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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Two Black Boys in the Paradise (Reino Unido, 2025)

“Two Black Boys in Paradise”, de Baz Sells, transforma um poema de Dean Atta em uma pequena epifania visual sobre amor negro e queer. Em nove minutos, a animação em stop motion reivindica a ternura como gesto político, construindo um romance entre Edan (19) e Dula (18) que se afirma no limiar entre o sensorial e o poético. O curta nasce como leitura cinematográfica do poema homônimo incluído na coletânea “There Is (Still) Love Here”, e preserva tanto sua cadência literária quanto sua pulsação política, traduzindo em textura, luz e movimento um desejo que recusa ser disciplinado pelo mundo exterior.


A trama acompanha Edan e Dula enquanto eles se aproximam, se tocam, se olham com a intimidade de quem descobre que o amor entre garotos negros também pode ser um lugar de alegria e orgulho. O “paraíso” do título não é uma geografia literal, mas um estado construído com a recusa da vergonha, onde homofobia e racismo perdem força diante do desejo de existir plenamente. Esse paraíso se revela no gesto simples de caminhar de mãos dadas em um mercado, uma cena que nasce de um episódio pessoal de Jackson e que se torna aqui um dos símbolos mais potentes de visibilidade pública.


Há fricção constante entre o mundo hostil e o espaço afetivo que eles criam, e o filme não suaviza essa tensão. A presença policial em uma das cenas reforça a vigilância direcionada a corpos negros queer, produzindo uma quebra de atmosfera que evidencia o peso dessas estruturas. Ainda assim, “Two Black Boys in Paradise” insiste em devolver a Edan e Dula o direito à sensualidade e ao prazer, incluindo uma cena sexual tratada com beleza e cuidado, fruto da decisão da equipe de não retirar dos personagens aquilo que tantos filmes ainda lhes negam.


A estética em stop motion é parte essencial dessa força. Tudo no curta parece pulsar com as marcas da mão que molda e anima, criando um espaço tátil e onírico onde o real se entrelaça à fantasia. Os corpos dos personagens carregam textura, peso e presença, e os cenários retomam a lógica do cinema-poema, alinhando visualidade artesanal com a dimensão lírica do texto original.

“Two Black Boys in Paradise” é uma celebração carregada de sensibilidade política, onde a animação stop motion emerge como linguagem para imaginar liberdades ainda negadas. Ao transformar o poema de Atta em imagem, o filme oferece a Edan e Dula um lugar que tantas histórias lhes tiraram, um espaço de sonho, desejo e beleza que afirma que existir em amor também é resistir. 

DRIVE COM O CURTA NOS COMENTÁRIOS

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Mujeres con Hombreras (México, 2025)

 

“Mujeres con Hombreras”, primeira animação original em espanhol do Adult Swim, chega como um delírio visual e narrativo que coloca a América Latina no centro do absurdo. Criada por Gonzalo Córdoba e produzida pelo estúdio mexicano Cinema Fantasma, a série aposta no stop-motion artesanal para construir a Quito dos anos 80 que parece saído de um pesadelo camp: cores saturadas, cenários surreais e personagens que transformam exagero em identidade.

A trama acompanha Marioneta Negocios, uma espanhola rica, excêntrica e orgulhosa, que se estabelece no Equador com a missão inusitada de mudar a forma como os cuyes são vistos: de comida tradicional a bichinhos de estimação. Ao redor dela orbitam Coqueta Buenasuerte, Espada Muleta e Doña Quispe, figuras femininas intensas, contraditórias e cheias de desejos. Mais do que caricaturas, são alegorias de feminilidades diversas, que se impõem pela voz, pela roupa, pela ambição e pelo escândalo.

Um dos grandes destaques está nos romances de Marioneta. Sua relação com Coqueta Buenasuerte e também com a toureira Espada Muleta traz ao centro do palco cenas de puro melodrama sáfico. São momentos em que a série mergulha no exagero romântico, fazendo do amor entre mulheres uma explosão de cores, lágrimas e desejos. Esses encontros, carregados de paixão e teatralidade, transformam o melodrama latino em gesto de afirmação queer.

O que torna “Mujeres con Hombreras” fascinante é a estética. O stop-motion aqui não é só técnica, é linguagem: a textura artesanal dos bonecos, o exagero dos cenários, os ombros pontiagudos que parecem carregar o peso de um melodrama inteiro. Há ecos de Almodóvar em cada cor saturada, em cada gesto dramático que transforma a telenovela e o cinema de autor em uma paródia apaixonada. 

No plano narrativo, o humor absurdo se mistura à crítica social. A obsessão de Marioneta com os cuyes não é apenas uma excentricidade, mas metáfora da tensão entre tradição e modernidade, entre identidade local e consumo globalizado. Nesse choque cultural, surgem as contradições de classe, de gênero e de colonialidade, tratadas com humor corrosivo.

“Mujeres con Hombreras” é um gesto cultural. Ao apostar no espanhol, em personagens femininas intensas e em uma estética camp, a Adult Swim legitima novas vozes e mostra que o surreal latino tem lugar no mapa global da animação. É engraçada, escandalosa, um pouco desigual em ritmo, mas necessária. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

ParaNorman(EUA/Reino Unido, 2012)

Na animação da Laika Studios, de Chris Butler e Sam Fell, Norman (Kodi-Smit-McPhee) é abençoado com a habilidade incomum de ver pessoas mortas. Só que todos ao seu redor veem essa habilidade não como uma bênção, mas como uma maldição. Intimidado na escola, ele se torna amigo de Neil (Tucker Albrizzi), um garoto acima do peso que aprecia, em vez de temer, a capacidade de Norman de ver pessoas mortas.

Quando Norman é abordado por seu tio, Sr. Prenderghast (John Goodman), que também compartilha sua habilidade, ele é informado que o aniversário da bruxa amaldiçoada da cidade que foi executada há 200 anos está se aproximando.


Acontece que Norman deve impedir a bruxa de levantar um exército de mortos. Mas quando as coisas dão errado, Norman e seus amigos se veem sendo perseguidos por um exército de zumbis. A fim de salvar sua cidade, eles devem encontrar uma maneira de acabar com a maldição das bruxas permanentemente.

A condição de Norman funciona como uma metáfora óbvia para ser gay. Ele é referido como tendo "nascido assim" e sofrido bullying na escola por isso. Seu pai e outros membros da família fazem de tudo para tentar encorajar Norman a parar de ver pessoas mortas e apenas tentar ser "normal".


Além deste subtexto, ParaNorman também contém um personagem gay inovador, o irmão mais velho de Neil, Mitch. Do jeito que o personagem, foi um dos primeiros assumidamente gays, a aparecer numa animação infantil.


Tecnicamente,  o stop motion de ParaNorman é impecável devido aos seus visuais impressionantes e sua sensibilidade cômica hilária. O humor é bastante ostensivo para o assunto macabro, com momentos verdadeiramente inteligentes, como o uso do tema do Halloween que passeia pelo filme.