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quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Three Headed Beast(EUA, 2022)


Three Headed Beast, de Fernando Andrés e Tyler Rugh, retrata uma relação poliamorosa bissexual com delicadeza e empatia, mas seu principal apelo é a tranquilidade. Contada quase sem diálogo, ela gira em torno das três pessoas envolvidas que anseiam por coisas diferentes.

Ambientado na cidade natal dos cineastas, Austin, Texas, o longa acompanha os parceiros Nina (Dani Hurtado) e Peter (Jacob Shatz), que há algum tempo mantém um relacionamento aberto. Ambos são bissexuais e usam isso como uma oportunidade para explorar suas sexualidades enquanto permanecem comprometidos um com o outro.

Enquanto Nina tem alguns amigos com benefícios, Peter tem encontros frequentes com Alex (Cody Shook), um gay orgulhoso de vinte e poucos anos que está em uma fase de viver a vida e buscar experiências sem compromissos.

Seu vínculo parece ser mais forte do que o que Nina tem com seus vários parceiros e parceiras. Apesar da falta de diálogo na primeira metade do filme, os atores são capazes de transmitir seus estados emocionais internos fisicamente sem ter que usar uma palavra. 


Em Three Headed Beast, a abordagem experimental que os cineastas  adotam com a falta de comunicação verbal funciona porque dá aos atores mais uma oportunidade de expressar seu alcance emocional.

A cinematografia de Fernando Andrés ajuda a dar ao filme sua estética audaciosa, graças à sua iluminação natural/prática e movimentos de câmera lúdicos.

A história de Three Headed Beast tem tudo a ver com lidar com as nuances de um relacionamento aberto. Mas também é sobre a individualidade dos personagens na tela e os espaços que eles compartilham.  E é esse estudo de personagem que ajuda a examinar os prós e contras do conceito em questão.




quinta-feira, 30 de setembro de 2021

No Caminho das Dunas(Noordzee, Texas, Bélgica, 2011)



O despertar sexual é uma parte importante da vida de todos. E assim, temos muitos filmes sobre o gênero. No Caminho das Dunas, do diretor estreante Bavo Defurne, baseado no romance de André Sollie, insere uma perspectiva diferente e vital, e se beneficia disso, através de um apurado senso estético e belíssimas referências.

Pim(Jelle Florizoone) é um adolescente que mora com a mãe em uma pequena cidade costeira da Bélgica. Na cena de abertura do filme, vemos uma versão mais jovem do personagem(Ben Van den Heuvel) por meio de sua crescente sexualidade, mostrando curiosidade na maquiagem e nas roupas de sua mãe.

Depois dessa sequência de abertura, pulamos para Pim prestes a completar quinze anos e há uma aparente mudança dramática no resto do filme. À medida que Pim está crescendo e embora ele ainda esteja curioso sobre seus impulsos sexuais, o mundo fica mais escuro e menos indulgente. A beleza mágica criada na infância se perde em tristeza, raiva (o tipo silencioso) e angústia. 


A maior parte do filme trata da relação entre Pim e Gino(Mathias Vergels), um menino mais velho que mora ao lado. Pim anseia por Gino, completamente obcecado, muitas vezes pensando em seus encontros anteriores e constantemente desenhando o rosto do jovem.


A admiração não deixa de ser correspondida, já que o relacionamento deles em várias ocasiões se torna físico, apesar do interesse de Gino em não se declarar gay. Para complicar as coisas, está a irmã mais nova de Gino, que tem uma queda por Pim e não entende por que ele não lhe dá mais atenção.

Com um olhar apuradíssimo para o design de produção e temas da juventude, o filme mostra forte inspiração em Os Incompreendidos(1959), de François Truffaut.  Muitos dos detalhes são semelhantes entre os dois filmes, desde mães promíscuas afastando seus filhos até momentos de catarse acontecendo nas praias.

O diretor pega muitas dicas visuais do histórico coming of age, dando ao filme uma aparência que quase só pode ser descrita como europeia. O visual do filme é o seu ponto forte, lindamente filmado e desenhado, com uma paleta de cores intensa.


No Caminho das Dunas é um filme sem dúvida silencioso, e isso funciona bem. A sutileza nas cenas de sexo é muito bem conduzida, e há um limite entre um certo voyeurismo e um bonito conto sobre o primeiro amor sempre acompanhado de uma delicada trilha sonora.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Pit Stop(EUA, 2013)



Pit Stop, um filme lírico e de baixo orçamento de Yen Tan, que anos mais tarde dirigira o delicado O Ano de 1985(2018), pinta um retrato da vida de gays em cidades pequenas. Segundo o diretor, que é de origem malaia, a ideia veio enquanto fazia uma viagem e observava o interior dos Estados Unidos.

O filme acompanha a história paralela de dois personagens. Gabe (Bill Heck) está morando com sua ex-mulher, com quem está criando uma filha. Ele saiu recentemente de um relacionamento com um homem casado. Ela está namorando, mas ainda o ama.


Ernesto (Marcus DeAnda) está terminando com seu namorado Luis(Alfredo Maduro), muito mais jovem. Ele também cuida de um ex-namorado que está em coma, numa possível referência ao clássico Buddies(1985).


Pit Stop vai e volta entre a vida cotidiana desses homens muito solitários, que anseiam dolorosamente pelo certo. À primeira vista, as histórias podem parecer desconexas, mas o destino, nos mostra mais tarde que tem algo reservado para Gabe e Ernesto.



Os protagonistas transmitem habilmente a dolorosa solidão da vida gay masculina na pequena cidade do Texas. O vilarejo tranquilo que eles chamam de lar é, como tantos outros, um lugar onde se assumir não é uma opção. 


Um aspecto impressionante de Pit Stop é o quão bem desenvolvidos são os personagens secundários. Quando a ex-mulher de Gabe, Shannon (Amy Seimetz) sai com uma colega de trabalho, o público vai junto com ela. O diretor permite que vejamos como tem sido difícil deixar o homem que ama e se conectar com alguém novo.


O longa, roteirizado por Tan, em parceria com David Lowery, é bem-sucedido como um estudo da universalidade de sair e entrar em relacionamentos, capturando as pessoas conforme elas decidem que precisam conhecer outras, mas ainda não estão totalmente prontas para isso.

No Pit Stop, a solidão e o amor abrangem idade, orientação, cor da pele e classe. O longa  é um filme escuro e intenso que, faz um verdadeiro estudo da psique humana, lembrando os espectadores como podemos ser parecidos, enquanto seres humanos.