando o assassinato de Lincoln, funciona como gatilho e ruptura, lembrando que toda fantasia nasce de uma ferida. Holder, filmando em apenas dez dias, com o elenco do espetáculo original, abraça essa urgência e transforma limitações em linguagem.

A engrenagem do filme está na performance de Mason, que carrega tudo com uma mistura rara de humor, raiva e fragilidade. Taffeta não é um protagonista fácil, nem quer ser. Ele interrompe a narrativa, invade cenas, assume papéis improváveis, de Mary Todd Lincoln a um lustre, transita entre gêneros, como se estivesse desesperadamente tentando ocupar todos os espaços que historicamente lhe foram negados. É uma atuação que transborda, às vezes até demais, mas nunca soa desonesta.

O gesto mais potente de “Lavender Men” está em sua proposta de reescrever a história como forma de sobrevivência. Ao imaginar Lincoln em uma relação homoerótica, o filme não está interessado em provar nada, mas em reivindicar o direito de fabular. Essa “fantasia gay sobre temas nacionalistas” ecoa tradições do teatro queer, refletindo sobre a ausência de corpos dissidentes na narrativa oficial americana. Ao mesmo tempo, o filme encara de frente questões como gordofobia, femmefobia e racismo dentro e fora da própria comunidade LGBTQIA+, sem suavizar o desconforto.

Nem tudo funciona o tempo inteiro. Há momentos em que o excesso de ideias deixa o ritmo irregular, e o caráter teatral pode soar limitador para quem espera uma linguagem mais cinematográfica. Algumas cenas parecem mais interessantes conceitualmente do que na prática. Ainda assim, essa irregularidade faz parte do projeto. “Lavender Men” não quer ser polido nem acessível demais. Ele exige do espectador uma entrega parecida com a de Taffeta, meio desajeitada, meio intensa, mas completamente intensa.

O filme é uma obra profundamente pessoal e provocativa. Entre o delírio e a dor, “Lavender Men” encontra um lugar próprio ao transformar imaginação em ferramenta política e emocional. É um cinema que irradia criatividade, e mesmo tropeçando, deixa marcas fortes ao insistir que recontar o passado também é uma forma de reinventar o presente.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Una Perra Andaluza (Espanha, 2024-2025)

“Una perra andaluza”, criada e dirigida por Pablo Tocino, é daquelas séries que parecem surgir meio por acidente, como uma ideia maluca que ninguém esperava que fosse dar certo, mas deu. Estreada em 2024 e dividida até agora em duas temporadas, a produção, definida como uma dramarachada (dramédia + mamarachada) acompanha um grupo de jovens em Sevilha tentando sobreviver à própria juventude sem muito glamour e com ainda menos dinheiro. Sofía, Samu, Tamara, Marcos, Sylvia e Judit são, cada um à sua maneira, versões contemporâneas de gente perdida, meio fodida emocionalmente e tentando fazer algum sentido da vida entre sexo, amizade, frustração e ressaca.

A primeira temporada tem aquele charme caótico de quem não tem nada a perder. São episódios curtos, quase como recortes de um cotidiano bagunçado, onde Marcos descobre seus desejos se apaixonando pelo melhor amigo hétero, Sofía começa a se cansar de um relacionamento “certinho” demais, e Samu simplesmente se joga na noite e nos aplicativos como se não houvesse amanhã. Tudo é muito direto, às vezes até bruto, com diálogos que parecem improvisados e situações que beiram o desconforto. E é justamente aí que a série encontra sua voz, nessa mistura de humor ácido, vergonha alheia e verdade.

O lado queer aparece de forma completamente natural, sem aquela cara de “representatividade calculada”. Tem personagem gay, trans, gente experimentando, errando, desejando, tudo dentro de um universo onde ninguém está plenamente resolvido. Sylvia, por exemplo, chega de Madri e precisa se reencaixar em Sevilha, enquanto Marcos vive o clássico drama de amar quem não pode. Mas nada disso vira discurso. A série prefere mostrar do que explicar, e isso faz com que tudo soe mais vivo, mais próximo, mais honesto e literalmente, mais nu.

