segunda-feira, 6 de abril de 2026

Phantoms of July (Sehnsucht in Sangerhausen, Alemanha, 2025)

 

“Phantoms of July” segue Ursula (Clara Schwinning), uma garçonete da Alemanha Oriental de coração partido, e Neda (Maral Keshavarz), uma jovem iraniana que vive entre vídeos, deslocamentos e incertezas. As duas se cruzam quase por acaso e acabam envolvidas em uma espécie de caça a fantasmas nas montanhas, numa narrativa que mistura amizade improvável, desejo de fuga e uma melancolia persistente. O filme, de Julian Radlmaier, constrói algo atmosférico e sensorial.

Radlmaier aposta aqui em um tom suave, quase contemplativo. A cidade de Sangerhausen não é apenas cenário, mas uma presença que pesa sobre os personagens, como se o passado estivesse sempre infiltrado no presente. Há uma sensação constante de deslocamento, de vidas que não se encaixam, de pessoas que sonham com outra existência sem saber exatamente qual.

A estrutura é fragmentada, quase como pequenas histórias que se cruzam, o que cria um efeito interessante de acúmulo, como se cada personagem carregasse seu próprio fantasma. Ursula, presa a uma rotina sufocante, e Neda, lidando com questões de identidade e pertencimento, funcionam como pólos de uma mesma inquietação: a sensação de estar sempre à margem de alguma coisa.

A estética de “Phantoms of July” aposta em um surrealismo discreto, que não explode na tela, mas se infiltra lentamente. Elementos estranhos surgem sem explicação, convivendo com o cotidiano de forma quase natural. Esse equilíbrio entre o banal e o absurdo cria uma atmosfera muito particular, onde o real parece sempre prestes a se desdobrar em algo inesperado.

A representatividade queer aparece de forma sutil, nunca é o centro, especialmente na relação entre Ursula e Zulima (Henriette Confurius), uma musicista com quem ela desenvolve uma breve conexão afetiva e romântica, como uma faísca. Não há grandes declarações ou conflitos explícitos em torno disso. O desejo surge como extensão natural da solidão e da busca por pertencimento, inserido em um universo onde identidades, origens e afetos estão sempre em trânsito.

“Phantoms of July” é uma obra sobre desejo, deslocamento e encontros improváveis, onde o que importa não é tanto a resolução, mas o caminho. Entre fantasmas literais e emocionais, o filme sugere que talvez viver seja justamente isso: aprender a coexistir com aquilo que não conseguimos explicar completamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário