terça-feira, 19 de maio de 2026

Mother Mary (EUA/Alemanha/Irlanda/Finlândia, 2026)

“Mother Mary”, escrito e dirigido por David Lowery, existe entre o delírio pop e a sessão espírita. Depois de anos transitando entre fantasia, luto e espiritualidade em obras como A “ The Green Knight", Lowery retorna com seu trabalho mais excessivo e talvez mais divisivo: um melodrama psicológico sobre fama, criação artística e vínculos que sobrevivem ao rompimento. A história segue Mother Mary (Anne Hathaway), uma estrela pop em colapso que reaparece na vida de Sam Anselm (Michaela Coel), sua ex-colaboradora e estilista, exigindo que ela crie o figurino para um grande retorno. O que começa como reencontro profissional rapidamente se transforma numa investigação sobre ressentimento, dependência emocional e a violência silenciosa que existe em criar algo junto.

Lowery trata o estrelato como religião. Mary entra em cena envolta por auréolas, referências católicas, iconografia sacra e canções que confundem adoração romântica com transcendência espiritual. O filme sugere que o pop contemporâneo transformou celebridades em entidades quase divinas, obrigadas a alimentar continuamente uma imagem que já não pertence a elas.Mother Mary” funciona como um filme sobre exaustão performática: uma mulher tentando descobrir se ainda existe algo dela por trás do personagem que construiu.


Esteticamente, é um dos trabalhos mais barrocos de Lowery. Concertos grandiosos convivem com interiores quase teatrais, enquanto a narrativa mergulha aos poucos em horror psicológico, fantasia espectral e surtos visuais que lembram tanto videoclipes quanto pesadelos. A trilha original, construída com contribuições de nomes como Charli XCX, Jack Antonoff e FKA twigs,e interpretada pela própria Hathaway, ajuda a sustentar essa atmosfera de espetáculo emocional permanente.

No centro disso tudo está a dupla Anne Hathaway e Michaela Coel. Hathaway entende que Mary não pode ser interpretada como pessoa comum: ela atua como alguém que desaprendeu a existir sem plateia. Já Coel entrega o contraponto mais humano do filme, transformando Sam numa mulher que carrega o ressentimento de quem ajudou a criar um ícone e foi deixada para trás.

É justamente aqui que surge sua dimensão queer, talvez a mais interessante do filme. “Mother Mary” nunca nomeia explicitamente sua relação central como romance, mas trabalha continuamente numa zona de intimidade emocional, obsessão criativa e desejo sublimado entre mulheres que remete “As Lágrimas Amargas de Peter Von Kant”, do mestre Rainer Fassbinder. Uma pulsação sáfica e homoafetiva atravessao vínculo entre Mary e Sam, transformando o filme numa história sobre colaboração artística que se confunde com amor não resolvido. A presença de Hunter Schafer e FKA twigs amplia ainda mais esse imaginário de feminilidade performática, identidade mutável e corpos que escapam de leituras fixas. 


“Mother Mary” talvez não seja um filme para amar imediatamente. É excessivo, autoconsciente e frequentemente desorientador. Mas também é um dos trabalhos mais pessoais e arriscados de David Lowery, que reproduz uma sensação:  a de perceber que certas relações nunca terminam completamente, apenas mudam de forma e continuam nos assombrando. Entre figurinos, canções e fantasmas emocionais, “Mother Mary” encontra um melodrama sobre arte que entende que toda colaboração profunda deixa rasgos.

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