A segunda temporada, lançada em 2025, pega esse mesmo caos e dá uma leve organizada, sem perder a sujeira que faz tudo funcionar. O slogan “envelhecer é uma coisa suja” resume bem o espírito. Os personagens continuam perdidos, mas agora com um pouco mais de consciência do próprio desastre. Samu volta para Huelva e encara outras camadas de si mesmo, Tamara e Judit cruzam caminhos de um jeito interessante, e Marcos finalmente enfrenta suas primeiras experiências com uma mistura de ansiedade e ternura. A série ganha ritmo, as piadas funcionam melhor e os conflitos ficam mais densos.

Tecnicamente, continua longe de qualquer padrão “polido”, e isso é quase um manifesto. A estética DIY, os apartamentos meio feios, a luz irregular, tudo contribui para um retrato muito específico de uma juventude precarizada que raramente aparece com essa franqueza na televisão. Em vez de esconder as limitações, “Una perra andaluza” abraça o improviso e transforma isso em linguagem. E quando funciona, funciona muito, porque há um senso de verdade nas atuações e nos diálogos que compensa qualquer falha.

Olhando as duas temporadas, o que fica é a sensação de estar assistindo algo vivo, em constante construção, meio desajeitado, mas cheio de personalidade. “Una perra andaluza” não tenta agradar todo mundo, nem fazer concessões para parecer mais “aceitável”. Ela aposta no exagero, no desconforto e no afeto torto entre seus personagens para construir um retrato geracional que mistura desejo, solidão e vontade de existir de algum jeito. Pode ser irregular, pode até irritar em alguns momentos, mas é difícil sair ileso dessa energia crua que a série insiste em jogar na tela.

sábado, 28 de março de 2026

A Mulher mais Rica do Mundo(La Femme la Plus Riche du Monde, França/Bélgica, 2025)

“A Mulher mais Rica do Mundo” segue Marianne Farrère (Isabelle Huppert), uma senhora bilionária, cuja fortuna colossal atrai não apenas a cobiça familiar, mas também a presença magnética de Pierre-Alain (Laurent Lafitte), um artista gay mais jovem que passa a ocupar um lugar cada vez mais íntimo em sua vida. Dirigido por Thierry Klifa, o filme articula uma relação ambígua e fascinante, na qual Marianne doa centenas de milhões de euros ao artista, desencadeando tensões que atravessam desejo, afeto, manipulação e poder. Livremente inspirado no escândalo Bettencourt, o roteiro transforma o vínculo entre esses dois personagens no eixo emocional e político da narrativa.

Klifa constrói sua protagonista como uma figura simultaneamente opaca e magnética, e Huppert, em mais uma atuação de precisão quase clínica, sustenta cada nuance dessa mulher que parece oscilar entre lucidez e entrega. Marianne não é apenas uma herdeira cercada por interesses, mas alguém que encontra em Pierre-Alain uma espécie de espelho tardio, uma chance de reconfigurar suas próprias formas de afeto. O artista, por sua vez, interpretado por Lafitte com ambiguidade calculada, nunca se deixa reduzir a um oportunista ou a uma vítima, habitando um território instável onde carisma e cálculo se confundem.

É nesse espaço que “A Mulher mais Rica do Mundo” revela seus aspectos queer mais instigantes. A presença de Pierre-Alain é estruturante, e sua identidade gay atravessa a narrativa de forma explícita, seja nas sequências ambientadas em bares gays, seja nas referências culturais que orbitam seu universo ou em seus romances casuais. Mais do que isso, o filme explora a aceitação ativa de Marianne, que não apenas reconhece a identidade do artista, mas a acolhe e a defende.

A escolha de inserir esse eixo queer em uma história inspirada em um escândalo real não é trivial. Ao reimaginar o caso Bettencourt com a inclusão de um personagem gay como figura central, Klifa desloca o foco da simples disputa por herança para um campo mais complexo de afetos e identidades. O dinheiro, nesse contexto, deixa de ser apenas um instrumento de poder e passa a operar como mediador de vínculos frágeis, onde dar e receber se confundem com formas de pertencimento e validação.

