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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

The Enchantment of the Blue Sailors ( Die Betörung der blauen Matrosen, Alemanha Ocidental, 1975)


 “The Enchantment of the Blue Sailors” é uma obra singular do cinema experimental alemão dos anos 1970, dirigida por Ulrike Ottinger e Tabea Blumenschein. O filme de cerca de 50 minutos já demonstrava, nas suas primeiras sequências, a busca de Ottinger por uma linguagem cinematográfica livre das amarras do realismo narrativo tradicional.

O longa se organiza menos como história linear e mais como uma colagem visual de imagens, sons e símbolos que contrariam a lógica diária. No centro do imaginário do filme está uma “sirene” e um “jovem pássaro” interpretados por Blumenschein, figuras que se metamorfoseiam em outros corpos e papéis ao longo da projeção. Essa alternância associa­-se a encontros com marinheiros, um velho pássaro e personagens fantásticos em cenários que flutuam entre o real, o mítico e o grotesco.

A abordagem estética é um mergulho deliberado na sensorialidade. A narrativa fragmentada é pontuada por sequências de collage e ritmos visuais que contrapõem mundos orgânicos e artificiais, como se filmassem sonhos em vez de eventos concretos. Elementos da cultura popular, música, personagens bizarros e citações poéticas, são costurados para sugerir universos possíveis além da realidade que conhecemos.

No elenco, nomes marcantes como Valeska Gert, uma atriz lendária do teatro expressionista, e Rosa von Praunheim, importante realizador queer falecido este ano, participam de um elenco que mistura ficção e personificação de arquétipos. A própria Ottinger aparece como “Ninfa do Romantismo Alemão”, uma figura que percorre e subverte tradições culturais com irreverência e teatralidade.

A presença de artistas queer como Rosa von Praunheim e Frank Ripploh no elenco amplia a importância histórica do filme dentro de um cinema que, mesmo sem exposição explícita de sexualidades, desafia normas de gênero e representação. A série de imagens que reúnem marinheiros que se beijam, seres híbridos e figuras não bináries, o que faz de “The Enchantment of the Blue Sailors” uma obra precursora na interseção entre performance, identidade e experimentalismo visual.

Mais do que um simples exercício formal, o filme funciona como declaração de liberdade estética. Ao desintegrar expectativas convencionais de narrativa e ao convidar personagens que desconstroem categorias rígidas de gênero e papel social, Ottinger e Blumenschein moldam um cinema que é manifesto, ritual e sonho. A sensação que fica é a de que outras vidas e outros modos de existir são possíveis,  mesmo quando a lógica tradicional do cinema tenta aprisioná-los num só significado.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

O Rei das Rosas (Der Rosenkönig, Alemanha Ocidental/França/Países Baixos/Portugal, 1986)


O Rei das Rosas, de Werner Schroeter, é uma obra-prima do cinema experimental alemão, impregnada de uma sensibilidade queer que desafia convenções narrativas e sociais. Ambientado em um vilarejo português, o filme segue Albert, um jovem obcecado por cultivar rosas, cuja relação intensa com sua mãe, Anna, e sua paixão por um prisioneiro misterioso formam o cerne da trama. O homoerotismo permeia a narrativa, expresso na devoção quase mística de Albert ao prisioneiro, que transcende a mera atração física para se tornar um ritual de desejo e alienação. Schroeter, um ícone do cinema de vanguarda, usa o isolamento rural e a simbologia das rosas para explorar a interseção entre amor, loucura e repressão, criando um estudo visual sobre a complexidade do desejo humano em um contexto de tabus sociais.

A narrativa de O Rei das Rosas é deliberadamente fragmentada, rejeitando a linearidade em favor de um mosaico onírico que prioriza sensações sobre coerência. A trama se desdobra em uma série de vinhetas que misturam rituais, memórias e alucinações, centradas na tríade de Albert, Anna e o prisioneiro. O vilarejo português, com sua atmosfera isolada e quase atemporal, serve como um microcosmo para os conflitos internos dos personagens, onde o desejo e a loucura se entrelaçam em atos de violência e devoção.

