quinta-feira, 11 de junho de 2026

Llueve sobre Babel (Colômbia, 2025)

Gala del Sol estreia em “Llueve sobre Babel” com uma obra que parece ter escapado de um sonho febril, ou de uma pista de dança entre a vida e a morte. Inspirado livremente em “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, o longa transforma um decadente bar de Cali, na Colômbia, em uma espécie de purgatório tropical onde almas apostam anos de suas vidas contra a própria Morte. Entre realismo mágico, fantasia, humor ácido e melodrama queer, a diretora constrói um universo singular, tão excessivo quanto fascinante.

Gala del Sol define sua estética como “trópico-punk retrofuturista”, e cada plano parece abraçar essa proposta sem medo do exagero. Neons, fumaça, suor, figurinos camp, elementos steampunk e uma fotografia vibrante, de Sten Tadashi Olson, criam uma atmosfera que oscila entre o cabaré, o sci-fi e o folclore latino-americano. O resultado é um espetáculo visual que frequentemente coloca a experiência sensorial acima da lógica narrativa.

Mas por trás da exuberância estética existe um filme profundamente interessado em personagens à margem. Drag queens, fantasmas, amantes, músicos, andarilhos e figuras deslocadas ocupam o centro da narrativa, existe até um certo diálogo com "Anhell69" (2022), de Theo Montoya. O Babel do título funciona como um refúgio para identidades dissidentes, um espaço onde desejo, culpa, amor e morte coexistem sem hierarquias.

“Llueve sobre Babel” filma corpos, afetos e performances com liberdade absoluta, recusando qualquer necessidade de explicação ou justificativa. O filme entende a comunidade LGBTQIA+ como parte orgânica de seu universo fantástico, abordando temas como autoaceitação, homofobia, desejo e pertencimento sem perder o tom lúdico. Há algo profundamente libertador na forma como Gala del Sol transforma o inferno dantesco em um carnaval de diversidades sexuais e afetivas.

Nem tudo funciona com a mesma intensidade. A estrutura coral, repleta de personagens e subtramas, por vezes ameaça se perder dentro do próprio labirinto que constrói. Algumas histórias recebem mais atenção do que outras, enquanto certas passagens parecem existir apenas para alimentar a estética fantástica. Ainda assim, mesmo quando a narrativa vacila, a energia criativa da direção impede que o interesse desapareça.

“Llueve sobre Babel” prefere correr o risco do excesso ao conforto da previsibilidade. Entre a fantasia tropical, o melodrama queer, a comédia ácida e a reflexão sobre mortalidade, Gala del Sol entrega uma estreia ousada, delirante e absolutamente autoral. É um filme que dança com a morte, mas sem jamais perder o prazer de estar vivo, transformando Cali em um território onde o impossível não apenas existe, mas pulsa ao ritmo de salsa, neon e a imersão na resistência.


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