O filme aposta em um tom que equilibra comédia dramática e crítica social, sem abrir mão de uma elegância visual que reforça o contraste entre opulência e solidão. Há uma ironia sutil na maneira como os espaços luxuosos são filmados, quase sempre esvaziados de calor humano, enquanto os ambientes queer surgem como territórios de pulsação e risco. Essa oposição, longe de ser caricatural, evidencia a busca de Marianne por algo que sua fortuna jamais pôde comprar.

Indicado à Queer Palm no Festival de Cannes 2025, “A Mulher mais Rica do Mundo” interroga o poder através de relações desviantes e afetos não normativos. Klifa encontra, nesse encontro improvável entre uma bilionária e um artista gay, uma matéria dramática rica o suficiente para questionar convenções e expor fragilidades. O resultado é um filme que seduz pela superfície sofisticada, mas que permanece reverberando por aquilo que revela sobre solidão, desejo e as formas inesperadas de reconhecimento.



quinta-feira, 26 de março de 2026

El Último Arrebato (Espanha, 2025)

“El último arrebato”, dirigido por Marta Medina e Enrique López Lavigne,revisita o mito de “Arrebato” e de seu criador, Iván Zulueta, uma das figuras mais enigmáticas do cinema espanhol. Longe de assumir o formato clássico de biografia documental, o filme é uma investigação sobre o fascínio que a obra de Zulueta ainda exerce. O ponto de partida é simples, tentar entender como um filme incompreendido em seu lançamento acabou se tornando uma das obras de culto mais importantes da história do cinema espanhol.

Medina e López Lavigne evitam a estrutura convencional de entrevistas e depoimentos organizados cronologicamente. Em vez disso, constroem um objeto híbrido, situado entre documentário, ensaio e ficção. A narrativa é como um jogo de camadas, quase como bonecas russas, em que o passado do cineasta, as imagens de “Arrebato” e o próprio processo de filmagem se misturam.

O documentário também revisita a figura de Zulueta como um artista maldito. Quando “Arrebato” estreou, sua proposta radical foi recebida com estranhamento e acabou fracassando comercialmente. Com o tempo, no entanto, a obra foi redescoberta e passou a ser vista como um dos filmes mais ousados surgidos durante a transição espanhola. O próprio destino do diretor parece espelhar essa narrativa trágica, já que sua vida foi marcada pelo isolamento e pela dependência de heroína, circunstâncias que contribuíram para seu desaparecimento gradual da cena cinematográfica.

Entre os elementos mais interessantes do filme está a participação de colaboradores e amigos que ajudam a reconstruir esse universo. Figuras como Eusebio Poncela, Cecilia Roth e Jaime Chávarri aparecem para lembrar o ambiente criativo que cercou “Arrebato”. Em vez de meros depoimentos ilustrativos, suas presenças funcionam quase como reencenações da memória, recriando o clima de mistério que sempre envolveu Zulueta.

Há ainda um aspecto metalinguístico que atravessa todo o filme. Em vários momentos, os próprios diretores entram em cena e passam a fazer parte da narrativa, revelando dúvidas, frustrações e impasses do processo criativo. Esse gesto aproxima o documentário do espírito autoficcional contemporâneo, onde a linha entre observador e objeto observado se torna cada vez mais instável. Ao se deixar contaminar pelo universo de Zulueta, o filme sugere que o fascínio por “Arrebato” não é apenas histórico, mas também algo que continua a afetar quem se aproxima de sua obra.

“El último arrebato” não tenta resolver o enigma de Iván Zulueta, e talvez esteja justamente aí sua potência. O documentário prefere habitar esse território de obsessão e fascínio, aceitando que certos artistas permanecem indecifráveis. Mais do que um retrato definitivo, o documentário funciona como uma carta de amor ao cinema enquanto vício, como uma experiência que pode consumir quem se aproxima demais de sua intensidade. O verdadeiro legado de Zulueta não é apenas um filme cult, mas a ideia de que o cinema pode ser uma forma de desaparecimento dentro da própria imagem.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Remember I Am Dead (Espanha, 2024)

“Remember I Am Dead”, de Noel Alejandro, é uma experiência que se infiltra lentamente sob a pele,  menos um filme sobre fantasmas e mais uma meditação erótica sobre presenças que insistem em não desaparecer. Com 56 minutos, o trabalho reafirma o cineasta como um dos nomes mais inquietos surgidos na interseção entre o cinema autoral e o cinema adulto, onde o desejo nunca é gratuito, mas sempre carregado de memória.

Na calada da noite, em uma paisagem rural quase suspensa no tempo, acompanhamos Sagat, um fazendeiro de 31 anos, caminhando por um cemitério esquecido, uma imagem que já anuncia o tom elegíaco do filme. Ao amanhecer, a aparição de Roman, um enigmático homem de 29 anos, na sala austera de sua casa, inaugura uma narrativa que não se organiza pela lógica, mas pelo afeto e pela estranheza. Interpretados por Pierre Emö e Brandon Jones (também conhecido como Jonzu), os personagens se movem como se compartilhassem uma memória que o espectador nunca acessa completamente, e é justamente nesse vazio que o filme encontra sua força.

Alejandro constrói sua mise-en-scène como um sussurro: silenciosa, rarefeita, quase espectral. A sensação de familiaridade inexplicável que liga Sagat e Roman não busca resolução; ao contrário, o filme insiste no mistério como linguagem. Por que Roman está ali? O que os une? Em vez de respostas, “Remember I Am Dead” oferece um estado de suspensão emocional, onde passado e presente se contaminam continuamente, criando uma atmosfera em que o tempo parece dissolvido.

Descrito como um “abraço morno tingido de solidão melancólica”, o filme traduz essa ideia com rigor formal. Há algo profundamente íntimo na forma como os corpos são filmados, não como objetos de desejo imediato, mas como arquivos vivos de experiências, perdas e fantasmas. Alejandro, conhecido por suas narrativas não convencionais dentro do cinema adulto, aqui radicaliza sua proposta ao esvaziar o erotismo de sua função mais evidente, transformando-o em vestígio, em eco, em algo que resiste.

Um dos elementos mais fascinantes é o uso do som  ou melhor, da ausência dele. A trilha sonora, funciona quase como uma anti-trilha, reforçando o silêncio e ampliando a sensação de desamparo. Esse vazio sonoro não apenas intensifica o caráter fantasmagórico da obra, mas também desloca o espectador para dentro de uma experiência sensorial onde cada gesto, cada respiração, ganha peso dramático.

“Remember I Am Dead” oferece uma jornada introspectiva sobre desaparecimento, memória e a natureza assombrosa do que não pode ser resolvido. É um trabalho que redefine o gênero dos mortos-vivos ao abandonar o horror explícito e abraçar uma melancolia persistente. Uma experiência erótica, bela e profundamente assombrada.


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terça-feira, 24 de março de 2026

Visita de Mudança (Jimpa, Austrália/Países Baixos/Finlândia, 2025)

"Jimpa", de Sophie Hyde, parece um gesto pequeno mas gigante em emoção. A diretora, conhecida por seu olhar sensível em obras como “Boa Sorte, Leo Grande”, retorna aqui a um território mais íntimo, cruzando memória, identidade e pertencimento queer em uma narrativa que se constrói a partir de encontros geracionais. A história segue uma mãe levando Frances, filhe não binárie, para visitar o avô gay, em Amsterdã.

No centro da história está a relação entre três figuras: uma pessoa jovem em processo de descoberta, sua mãe e o avô, Jimpa, cuja presença funciona quase como um eixo gravitacional. Interpretado por Olivia Colman, John Lithgow e Aud Mason-Hyde, o trio forma um núcleo dramático intenso. Colman entrega mais uma performance precisa, equilibrando fragilidade e controle, enquanto Lithgow, que já brilhou em "Love is Strange", de Ira Sachs, constrói um Jimpa carismático, mas também atravessado por contradições. 

