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terça-feira, 1 de julho de 2025

Súper Sara (Espanha, 2025)


"Súper Sara", criada e dirigida por Valeria Vegas, conhecida como autora da biografia de “La Veneno”, é uma docusérie em três episódios que mergulha na vida de Sara Montiel, uma das figuras mais emblemáticas da cultura POP e do cinema espanhol e um símbolo de resistência e liberdade. Utilizando materiais inéditos, como fitas domésticas, e entrevistas com pessoas próximas, como seu filho Zeus Montiel, Alaska, Loles León e Bibiana Fernández, a série constrói um retrato multifacetado de Montiel. Mais do que uma atriz que conquistou Hollywood, ela é apresentada como uma pioneira feminista e um ícone queer, desafiando as normas sociais em pleno franquismo.

A narrativa de "Súper Sara" é estruturada de forma coesa, com cada episódio explorando diferentes fases da vida de Montiel: sua ascensão ao estrelato, os altos e baixos de sua carreira e os desafios de seus últimos anos. Os materiais inéditos oferecem uma visão íntima e pessoal, enquanto as entrevistas trazem uma perspectiva rica e intergeracional. A série mantém o interesse ao equilibrar momentos de glamour com reflexões sobre as dificuldades enfrentadas por Montiel, especialmente em um contexto repressivo,

A direção de Valeria Vegas é um dos grandes pontos fortes da série. Vegas traz uma abordagem sensível e respeitosa, capturando a essência de Montiel com admiração genuína. A produção é tecnicamente sólida, com uma cinematografia que reflete tanto o brilho da carreira de Montiel quanto a melancolia de seus momentos mais difíceis. Os entrevistados são colocados em um cenário cheio de animal print, batons, tons pasteis e elementos que lembram a musa de “La Violetera”.

Os temas centrais de "Súper Sara" giram em torno da liberdade, da resistência e da representatividade. Montiel é retratada como uma mulher à frente de seu tempo, desafiando normas de gênero e sexualidade em uma era de repressão, o que a consagrou como ícone LGBTQIA+. A série destaca sua luta contra o machismo e o preconceito, com depoimentos de personalidades LGBTQ+, como drag queens, Sharonne, Supremme DeLuxe e Samantha Ballantines, amigos e jornalistas, que reforçam seu impacto.

"Súper Sara" é um tributo poderoso a uma figura pioneira. Seu potencial de apresentar Montiel a uma nova geração é significativo, reforçando sua relevância em discussões sobre feminismo e diversidade. No entanto, para quem não conhece o contexto cultural espanhol ou a história da atriz, a série pode parecer menos acessível, já que assume certo conhecimento prévio.

"Súper Sara" honra o legado de Sara Montiel com um olhar respeitoso e multifacetado. Os pontos fortes incluem a direção sensível de Valeria Vegas, o uso criativo de materiais inéditos e a abordagem cuidadosa da representatividade queer e feminista. A série é uma contribuição valiosa para a história do cinema espanhol, e além, passando pela TV, mundo da fofoca e música, celebrando uma mulher que viveu com coragem e deixou uma marca indelével na cultura e na luta por liberdade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

El Fantasma de la Sauna(Espanha, 2021)

Há subversões que somente o cinema espanhol é capaz, como transportar o clássico O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux, para dentro de uma sauna gay, pelas mãos do diretor estreante Luis Navarrete. El Fantasma de la Sauna traz um elenco muito poderoso, com figuras como Antonia San Juan, a inesquecível Agrado de, Tudo Sobre Minha Mãe(1999), além das drags Supreme DeLuxe ou Pupi Poisson, de Drag Race España.


El Fantasma de la Sauna acompanha Javi(Néstor Goenaga), que vai à Sauna Popular, famosa casa gay, em busca de trabalho para realizar o sonho de ser cantor. O negócio está em baixa e Asun(Antonia San Juan), a dona, decide acolhê-lo em troca de ajuda.

Logo o menino vai perceber que todos ali escondem segredos obscuros: o maior deles, um sujeito misterioso que mora nos dutos de ventilação do local e que acabará se apaixonando pelo jovem. 


A história bebe diretamente da influência de O Fantasma da Ópera, mudando o cenário e levando-o para uma fábula urbana. Com isso, ele se livra da pompa do original para buscar um contraste mais brilhante, ao mesmo tempo que um cenário underground e icônico para a cena gay madrilena.



Navarrete oferece uma visibilidade necessária também no âmbito cultural em uma atmosfera decadente. Graças a isso, o filme é uma celebração da liberdade e de não esconder uma parte da sexualidade que viveu escondida por muito tempo.

Antonia San Juan triunfa em todas as suas cenas, espremendo ao máximo sua comédia. Essa loucura é combinada com um aspecto mais sombrio e nebuloso. Assim, ela consegue dar diferentes nuances ao seu trabalho diante da câmera, o que o coloca como um dos principais atrativos do filme. Supreme De Luxe, Pupi Poisson e Tavi Gallart são divinas em cada uma das sequências, com atuações dentro de um esplêndido exagero kitsch.


El Fantasma de la Sauna tem  composição musical, de Ramón Grau, de notável qualidade, anotando as referências àquela personagem de um conto moderno. Por isso, os números obtêm um resultado muito gratificante, como a apresentação da Sauna Popular através das musas do estabelecimento.


É permitido usar a criatividade para remover as bases estabelecidas e dar vozes diferentes. Por isso, este musical provoca uma terna simpatia, onde uma vez aceitos aqueles aspectos a melhorar, aplaude-se a coragem de o fazer acontecer.


