sexta-feira, 3 de abril de 2026

Touch Me (EUA, 2025)

 

“Touch Me”, de Addison Heimann, o mesmo de "Hypochondriac", é o tipo de filme que abraça o absurdo e, justamente por isso, encontra um lugar muito particular dentro do terror queer. A história segue Joey (Olivia Taylor Dudley), uma jovem emocionalmente instável, e seu melhor amigo Craig (Jordan Gavaris), cuja relação codependente é abalada pela chegada de Brian ((Lou Taylor Pucci), um alienígena que transforma completamente a dinâmica entre eles. O que começa como estranhamento rapidamente vira obsessão, desejo e um mergulho desconfortável em tudo aquilo que eles tentavam evitar.

Heimann constrói o filme como um pesadelo psicossexual cheio de humor ácido e toques leves de body horror. Não é terror no sentido clássico, de sustos ou monstros escondidos, mas algo mais íntimo e perturbador. O “toque” do título vira metáfora para vício, necessidade emocional e fuga da dor. À medida que Joey e Craig se deixam envolver por Brian, o filme vai revelando camadas de trauma, ansiedade e solidão que nunca foram realmente enfrentadas. É um desconforto que mistura riso nervoso com identificação.

“Touch Me” aposta em uma estética meio lo-fi, meio delirante, que combina com a proposta. Os elementos de ficção científica não tentam parecer realistas, e isso funciona a favor da narrativa. O alien não é só uma presença externa, mas quase uma extensão dos desejos e fragilidades dos personagens. Há algo de grotesco, mas também de bonito, nessa forma como o filme mistura corpo, emoção e fantasia.

A representatividade queer não está nas margens, ela é o centro de tudo. Craig, interpretado por Gavaris, não é apenas “o amigo gay”, mas parte essencial dessa dinâmica afetiva caótica. A relação entre ele e Joey carrega aquela energia clássica de amizade queer-platônica, intensa e dependente, enquanto o triângulo com Brian abre espaço para uma sexualidade fluida e um modelo de relação que foge completamente da norma. O filme flerta com o poliamor, com o desejo não categorizado e com a ideia de que conexões afetivas podem ser tão destrutivas quanto libertadoras. Essa abordagem conversa diretamente com a proposta de Heimann de fazer um cinema de gênero que dialogue com experiências reais da comunidade LGBTQIA+.

O mais interessante é como o filme usa o exagero para falar de coisas muito reconhecíveis. Por trás do alien, dos tentáculos e do humor meio escatológico, existe uma história sobre pessoas que não sabem lidar com suas próprias emoções. A dependência entre Joey e Craig, por exemplo, é tão intensa que chega a ser sufocante. Brian entra como catalisador, mas o problema já estava ali antes. O terror, nesse sentido, não vem do outro, mas do que os personagens carregam.

“Touch Me” pode dividir opiniões, especialmente por sua recusa em ser mais “acessível”. Mas há uma honestidade no caos que torna a experiência marcante. Addison Heimann entrega um filme estranho, provocativo e profundamente ligado a uma sensibilidade queer que não busca aprovação. Entre o desconforto e a identificação, ele cria um espaço onde o exagero vira linguagem e onde a amizade, mesmo quando distorcida, continua sendo o que move tudo.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Pierce (刺心切骨, Singapura/Taiwan/Polônia, 2024)

"Pierce", de Neticia Low, é um thriller psicológico que se desenrola com a precisão de um golpe de esgrima, mas também com a imprevisibilidade de um confronto emocional entre irmãos. A história segue Zijie (Liu Hsiu-Fu), um jovem atleta disciplinado que vê sua rotina abalada com a volta do irmão mais velho, Zihan (Tsao Yu-Ning), recém-saído da prisão após matar um oponente durante uma luta. O reencontro, que poderia ser de reconciliação, rapidamente se transforma em um jogo tenso de influência, manipulação e desconfiança.

Low, que já foi esgrimista, filma esse universo com um olhar quase íntimo. A esgrima não aparece só como cenário, mas como linguagem do filme. Cada movimento, cada aproximação entre os personagens, carrega uma tensão física e psicológica. As máscaras, os uniformes, o silêncio antes do ataque, tudo contribui para essa sensação de que ninguém ali está completamente revelado. Há sempre algo escondido, calculado, esperando o momento certo de avançar.

