“Dinner with Friends”, estreia em longas de Sasha Leigh Henry, parte de uma premissa perfeitamente conhecida: oito amigos na faixa dos trinta e poucos anos tentando preservar vínculos enquanto a vida adulta lentamente implode qualquer ilusão de estabilidade. O que poderia virar apenas mais um drama millennial sobre brunches e crises afetivas acaba se revelando um retrato surpreendentemente honesto sobre amizade, ressentimento e o desgaste silencioso do tempo.
Mesmo que fique difícil de não relacionar com os filmes “Perfeitos Desconhecidos, Henry entende algo fundamental sobre relações adultas: o verdadeiro conflito raramente explode de uma vez. Ele se acumula em pequenos silêncios, mensagens ignoradas em grupos de WhatsApp, ressentimentos antigos e dinâmicas que ninguém tem coragem de confrontar diretamente. O filme trabalha justamente nessa zona desconfortável entre carinho genuíno e exaustão emocional. Joy (Tattiawna Jones), cansada de carregar sozinha o peso afetivo das reuniões, acaba funcionando como epicentro dessa implosão gradual.
O grande mérito do roteiro escrito por Sasha Leigh Henry e Tania Thompson está na maneira como distribui atenção entre os personagens sem transformar nenhum deles em arquétipo simplista. Todos parecem estar vivendo versões diferentes do mesmo medo: perceber que talvez suas vidas adultas não tenham se tornado aquilo que imaginavam.
Dentro desse mosaico afetivo, a presença do casal gay Ty (Michael Ayres) e Josh (Leighton Alexander Williams) se destaca justamente pela naturalidade. “Dinner with Friends” não transforma os personagens queer em símbolo de diversidade decorativa. Eles fazem parte organicamente daquele grupo, compartilhando inseguranças semelhantes às dos casais heterossexuais, mas também atravessados por questões específicas sobre envelhecimento queer, liberdade e pertencimento. Existe algo muito bonito como o filme insere personagens negros e gays dentro de uma narrativa cotidiana sobre amizade adulta sem precisar justificar constantemente sua existência.
O tom é de espetáculo. Algumas cenas de mesa são filmadas quase como peças teatrais contemporâneas, com diálogos rápidos e interrupções constantes que reforçam a sensação de convivência real. O filme foi rodado em apenas nove dias e com orçamento reduzido, mas transforma essa limitação em linguagem: tudo parece apertado, improvisado e emocionalmente saturado, como a própria vida adulta.
“Dinner with Friends” funciona menos como um filme sobre jantares e mais como um filme sobre luto, o luto pelas versões mais jovens de nós mesmos e pelas amizades que tentamos desesperadamente preservar enquanto tudo ao redor muda. Sasha Leigh Henry entrega uma obra delicada, engraçada e dolorosamente reconhecível, interessada não em grandes revelações dramáticas, mas nos pequenos desgastes que lentamente redefinem nossas relações.
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