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Drag Race España (Espanha, 2021)


Depois de expandir sua franquia para Tailândia, Reino Unido, Canadá, Holanda e Oceania, chegou a vez do premiado reality RuPaul’s Drag Race desembarcar na Espanha. Produzido pela AtresMedia Premium, a primeira edição do programa teve a missão de manter o formato original, que já apresenta certo desgaste, porém com tempero ibérico.

Na ausência de sua hostess oficial, o programa foi conduzido por Supremme DeLuxe, uma carismática e humanizada surpresa, e contou no painel de jurados com, os criadores da série Veneno, o casal Javier Calvo e Javier Ambrossi, ´Los Javis’, além da estilista em ascensão na Europa, a blasé Ana Locking. Coube a produção adaptar os bordões de RuPaul para o espanhol, como “Felicidrags” , “No la Cagueís” e terminar cada edição do programa entoando o icônico hino gay da Espanha, “A quien le importa”.

Barcelona, Madri, Valencia, as Ilhas Canárias e outras regiões da Espanha foram representadas. The Macarena, Drag Vulcano, a trans boliviana Inti, Arantxa Castilla La Mancha, a conceitual Hugáceo Crujiente, Dovima Nurmi, Sagittaria, a genérica de Aquaria, Pupi Poisson, a mais famosa do cast, Killer Queen e Carmen Farala, competiram semanalmente pela coroa.

Os desafios foram similares com os do formato americano, com números musicais, costura, comédia, roast, uma sátira da série espanhola Física o Química, o makeoker com um time de Rugby e um famigerado Snatch Game, onde as personagens mais conhecidas eram a Duquesa de Alba e a Monalisa, de Hugáceo Crujiente, que mal sabia sorrir. Parece que a equipe de roteiristas ainda precisa melhorar e usar referências, que mesmo espanholas, sejam mais universais.


Por outro lado, a passarela trouxe a tão esperada autenticidade hispânica ao programa. Ícones como a Veneno e Rosalia foram homenageadas, além das Drags precisarem recriar suas raízes espanholas e reinventarem, em roupas, obras de grandes pintores do país, como Dalí, Velásquez e Miró.

No episódio Mocatriz, divertido conceito para Modelo, Cantante y Actriz, inspirado na música de Ojete Calor, banda do ator Carlos Aceres, de Os Amantes Passageiros, a boliviana Inti, não suportou as críticas e desistiu da competição, deixando o palco para Dovima Nurmi brilhar enquanto todos os outros integrantes celebravam a canção.

Além de Carlos Aceres, convidados relevantes participaram da bancada: Paca la Piraña, Bad Gyal, Alaska, um dos maiores ícones LGBTQIA+ no país, Jon Kortajarena, a comediante Suzi Caramelo e a ganhadora do Drag Race Holanda: Envy Peru. As drags Samantha Hudson e Kika Lorace participaram do Snatch Game e o ator Brays Efe, de Paquita Salas, atuou como coach num desafio de comédia.

Pela primeira vez na herstória de Drag Race todas as músicas dubladas foram em espanhol: teve Mónica Naranjo, La Veneno, Bad Gyal, Fangoria, Ojete Calor, Rosalia e Chenoa. O pouco número de episódios, no entanto, impediu de explorar grandes divas do passado, como Lola Flores e Sara Montiel, ainda que o melhor ficasse guardado para o final.

Nunca se ouviu tanto a palavra ‘maricón’ na TV aberta. As piadas de duplo sentido, muitas vezes soaram grosseiras, e sem graça. Por mais que seu time de apresentadores tenha uma ótima química, estão longe do timing que há entre RuPaul e Michelle Visage, mas isso certamente irá melhorar em caso de novas edições, energia e entusiasmo para isso eles demonstraram.

Popular na Espanha, Pupi Poisson, conhecida por ser caricata e muito irreverente, acabou recebendo a faixa de Miss Simpatia. Carmen Farala, Sagittaria e Killer Queen chegaram à grande final. O último maxi challenge foi apresentado por uma irreconhecível Valentina, no telão. As drags iriam fazer um próprio clipe de U wear it well, música de RuPaul, coreografado por Carmelo Segura. Apesar de simples o vídeo ficou bonito, com as três terminando a dublagem no palco principal, para depois desfilarem seus melhores trajes drag.

Antes da decisão final, Carmen Farala, Killer Queen e Sagittaria tiveram que interpretar o sucesso La Gata bajo la lluvia, de Rocío Durcal, com todas as participantes reunidas no palco. Uma música maravilhosa para fechar a primeira edição do programa, apostando nas raízes e se apropriando do formato. Carmen Farala, além do trajeto impecável, consistente e maior número de vitórias, durante todo o programa, fez a performance mais impressionante, com a implacável troca de peruca, e acabou ganhando o cetro, a coroa e o prêmio de 30.000 euros.

Apesar dos detalhes a serem lapidados, a verdade é que poucos poderão dizer que Drag Race España não foi uma boa adaptação do formato original. No meio do caminho entre o estilo americano e o humor e as referências espanholas, o programa enfrenta agora um novo desafio: atrair a atenção do grande público. No final das contas, seria maravilhoso se as mensagens mais do que necessárias que as concorrentes têm lançado sobre leis trans, combate ao bullying ou as realidades de sexualidade e gênero, alcancem uma audiência que realmente precise aprender sobre isso.