O grande motor dramático está na relação entre os irmãos. Zihan surge como uma figura magnética e perigosa, alguém que mistura carisma e ameaça de um jeito difícil de decifrar. Ele se infiltra na vida de Zijie com uma presença que parece ao mesmo tempo protetora e corrosiva. Já Zijie oscila entre admiração e medo, como se estivesse preso em uma disputa que não sabe exatamente como enfrentar. Esse conflito é construído com paciência, sem pressa, deixando o desconforto crescer aos poucos.

É dentro desse ambiente tenso que surge a dimensão queer do filme, de forma surpreendentemente delicada. Zijie é gay, e desenvolve um crush tímido e sincero por Hui (Rosen Tsai), um colega de esgrima. O mais interessante é como isso é tratado: sem grandes revelações, sem drama excessivo, quase como qualquer primeiro amor. Zihan, inclusive, percebe rapidamente e incentiva o irmão, transformando o flerte em uma espécie de estratégia de combate. Já a mãe representa um silêncio mais incômodo, sugerindo negação ou recusa. Essa abordagem naturalista, alinhada ao contexto de Taiwan como um país mais progressista em relação aos direitos LGBTQIA+, dá ao filme uma leveza pontual que contrasta com o restante da narrativa.

Esse contraste é fundamental. Enquanto a relação entre os irmãos é marcada por controle, mentira e tensão, o afeto de Zijie por Hui oferece uma espécie de respiro emocional. Não é uma subtrama que domina o filme, mas funciona como contraponto, lembrando que ainda existe espaço para vulnerabilidade e descoberta em meio ao caos. Ao tratar esse romance sem transformá-lo em conflito central, Low reforça uma ideia simples, mas poderosa: histórias queer também podem existir fora do trauma.

“Pierce” é construído como um filme sobre confiança e máscaras, sobre aquilo que mostramos e aquilo que escondemos. Com uma direção segura e performances contidas, Nelicia Low cria um drama que prende não pelo excesso, mas pela tensão constante. Entre golpes calculados e sentimentos mal resolvidos, o filme encontra sua força justamente nesse equilíbrio entre dureza e delicadeza.


Simão do Deserto (Simón del Desierto, México, 1965)

“Simão do Deserto”, de Luis Buñuel, é um média-metragem que acompanha o eremita Simão (Claudio Brook), um homem que decide viver no topo de uma coluna no meio do deserto para se aproximar de Deus. De cima, ele tenta resistir às tentações do mundo, enquanto o Diabo (Silvia Pinal) aparece repetidamente, assumindo diferentes formas para testá-lo. O que começa como uma sátira religiosa logo se transforma em algo bem mais inquietante, quase um delírio sobre desejo, repressão e hipocrisia.

Buñuel não tem o menor interesse em tratar a fé com reverência. Pelo contrário, ele desmonta o misticismo como se estivesse arrancando suas camadas uma a uma. Simão, isolado e idolatrado, parece mais preocupado com sua própria imagem de santidade do que com qualquer transcendência real. A coluna onde ele vive, erguida no meio do nada, funciona quase como um símbolo fálico: uma tentativa de se elevar acima do corpo que, ironicamente, só torna esse corpo ainda mais presente. Quanto mais ele tenta negar o desejo, mais o desejo se infiltra em tudo.


E aí entra o Diabo de Silvia Pinal, a mesma atriz eternizada anos antes em Viridiana (1961) , que está simplesmente fascinante. Ela surge ora como uma mulher sensual, exibindo pernas, seios e uma feminilidade exagerada, ora como figuras mais andróginas, chegando até a assumir uma aparência masculina e barbada em determinado momento. Esse jogo de transformações bagunça completamente qualquer noção fixa de gênero ou moralidade. O Diabo não é só tentação sexual: ele é instabilidade pura, uma força que embaralha santo e pecador, masculino e feminino, sagrado e profano.


Dentro desse ambiente quase exclusivamente masculino, o filme deixa escapar um subtexto homoerótico curioso e desconfortável. A figura do jovem monge Matías (Enrique Álvarez Félix), imberbe, delicado e “arrumado demais”, desperta em Simão uma desconfiança que vai além da disciplina religiosa. Ao mandá-lo embora “até que lhe cresça a barba”, Simão revela um medo que não é só do pecado em geral, mas de um desejo específico que ele não consegue (ou não quer) nomear.