A construção do filme acompanha essa delicadeza. Hyde opta por uma design de produção naturalista, com câmera próxima aos corpos e aos silêncios, permitindo que gestos mínimos ganhem peso dramático. Não há pressa em “explicar” os personagens; o filme prefere observá-los, como se estivesse escutando memórias sendo reorganizadas em tempo real. 

“Jimpa” não se limita a identidade ou representação queer direta, mas se infiltra na própria estrutura da narrativa. O filme discute herança LGBTQIA+ como algo vivido, transmitido e também tensionado entre gerações. Jimpa, como figura de uma geração anterior, carrega experiências que dialogam com um passado de luta e invisibilidade, enquanto a jovem protagonista encarna um presente onde outras possibilidades de existência parecem mais acessíveis, ainda que não menos complexas. 

Há, ainda, um interesse claro da diretora em explorar a ideia de família para além de estruturas normativas. As relações em “Jimpa” são marcadas por afeto, mas também por ruídos, incompreensões e silêncios que nunca se resolvem completamente. Esse é um dos maiores méritos do filme: recusar o óbvio. Ao invés de oferecer o definitivo, Hyde prefere manter seus personagens em um estado de busca contínua.

Se há fragilidades, elas surgem justamente dessa aposta no minimalismo. Em alguns momentos, o ritmo contemplativo pode se aproximar da estagnação. Ainda assim, essas escolhas parecem coerentes com a proposta do filme, que privilegia sensações sobre conclusões. “Jimpa” é uma obra sensível e sofisticada, sustentada por um elenco estelar e por uma direção que entende o cinema como espaço de escuta, um lugar onde o passado e o presente queer podem coexistir, dialogar e, sobretudo, continuar sendo reinventados.

Trans Memoria (Suécia/França, 2024)

 

“Trans Memoria” nasce de uma necessidade profundamente pessoal. O documentário acompanha a própria diretora, Victoria Verseau, em um processo de revisitar sua transição enquanto lida com o luto pela perda de uma amiga próxima. Ao lado de Athena e Aamina, também mulheres trans em diferentes momentos de suas jornadas, o filme constrói uma espécie de diário coletivo, onde passado, presente e futuro se misturam em conversas, deslocamentos e lembranças fragmentadas.

O que mais chama atenção logo de início é o modo como o filme rejeita uma estrutura tradicional. Não há uma narrativa linear clara, nem uma progressão dramática convencional. Em vez disso, Verseau aposta em uma construção mais sensorial, onde a memória funciona como eixo organizador. As cenas parecem surgir como lembranças soltas, às vezes íntimas, às vezes quase abstratas, criando uma experiência que exige entrega do espectador. Não é um filme que guia, é um filme que convida a sentir.

Essa escolha estética se reflete diretamente na forma como os corpos são filmados. Há um olhar muito atento à materialidade da experiência trans, não como espetáculo, mas como algo vivido, sentido e, muitas vezes, revisitado com dor e carinho ao mesmo tempo. A câmera se aproxima, observa, respeita. Existe uma tentativa clara de capturar não apenas quem essas mulheres são hoje, mas quem foram e quem ainda estão se tornando. É um cinema que trabalha na instabilidade da identidade, sem tentar fechá-la em definições.

A relação entre memória e luto é outro eixo forte. A ausência da amiga que não está mais presente atravessa o filme de maneira constante, como um fantasma que reorganiza todas as outras experiências. “Trans Memoria” entende que lembrar também é um ato político, especialmente para corpos historicamente apagados. Ao revisitar o passado, o filme não busca apenas reconstruir uma trajetória individual, mas também preservar histórias que frequentemente são interrompidas ou silenciadas.

O documentário é particularmente potente por fugir de qualquer lógica explicativa ou pedagógica. Não há tentativa de “traduzir” a experiência trans para um público externo. O filme parte do pressuposto de que essas vivências já têm valor em si mesmas. Ao colocar mulheres trans conversando, rindo, lembrando e existindo juntas, ele constrói um espaço de intimidade raro no cinema. Mais do que falar sobre identidade, o filme mostra o que significa compartilhar existência, afeto e memória dentro de uma comunidade.

A ausência de uma narrativa mais definida e o ritmo contemplativo tornam a experiência menos acessível, especialmente para quem busca uma história mais direta. Ainda assim, é justamente nessa recusa em simplificar que “Trans Memoria” triunfa. O filme não tenta ser universal, e talvez por isso seja tão específico e verdadeiro. Ele funciona como um gesto de preservação, um registro sensível de vidas que insistem em existir, lembrar e se transformar, mesmo quando o mundo ao redor tenta apagá-las.

domingo, 22 de março de 2026

TOP 10 MARCO BERGER

Marco Berger é um dos nomes mais consistentes e reconhecíveis do cinema queer contemporâneo na América Latina. Desde o final dos anos 2000, o diretor argentino construiu uma filmografia centrada no desejo masculino, especialmente naquele que se manifesta em zonas de ambiguidade. O que interessa a Berger é o jogo, o olhar, o tempo dilatado entre  homens que orbitam um ao outro sem necessariamente nomear o que sentem. Berger sempre se manteve fiel a um modelo de produção independente. Isso não apenas garantiu liberdade criativa, como também contribuiu para a intimidade de seus filmes. É justamente nessa recusa em oferecer o óbvio que sua obra se torna tão potente dentro do cinema queer, especialmente ao inquietar masculinidades e expor as fissuras do comportamento padronizado.


10 - Los Agitadores (Argentina, 2022)

Um grupo de amigos passa o verão entre festas, conversas e jogos de sedução. Berger aqui radicaliza sua proposta, quase abandonando a narrativa tradicional em favor de uma experiência sensorial.

09 - Mariposa (Argentina, 2015)

Um exercício narrativo ousado que acompanha um casal em diferentes realidades possíveis. Ao brincar com linhas do tempo paralelas, Berger investiga como o acaso molda as relações afetivas. 


08 - Plan B (Argentina, 2009)

Bruno decide se aproximar do novo namorado de sua ex com um plano em mente. O que começa como manipulação evolui para algo mais complexo. Um dos primeiros filmes de Berger, já trazendo sua marca registrada: o desejo que surge onde não era esperado.


07 - Taekwondo (Argentina, 2016)

Um grupo de amigos divide uma casa de veraneio, criando um ambiente de convivência masculina carregado de tensão erótica. Berger explora o corpo masculino com uma naturalidade rara, transformando gestos cotidianos em pura provocação.


06 - Os Amantes Astronautas (Argentina, 2024)

Dois amigos viajam juntos e passam a lidar com sentimentos que nunca haviam sido verbalizados. O filme retoma temas clássicos do diretor, mas com um olhar mais maduro sobre o tempo, o afeto e as oportunidades perdidas.


05 - El Cazador (Argentina, 2020)

Um adolescente se envolve com um homem mais velho em uma relação marcada por desejo e perigo. Aqui, Berger flerta com o thriller, criando uma atmosfera mais densa sem abandonar sua abordagem sensorial do erotismo.


04 - Hawaii (Argentina, 2013)

Dois homens se reencontram durante o verão, trazendo à tona memórias e sentimentos não resolvidos. Um dos filmes mais delicados do diretor, onde o passado pesa tanto quanto o desejo presente.


03 - Perro Perro (Argentina, 2025)

Em seu trabalho mais recente, Berger refina ainda mais sua investigação sobre masculinidade e desejo. O filme aposta em relações ambíguas e jogos de poder, reafirmando seu interesse por personagens que nunca dizem exatamente o que sentem.


02 - Un Rubio (Argentina, 2019)

Um homem hétero divide apartamento com um colega de trabalho gay, e a convivência transforma lentamente essa dinâmica. Berger constrói aqui um dos seus estudos mais precisos sobre desejo reprimido e masculinidade em crise.


