Se existe um momento em que Almodóvar leva sua estética kitsch ao limite absoluto, provavelmente é aqui. “Kika", vivida por Verónica Forqué, parece um laboratório visual onde nada precisa obedecer ao bom gosto. Os figurinos desenhados por Jean Paul Gaultier para Andrea Caracortada, a repórter sensacionalista interpretada por Victoria Abril, convivem com referências associadas ao imaginário extravagante dos anos 1990 e com contribuições visuais relacionadas ao universo de Gianni Versace. O resultado é um carnaval pop onde cada ambiente parece existir para competir com o anterior. Mas seria injusto reduzir isso ao excesso decorativo. Há um rigor enorme na encenação, na composição dos planos e no uso da cor. Por trás do aparente caos existe um diretor absolutamente consciente do que está enquadrando.
Narrativamente, “"Kika"”segue a maquiadora homônima e funciona quase como o “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock, particular de Almodóvar. Todo mundo observa alguém. Todo mundo invade a vida do outro. Câmeras, janelas, programas de televisão e olhares atravessam continuamente a narrativa. O personagem Nicolas transforma o mundo em objeto de contemplação artística enquanto Andrea converte sofrimento em entretenimento. Nesse sentido, o filme antecipa discussões que hoje parecem assustadoramente atuais sobre espetacularização da dor, exploração midiática e consumo compulsivo da intimidade. O programa “Lo peor del día”, patrocinado pela "Leche La Real", conduzido por Andrea usando sua câmera acoplada ao figurino, continua sendo uma das invenções mais brilhantes e agressivas do diretor: um verdadeiro show de horrores que satiriza a televisão sensacionalista muito antes do colapso definitivo entre vida privada e conteúdo.
Também é impossível falar de “"Kika"” sem reconhecer seus pontos mais difíceis. O filme aborda violência sexual, fetichização e humor de maneiras que geram desconforto real hoje. O personagem Paul Bazzo, por exemplo, concentra um tipo de provocação verbal e construção caricatural que opera dentro de um jogo de linguagem e trocadilhos muito específico do espanhol e que certamente seria recebido de maneira muito diferente no presente.
Dentro desse excesso, há também um lado profundamente afetivo e queer que muitas vezes passa despercebido. Juana carrega uma energia dissidente dentro daquele universo de personagens deslocados, enquanto a presença de Bibi Andersen, hoje reconhecida como uma das figuras históricas da cultura trans espanhola, adiciona outra camada ao projeto almodovariano de expansão dos corpos e identidades na tela. Sua interpretação de “Luz de luna”, de Chavela Vargas, produz um daqueles momentos típicos do diretor em que tudo para por alguns instantes e o exagero dá lugar a uma emoção inesperada. Até a breve participação de Paquita, mãe de Almodóvar, reforça esse sentimento de cinema doméstico, quase familiar, escondido por trás do escândalo.
“"Kika"” talvez não seja o maior filme de Pedro Almodóvar, nem o mais elegante, nem o mais equilibrado. Mas existe algo profundamente autêntico nele. É uma obra feita num momento em que o diretor ainda permitia que o mau gosto, o desejo e a provocação disputassem espaço com sua crescente sofisticação e maturidade. O filme às vezes erra, às vezes exagera e às vezes parece perder completamente o controle, mas justamente por isso continua vivo. Em sua mistura de fotonovela, melodrama, televisão trash e erotismo absurdo, “"Kika"” permanece como um retrato de um cineasta no auge da coragem de experimentar.


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