E não é só isso. O deserto de Simão do Deserto está longe de ser um espaço puro. Pelo contrário, ele é povoado por desejos desviantes, estranhos, até grotescos. Há o anão que fala das cabras de forma obscena, pequenas interações carregadas entre os homens, uma energia sexual difusa que parece escapar por todos os lados. O que Buñuel sugere, com seu humor ácido e surrealista, é que a repressão não elimina o desejo: ela só o deforma, empurrando-o para lugares inesperados e muitas vezes mais perturbadores.


“Simão do Deserto” termina sendo uma provocação deliciosa e incômoda. Buñuel não oferece respostas nem conforto, só expõe o quanto nossas tentativas de controlar o desejo são frágeis, às vezes ridículas. Entre o sagrado e o profano, ele sugere que talvez a maior farsa esteja justamente na ideia de pureza. E é nesse terreno instável, cheio de ambiguidade e desejo reprimido, que o filme continua vivo, estranho, atual e surpreendentemente queer.


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Mi Cielo, Tu Infierno (Cel meu infern teu, Espanha, 2026)

“Mi cielo, tu infierno” segue Adela (Tània Fortea) e Victoria (Sandra Cervera), duas mulheres que se apaixonam na Espanha dos anos 60 e 70, em pleno final do franquismo, quando o desejo entre pessoas do mesmo sexo era criminalizado e tratado como desvio moral. Dirigido por Alberto Evangelio, o filme constrói esse amor ao longo do tempo, atravessado por perseguições, silêncios forçados e separações dolorosas. Ainda assim, por mais que o mundo tente apagá-las, Adela e Victoria permanecem presas uma à outra, como se o afeto fosse a única coisa que resiste à violência histórica.

Evangelio, em seu segundo longa, opta por uma abordagem direta, sem grandes floreios estéticos ou sentimentalismo fácil. Há uma secura no modo como a história é contada que combina com o período retratado. A repressão não aparece como conceito abstrato, mas como algo concreto, cotidiano, que invade casas, famílias, religião e corpos. O roteiro de Noelia Martínez e Ana Piles evita romantizar o sofrimento, preferindo mostrar como o amor entre essas duas mulheres se constrói justamente sob pressão, entre medo constante e pequenos gestos de sobrevivência.

O título já entrega a ambiguidade central do filme. “Mi cielo, tu infierno” sugere que esse amor é ao mesmo tempo refúgio e condenação. Adela e Victoria encontram uma na outra um espaço de liberdade, mas também carregam as consequências desse vínculo em um mundo que não permite que ele exista. Essa tensão atravessa toda a narrativa, criando uma sensação de urgência emocional que nunca se resolve completamente. Amar, aqui, é também colocar-se em risco.

As duas protagonistas sustentam o filme com performances intensas e contidas. Tània Fortea constrói Adela com uma fragilidade que nunca vira fraqueza, enquanto Sandra Cervera dá a Victoria uma presença mais firme, quase desafiadora. Juntas, elas criam uma dinâmica que escapa de estereótipos fáceis. Não há idealização, nem pureza. Há desejo, frustração, ciúme, medo. Um relacionamento vivido em condições extremas, onde cada escolha tem peso.

O contexto histórico não é apenas pano de fundo, mas parte ativa do conflito. A Espanha franquista surge como um ambiente sufocante, onde Igreja, Estado e família operam como forças de controle. O filme se aproxima, em alguns momentos, de um thriller psicológico, especialmente quando a vigilância e a paranoia se intensificam. Essa camada adiciona tensão à narrativa e reforça a ideia de que o perigo não está apenas fora, mas também internalizado nas personagens.

Sem recorrer a grandes discursos, “Mi cielo, tu infierno” é um retrato duro e honesto de um amor sáfico em tempos de repressão. O filme aposta na memória como forma de resistência, mostrando que certos afetos não desaparecem, apenas mudam de forma ao longo do tempo. Ao acompanhar Adela e Victoria, Alberto Evangelio constrói uma história que dói sem manipular, que emociona e que encontra, na persistência do desejo, uma forma silenciosa de enfrentamento.