01 - Ausente (Argentina, 2011)

Um adolescente desenvolve uma obsessão por seu professor, criando uma tensão constante entre inocência e manipulação. Talvez o filme mais emblemático de Berger, onde sua linguagem encontra um equilíbrio perfeito entre narrativa, erotismo e inquietação. Ganhador do Teddy, no Festival de Berlim.

Encerrar uma lista de Marco Berger é entender que sua filmografia não se resume a finais felizes ou tragédias retumbantes, mas à celebração do corpo masculino. Através de sua lente, a masculinidade deixa de ser apenas rústica para se tornar algo poroso, atravessado por dúvidas, medos e uma vulnerabilidade que o cinema heteronormativo não mostra.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Perro Perro (Argentina, 2025)

Em “Perro Perro”, Marco Berger radicaliza um conjunto de obsessões que atravessam sua filmografia, transformando o desejo em uma fábula abertamente absurda. A premissa beira o surrealismo: Juan (Germán Flood) encontra um homem que vive como um cachorro e decide acolhê-lo, cuidando dele com carinho, alimentação e intimidade crescente. A partir desse ponto de partida, o filme abandona qualquer compromisso com o realismo para mergulhar em um território alegórico onde o comportamento humano é reconfigurado por impulsos primários, instaurando uma narrativa que tensiona constantemente os limites entre o instinto e a construção social.

Berger utiliza o convívio entre Juan e esse “homem-cão” para investigar dinâmicas de poder, dependência e afeto. O gesto de cuidar, que inicialmente parece generoso, revela progressivamente ambiguidades inquietantes: há ternura, mas também controle; há desejo, mas também domesticação. Essa ambivalência é central para o filme, que nunca oferece respostas fáceis sobre a natureza dessa relação, preferindo explorar suas zonas de desconforto. 

Esteticamente, “Perro Perro” marca uma inflexão interessante dentro da obra do diretor. Filmado em preto e branco, o longa aposta em uma mise-en-scène depurada, com enquadramentos que enfatizam corpos, gestos e proximidades físicas do homem cão que está sempre nu. Esse visual contribui para uma sensação de suspensão temporal, como se a história existisse em um espaço fora da realidade cotidiana. Ao mesmo tempo, o minimalismo dialoga com o absurdo, criando um contraste produtivo entre a sobriedade da imagem e a estranheza da situação. 


No centro do filme está a performance de Juan Ramos, cujo trabalho corporal é essencial para sustentar a proposta. Sem dizer uma única palavra, ele constrói um "cachorro" que comunica solidão e devoção através do olhar e do movimento, provocando uma reação instintiva no espectador. Do outro lado, Germán Flood personifica a obsessão cuidadora, criando uma dinâmica que oscila entre o afeto paternalista e o homoerotismo latente. É uma dança perigosa que nos faz perguntar: quem é o verdadeiro animal na busca por preencher o vazio existencial?

Berger utiliza a alegoria para explorar formas de desejo que escapam às normatividades, deslocando categorias fixas de identidade e relacionamento flertando com a prática do pet-play. Mais do que representar uma relação homoerótica, o filme investiga a própria construção do desejo, sugerindo que ele é moldado por instintos, projeções e estruturas de poder. É Berger em sua forma mais provocadora e sensorial, usando o humor ácido para mascarar uma tragédia sobre o isolamento e as formas bizarras que inventamos para nos sentirmos amados.

Ao fim, o que fica é a sensação de que Marco Berger fez algo diferente aqui e atingiu um novo patamar de liberdade criativa. Flertando com o universo de João Pedro Rodrigues, ele não precisa mais das desculpas de "brotheragem” para explorar o desejo; ele cria suas próprias regras em um mundo onde a pele fala mais que a língua. "Perro Perro" é um experimento incômodo e brilhante que reafirma o diretor argentino como o grande cartógrafo do desejo queer contemporâneo, provando que, às vezes, é preciso latir para finalmente ser.