A estética de O Rei das Rosas é um dos seus maiores triunfos, marcada por um visual febril que define o estilo de Schroeter. A fotografia de Wolfgang Pilgrim utiliza cores saturadas, com vermelhos intensos das rosas contrastando com sombras escuras, criando um ambiente que oscila entre o sagrado e o profano. Cada quadro é cuidadosamente composto, com rosas, sangue e corpos humanos entrelaçados em uma dança visual que evoca tanto beleza quanto decadência.

O Rei das Rosas permanece uma obra atemporal, um poema visual que desafia categorizações e continua a ressoar com públicos que buscam narrativas queer ousadas. Schroeter cria um universo onde o homoerotismo é tanto uma força libertadora quanto destrutiva, entrelaçado com temas de alienação e transcendência. A fusão de desejo, loucura e beleza faz do filme um marco do cinema avant-garde, que exige entrega do espectador, mas recompensa com sua profundidade emocional.


domingo, 16 de outubro de 2022

Dzi Croquettes(Brasil, 2009)


Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, reivindica o grupo de teatro de vanguarda homônimo como uma das principais figuras da história brasileira de enfrentamento de Estado e resistência artística, durante a Ditadura Militar.


Mais do que apenas um “bando de bichas” (como diriam os guardas que os vigiavam), a trupe de 13 membros da década de 1960 de rainhas poliglotas fuck gender cobertas de glitter era “queer” em uma época em que a palavra ainda era apenas mais um insulto gay.

Contornando a censura através do sarcasmo, criando justaposições intrincadas e combustíveis, incluindo uma drag negra entregando uma versão angustiante de Ne Me Quittes Pas, de Jacques Brel, em um vestido de noiva rosa e botas de combate.

Os depoimentos do filme são fornecidos  principalmente por ex-membros do grupo e a nata dos dos atores brasileiros e diretores, mas também Liza Minnelli, uma das madrinhas mais entusiasmadas dos Dzi Croquettes.

A certa altura, eles tentam conquistar a Europa, apresentando-se em Paris para nomes como Omar Sharif, Catherine Deneuve, Jeanne Moreau e Josephine Baker, que solicita que os Dzi Croquettes a substituam como principal ato do Teatro Bobino quando ela morrer, o que eles fazem.


Dzi Croquettes é em grande parte uma homenagem ao protagonista do grupo, o coreógrafo e dançarino americano Lennie Dale, que adotou o Brasil como palco para suas obras de arte experimentais, que muitas vezes incluíam corpos andróginos em maquiagem de palhaço espalhando asas e se dirigindo ao público em vários idiomas, alegando não ser homens, mas também não mulheres, “apenas pessoas, como todos vocês”. 


O que é fácil de apreciar no documentário, no entanto, é a maneira como ele remonta a trajetória dos Dzi Croquettes sem polir suas bordas irregulares. É através de seu brilho e de suas falhas que eles se tornam musas inspiradoras.
Em vez de encerrar com intertítulos fáceis, Dzi Croquettes oferece seu desfecho inevitável por meio de relatos não hagiográficos de amigos íntimos; as orgias, a cocaína, o contrabando de maconha, os assassinatos, o “câncer gay” estão todos lá. E ao contrário do que Issa sugere, eles não parecem tão lindos e luminosos quanto o glitter.




domingo, 3 de julho de 2022

Os Garotos Selvagens(Les Garçons Sauvages, França, 2017)


Bertrand Mandico, é certamente um frescor. Videomaker de arte contemporânea e cineasta, ele vem aprimorando uma textura audiovisual há vinte anos para extrair uma experiência sensorial. O resultado é um longa de estreia tão perturbador e bonito que se poderia pensar nas obras mais belas e sujas do new queer cinema, especialmente Swoon - Colapso do Desejo(1992).

Em um primeiro momento consideramos Os Garotos Selvagens como um livro ilustrado para adultos, cuja promessa do proibido nos leva a virar as páginas e nos render ao deslumbramento. Mas, olhando mais de perto, o filme consiste em compor uma obra estética impressionante de precisão e radicalidade, seguindo caminhos já traçados pelo cinema, em particular os do filme de aventura.


O diretor adicionou uma nova e fresca sensualidade ao gênero, ao dispor em lugares estratégicos, seios, pelos, pênis de diversas formas. momento de estupefação antes de poder julgar o verdadeiro valor de todos os motivos, orgânicos e oníricos, que percorrem o filme. Tanguy (Anaël Snoek), o protagonista, é um dos cinco adolescentes que primeiro estupram sua professora e depois são responsáveis ​​por sua morte, como consequência os jovens são mandados para uma ilha onde serão doutrinados por um velho lobo do mar.

Atravessada por fluidos que ora provocam um preto e branco sedoso, ora cores lisérgicas, a fotografia carrega em si seu próprio encanto, mordendo, arranhando, açoitando aqueles que abriga. Uma saborosa e desconcertante mistura do sal grosso do mar agitado e do açúcar que escorre dos doces de lanchonetes vintage.


Jovens faunos blasfemos e ateus, os cinco adolescentes admitem acreditar-se imortais antes que a ilha opere sua transformação física e emocional. Assim, ao descobrir sua feminilidade, Os Garotos Selvagens não apenas ganham uma nova percepção dos corpos mas também de humanidade nesse fervor caleidoscópico de um Éden pagão.


sexta-feira, 4 de junho de 2021

Magnicídio(Jubilee, Reino Unido, 1978)

Magnicídio, lançado no ano do jubileu de prata de Elizabeth II, em 1978, como uma provocação aparentemente dirigida a quase todos causou alvoroço. O segundo longa de Derek Jarman é uma mistura crua de punk/rock, violência, nostalgia, golpes no catolicismo e nudez abundante que o tornam tão anárquico quanto qualquer coisa que o diretor faria a seguir.

O filme começa com Elizabeth I (Jenny Runacre) e seu alquimista, Dr. John Dee (Richard O'Brien), que invoca Ariel (David Brandon), o ser mágico e andrógeno de William Shakespeare em A Tempestade, casualmente o longa seguinte do diretor. Graças aos poderes de Ariel imbuídos em um cristal, o trio viaja através do tempo a uma visão brutal e distópica da Londres, dos anos 1970. 


A cidade está devastada, mas viva, as ruas abrigando grupos violentos de gangues de garotas punk que se defendem do assédio policial e causam confusão. Carrinhos de bebê estão em chamas e pessoas são mortas enquanto bandas, incluindo Adam And The Ants e Siouxsie And The Banshees, tocam incessantemente na televisão.


O movimento punk, representado pelas personagens Amyl Nitrate(Jordan), com uma maquiagem que remete à David Bowie, Mad Medusa(Toyah Willcox), a francesa Chaos(Hermine Demoriane), os irmãos incestuosos Sphynx(Karl Johnson) e Angel(Ian Charleson), e a rainha Bod, interpretada pela mesma atriz que faz Elizabetth I, remete a um universo libertino e caótico em um apartamento que dividem. 


A violência ritual está se espalhando como está essa nova onda musical, pronta para ser cooptada por magnatas financeiros, como o excêntrico e afetado Borgia(Orlando), sempre com sua risada diabólica lançando novos e transgressores talentos. A Rainha Elizabeth II está morta e o Palácio de Buckinghan se tornou um estúdio de gravação.


A narrativa de Magnicídio é pessimista e até niilista. Os jovens são facilmente comprados com novos modismos musicais, a sociedade é seriamente propriedade de homens de negócios e a história é o único refúgio seguro, embora inalcançável. 


Os momentos musicais são memoráveis, Amyl Nytrate evoca Ziggy Stardust em Rule Brittania, Adam and the Ants nos presenteia com sua Plastic Surgery e Lounge Lizard(Jayne Count) alucinada, em trajes femininos, simplesmente arrasa interpretando Paradise Paranoia, segundos antes de morrer. Há ainda um inusitado momento de uma garota cantando Edith Piaf em uma corda bamba.


O filme não é uma sátira do movimento punk, mas uma obra sobre a perda de identidade, cultura e comunicação. Um manifesto estético que floresceu em lugares obscuros, explodidos por bandas como Sex Pistols, e agora tornados tão fantasmagóricos quanto Dee, Elizabeth I e sua escudeira anã, desaparecendo mais uma vez de volta ao período vitoriano.